Cinismo, Breves Considerações

Surgiram em Atenas por volta dos séculos IV a.C ressurgindo novamente nos séculos I e II d.C. e se estendendo até o VI século. O fundador do Cinismo, do ponto de vista da doutrina ou teses capitais, foi Antístenes, (embora Dudley informe que Antístenes é apresentado como fundador do cinismo pela influência da informação trazida por Diogenes Laércio) cabendo, a Diógenes de Sínope tornar-se o expoente e símbolo do movimento. Alguns afirmam que este nome (cínico) deriva do ginásio situado próximo a Atenas onde Antístenes ensinava, o Cinosargo; outros, que o nome vem de kyov (cão). Os cínicos não achavam esse apelido pejorativo; às vezes eles próprios se autodenominavam de cão. É provável que realmente o nome venha de cão, pois, assim como o cão, os cínicos eram indiferentes em relação ao seu modo de vida; comiam, dormiam nas praças, nas ruas, conduziam um bastão, uma sacola e andavam descalços.

Na primeira parte, que corresponde ao IV século, os principais filósofos são: Diógenes, Onesícratos, Mônimos, Crates e sua mulher Hiparquia. No terceiro século destacam-se: Bion, Menipos, Cercidas e Teles. No II e I séculos a.C. não há muitas referências ao cinismo. Há um renascimento do cinismo no I século da era cristã. Após um longo período de silêncio, a primeira figura de renome dentro do cinismo é Demétrio. Nada se sabe a respeito de sua família. Provavelmente deve ter nascido por volta do ano 10 e foi um grande opositor dos imperadores romanos: Nero, Calígula e Vespasiano. No início do segundo século da era cristã, o cinismo era mais numeroso em Roma e Alexandria, mas também estava espalhado por todo o mundo de fala grega. Podemos encontrá-los na Ásia, Síria, Atenas, Corinto. Nesse período, os mais conhecidos são: Dio Crisóstomo, Demonax, Oenomao de Gadara, Peregrino e Sostrato.

O cinismo se considera herdeiro do modo de vida socrático. Os cínicos, em geral, sentiam-se, assim como Sócrates, imbuídos de uma missão; ou seja, a preocupação com a alma. No entanto, se diferenciavam de Sócrates porque não procuravam convencer pela dialética nem por qualquer outro discurso, mas pela prática de sua vivência diária. Exercitavam sua liberdade de falar e agir. As virtudes defendidas pelos cínicos como autárkeia (auto- suficiência, bastar-se a sim mesmo) e parresía (falar abertamente, com intrepidez, com audácia), Diógenes desenvolveu e praticou. As coleções de ditos, como a de Diógenes Laércio e as epístolas cínicas trazem outras características do cinismo como seu estilo literário baseado em máximas, diatribe e chreía; recheados de ironia e anedotas.

Essas características podem ser observadas facilmente em Diógenes Laércio. Diógenes mesmo definiu parresía, ou melhor, ressaltou seu valor ao afirmar que “ela habilita a resistir a coerção dos tiranos e expor a pretensão dos intelectuais e políticos. Parresía e anaídeia são duas das características mais evidentes do cinismo. Parresía é o discurso, anaídeia a ação. Talvez tenha sido esta característica que também influenciou para que eles fossem denominados de “cão”.

Há também um outro ensino dos cínicos, distintivo e fundamental que é: viver conforme à natureza (fysis). Diógenes ensinava que devemos nos esforçar para reduzir nossos desejos ao padrão natural. Para conseguir isso devemos nos espelhar nos homens primitivos (aqueles que vivem da natureza e integrados nela) e nos animais, porque eles tiveram suas vidas menos corrompidas. Por trás dessas afirmações estão os padrões de vida da sociedade e a utilidade de determinados conhecimentos impostos pela civilização urbana e o seu sistema de educação. Quanto menos dirigida for a natureza, melhor. Para os cínicos, a natureza das pessoas já estava corrompida, era necessário, portanto, salvar suas vidas do conhecimento inútil que não contribuiria em nada para o desenvolvimento do ser humano sábio, virtuoso, natural. Desta forma, criticaram veementemente o ensino da matemática, geometria, astronomia e da música. O conhecimento útil é o que ensina a humanidade a viver bem, descobrir a si mesmo como pessoa que faz parte de um mundo que pertence a todos. Conhecimento que torna o ser humano mais virtuoso.


________

Artigos Relacionados:










Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.