Características da Filosofia Helênica

Definida em função a caracteres externos, a filosofia helênico-romana é a anterior filosofia grega estendida agora, no terceiro período, ao grande mundo helênico. Fora este criado pela junção às cidades gregas., - por obra da conquista de Alexandre, - do então vasto império persa, que incluía a Ásia Menor, Babilônia e Egito.


Ao ser este mesmo mundo helênico tomado pelos romanos, cujo império se dilatava no Ocidente até a península ibérica, manteve-se a sua clássica cultura. Dali o nome mais comum atribuído à filosofia deste tempo pós-socrático - período helênico-romano.



Cronologicamente adverte-se para as datas iniciais de 323 a.C., quando faleceu Alexandre Magno, e para a de 322 a.C., quando logo depois também falecida Aristóteles. Como data final do período se dá o da queda do Império Romano do Ocidente, em 476 d.C.

Corresponde a filosofia helênico-romana ao período final da época antiga da história da filosofia. Quando denominados os seus três períodos, em pré-socrático, socrático, pós-socrático, é a este último que se diz mais adequadamente período helênico-romano.

Pelo seu espaço geográfico maior, a filosofia helênico-romana deixou de ser a de um só povo, para difundir-se para todo o mundo civilizado do Mediterrâneo.
Na evolução política do mundo helênico-romano, se observam duas fases:


- o tempo helenístico propriamente dito;

- o tempo romano-helenístico, até a queda do Império do Ocidente em 476.


No período helênico propriamente dito da filosofia já vinha soçobrando hegemonia política dos gregos depauperados, pelas lutas internas.


A demorada Guerra do Peloponeso, - entre Esparta e Atenas, com a derrota definitiva desta em 404 a.C., - foi o começo de uma série de lutas que enfraqueceram paulatinamente Atenas e Esparta, diante dos vizinhos, os macedônios, os cartagineses, os romanos.

O papel que estes outros passaram a exercer, poderia ter sido o dos ateniense, caso estes tivessem conseguido sobreviver. Foi assim que um povo mais culto se deixou vencer politicamente, ainda que sua cultura em parte continuasse.

Para entender-se a formação do mundo helênico, importa atender ainda à evolução interna dos outros povos. Estes assimilaram a cultura grega, exatamente porque eram povos em evolução; interessava a eles não só a riqueza material dos povos conquistados, mas também sua cultura e evolução social.


Os Macedônios foram os criadores iniciais do novo tempo, chamado helênico-romano.

Embora taxados de bárbaros pelos demais gregos, os macedônios, através de seu rei Felipe, haviam contratado a Aristóteles (filho de colônia grega), para educador de Alexandre.

Também os persas, indo-europeus, mas herdeiros dos semitas babilônios, desenvolviam-se militar, cultural e socialmente.

Fôra o Império Persa derrotado pelos gregos por ocasião das guerras médicas, mas até agora nunca conquistado. Continuava no seu esplendor, riqueza e poderio.
Seria dominado um século depois, graças apenas a audácia e valentia do jovem Alexandre Magno, no comanda da Grécia unificada pela Macedônia.

Apesar das guerras médicas desastrosas para os orientais, a influência dos persas, indo-europeus, - sempre foi um fato na Grécia. "Grande Rei ", era o nome com que se designava o monarca do Oriente.

Após a perda, por parte de Atenas, da guerra do Peloponeso (404 a.C.), liderada por Esparta, a influência persa sobre o continente grego tornou-se decisiva. Não fosse a Macedônia a unificar os Estados gregos, e talvez não tardasse a absorção total dos mesmos no domínio persa.

A aventura de Alexandre, jogando-se em 336 a.C. à luta no mesmo solo persa, foi a tática que pôs a salvo o mundo grego. Recuperou as cidades gregas da Jônia e invadiu diretamente as outras partes do Império persa, dominando-o até a Índia e o Egito.

Sua vitória foi tão grande, que inverteu o mundo persa, já altamente civilizado, em um mundo helênico. De todas as partes surgem agora os filósofos, as cidades cultas se multiplicam. Este período é de assimilação por parte dos novos, de acomodação por parte das posições antagônicas, de elaboração para todos em geral.

Falecido prematuramente Alexandre Magno em 323 a.C. dividiu-se o Império Helênico, mas entre os próprios helênicos. Duas novas capitais se desenvolveram notoriamente, - Alexandria, no Egito, e Antioquia, na Síria.

Roma surge como novo inimigo exterior, - agora pela banda do Ocidente, a poderosa Roma. Esta primeiramente absorveu as cidades gregas do Sul da Itália, concluindo o feito com a conquista do império cartaginês, o qual se estendia pelo norte da África a até a Espanha inclusive. O romano era expansionista como o persa e o macedônio.

Mas já não existia Alexandre (+ 323 a.C.). O Império estabelecido por Alexandre se dividira em Estados autônomos, circunstância apropriada para a conquista romana.
Vencedores, impuseram os romanos sua língua latina, sem contudo destruir a grega. Um só espirito e duas línguas caracterizaram o período helênico-romano

Detalhadamente, esta foi a marcha da conquista do Oriente pelos romanos. Ocorreram as lutas entre a segunda e terceira guerra púnica (200-133 a.C.), como se dizia da luta contra Cartago. Primeiramente guerrearam os romanos a Macedônia de 200 a 197 a.C., a pretexto de ter auxiliado Aníbal, general cartaginês.

Contra os macedônios o general Flamínio ganhou ardilosamente os gregos para sua causa, proclamando a independência de suas cidades mas dissolvendo as ligas acaia e etólica (da Grécia clássica).

Mais tarde ocorrem reações destes gregos e foi quando sucessivamente, no mesmo ano de 146 a.C., a Acaia e a Macedônia foram simplesmente reduzidas a províncias romanas.

Não demora a ocorrer o mesmo com o Pérgamo na Ásia Menor.


Sábios gregos em Roma. No período das reações que deram como resultado posterior à conversão da Grécia em simples província (146 a.C.), criou-se em Roma uma restrição aos sábios gregos, que para ali já haviam começado a afluir. Em 161 a.C. se proibiu o mesmo a entrada na cidade destes retóricos e filósofos.

Para tratar das relações periclitantes de Atenas com Roma, compareceram nesta cidade em 155 a.C., como Enviados, os representantes de três escolas de filosofia e que lograram impressionar e agradar: Critolao (peripatético), Diógenes (estóico), Carnêades (da nova Academia). As conferências de Carnêades sobre a justiça foram muito apreciadas.

Não demorará em vir para Roma o estóico Panécio de Rodes, organizando ali um grupo de amigos com os quais se estabeleceu uma tradição filosófica latina: Panécio acompanhará Scipião Emílio (Scipião menor, o Africano) para Alexandria em 142 (ou 143 a.C.); dali veio para a costa ocidental da África e enfim para Roma; Na capital do Império se reteve até 129 a.C., quando seguiu para Atenas, mas deixando em Roma, Múcio Scévola e o amigo Lélio informados nas doutrinas do Pórtico.

Mais tarde, no curso do primeiro século a.C., também foram conquistados pelos romanos os Estados Helênicos de Antioquia (da Síria) e Alexandria (do Egito).

Se, entretanto, se definir a filosofia do período helênico-romano atendendo às características internas ao seu mesmo pensamento, para diferencia-lo da filosofia socrática que lhe antecedeu, anotam-se as seguintes peculiaridades:

a). Inclina-se a filosofia helênico-romana para a investigação especializada. Estas circunstância é uma nota positiva e indicadora de progresso, suposto que a especialização se faça em coerência com os princípios determinados pela filosofia geral. A especialização, que já ocorria no passado, teve agora destacado desenvolvimento.

b) Mais especificamente, no que se refere à investigação especializada, predominaram na filosofia helênico-romana as preocupações éticas e religiosas sobre as cosmológicas e metafísicas, ao contrário dos períodos anteriores. Ocorreu uma busca de racionalização da vida prática, bem como uma racionalização da religiões vigentes agora em contato inevitável com a filosofia.

c) A qualidade sistemática das novas filosofias pós-socráticas raras vezes parece atingir a consistência das anteriores de Platão e Aristóteles. Foram mais consistentes as do epicurismo, estoicismo, neopitagorismo, neoplatonismo, ceticismo. Das filosofias anteriores remanescentes, mais se destacou pela sua qualidade, o peripatetismo. Consequentemente tais filosofias comparecem como principais títulos do temário da filosofia helênico-romana.

Os itens acima surgem como parâmetros nas mais diversas considerações sobre a filosofia helênico-romana ao ser levada aos seus detalhes episódicos, ao ser estudada escola por escola, autor por autor.

Neste instante importam ainda algumas considerações mais gerais.

A investigação especializada foi uma das grandes diretrizes do Liceu de Aristóteles, levado a efeito sobretudo imediatamente depois dele, mas por sua sugestão. A diferença, porém, está em que Aristóteles não perdeu de vista os alinhamentos gerais da mesma filosofia e deles teve grande cuidado, ao passo que os pós-aristotélicos se inclinaram para a especialização sem o mesmo cuidado com a coerência geral. Efetivamente, a verdadeira ciência é o somatório de todas as ciências num plano coerente de interdisciplinaridade.

No mundo político mais abrangente do período helênico-romano ocorreu uma perda de oportunidade política, de sorte a reduzir o cidadão às suas circunstâncias individuais. Na estrutura do grande império, o envolvimento político do cidadão individual era menor. A politica já não lhe podia interessar tanto agora, quanto ao tempo das organizações dos estados gregos.

Dissolvidos os Estados gregos e criado o mundo helênico, o indivíduo como que passou a se preocupar como descobrir a si mesmo e como estrutura um mundo para viver. Por isso, a tendência eticista e religiosa do período helênico romano é mais uma inclinação para a ética individual, do que para a ética em geral. Não obstante, já nas doutrinas de Sócrates, dos cínicos e dos cirenaicos se encontram os rastros do cosmopolitismo apolítico individualista, que agora ganha corpo dado o aparecimento da oportunidade.

A filosofia passou a ser um instrumento adequado para reavaliar as religiões recebidas do passado. No impacto desta função, criaram-se nas filosofias especiais conceituações sobre Deus e o mundo, bem como surgiu a idéia de uma autoridade apoiada na revelação. Eis um fenômeno novo, que amplamente se difundiu na época, e que deu formulação dogmática às religiões do período helênico-romano.

O remanescente e o novo. Já ocorre uma notável tradição filosófica e mesmo uma história da filosofia no curso do período helênico-romano.

Destacam-se alguns sistemas remanescentes do período anterior e que prosseguem pelo novo.

A novidade mais facilmente chama a atenção do historiador; entretanto deve este estar atento ao princípio de que verdade e novidade não coincidem necessariamente. As doutrinas antigas que perseveram no tempo, têm também direito à atenção do historiador, até porque a durabilidade é própria das idéias consistentes e dos grandes sistemas.

Em qualquer época posterior, ocorrem sempre algumas idéias que derivam de uma anterior. Deve, por isso, o historiador ficar atento a dois tipos de filosofias: às que não sendo estritamente novas mas se mantêm e procuram desenvolver-se internamente pela melhoria da argumentação e explicitação das virtualidades contidas. Assim já se aponta no período socrático para um grupo de pré-socráticos remanescentes. Haveria agora socráticos remanescentes?

No período helênico-romano observam-se a persistência de dois sistemas criados anteriormente: o platônico e o aristotélico. Uma plêiade considerável de acadêmicos e peripatéticos marca a história da filosofia deste tempo.

Se, entretanto, se aplicar aos mesmos um critério valorativo, se observará novamente que ocorre uma certa superficialidade. Particularmente no que se refere às concepções metafísicas fundamentais, não foram elas repetidas e aprofundadas devidamente; mais longe chegarão depois os tomistas medievais.

Os helênicos dissociaram-se antes nas especializações, aliás em si mesmos apreciáveis. Não chegam a lançar o problema crítico, como aliás nem os medievais. Só os tomistas modernos chegariam a imprimir à evolução interna do aristotelismo um desenvolvimento tal que fosse capaz de garantir ao realismo clássico um fundamento especulativo convincente.

A novidade mais facilmente chama a atenção do historiador; entretanto deve este estar atento ao princípio de que verdade e novidade não coincidem necessariamente. As doutrinas antigas, que perseveram no tempo, têm também direito à atenção do historiador, até porque a durabilidade é própria das idéias consistentes e dos grandes sistemas.

Em qualquer época posterior, ocorrem sempre algumas idéias que derivam de uma anterior. Deve, por isso, o historiador ficar atento a dois tipos de filosofias: às que não sendo estritamente novas mas se mantém e procuram desenvolver-se internamente pela melhoria da argumentação e explicitação das virtualidades contidas. Assim já se aponta no período socrático para um grupo de pré-socráticos remanescentes. Haveria agora socráticos remanescentes?

Se, entretanto, se aplicar a estes remanescentes do platonismo e do aristotelismo um critério valorativo, observa-se que também estes, como já se advertiu sobre os sistemas novos do período, uma certa superficialidade. Particularmente no que se refere às concepções metafísicas fundamentais, não foram elas aprofundadas devidamente; os tomistas medievais chegaram muito mais longe. Os gregos dissociaram-se antes nas especializações, aliás em si mesmos apreciáveis. Não chegaram a lançar adequadamente o problema crítico, como aliás nem os medievais. Só os tomistas modernos chegariam a imprimir à evolução interna do aristotelismo um desenvolvimento tal que fosse capaz de garantir ao realismo clássico um fundamento especulativo convincente.

A validade da filosofia helênico-romana não foi considerável, senão como um todo cultural gerador de novas perguntas. Foram raros seus filósofos mais consistentes.

O estoicismo se apresenta como tendo sido um dos melhores sistemas novos criado no período helênico-romano, pela originalidade e conexão interna de suas teses; mas se manteve muito aquém das concepções criadas anteriormente por Aristóteles do qual entretanto muito se valeu.

O neopitagorismo e o platonismo pitagorizante elevaram as religiões à racionalização, ainda que não resolvendo todos os seus problemas, por causa da facilidade com que continuaram a admitir os ritos (sacramentos), a autoridade das revelações atribuídas a visionários, embora alguns destes fossem bem prendados.

No impacto das muitas religiões com o novo fenômeno, - a filosofia, - resultaram filosofias especiais tentando adequá-las com conceituações mais adequadas sobre Deus e o mundo. A importância atribuída às revelações como autoridade passou a ser um fenômeno novo, cuja ampla difusão na época, deu formulação dogmática às religiões do período helênico-romano, e que perduram até hoje.

O confronto das religiões, possibilitado pela vastidão do Império Romano, desenvolveu a crítica ideológica neste campo. Mas as decisões maiores continuaram dogmáticas, em vista da sistematização teológica das supostas revelações dos visionários, e influenciadas também pela força do Estado.

O neoplatonismo, desenvolvido a partir do neopitagorismo e do platonismo pitagorizante, conseguiu formas mais evoluídas em Plotino e Agostinho, pela reformulação de alguns pontos frágeis de Platão. O agostinianismo deu mesmo sustentação à escolástica medieval antes de Tomás de Aquino.

O ceticismo trouxe também algumas originalidades, para desenvolvimento da gnosiologia. Fez aos seus contrários avaliar melhor a validade do conhecimento. Mas ninguém chegou a estabelecer uma teoria do conhecimento de sistematicidade maior.
O epicurismo chegou a ser um moderado humanismo.

Em suma, o período helênico romano não apresentou grandeza por força dos sistemas novos criados, mas apenas uma relativa prosperidade que apesar destes pesares, não chegou a ser uma decadência.



Fonte: http://www.cfh.ufsc.br/~simpozio/portugue.html


Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.