Diógenes e a Askesis: Disciplina Cínica

O cinismo definia-se - ou antes, era definido1 - como "um atalho para a virtude", em oposição à estrada longa que passava por estudo textual laborioso e aquisição de conhecimento teórico. Mas esse "atalho" era árduo e difícil, porque requeria a aplicação de um método rigoroso: a askésis ("exercício", "prática", "treino", "disciplina").2

Entendida no sentido cínico do termo, a askesis tinha o intuito de ser um método preventivo. A cada dia, o cínico treina a si mesmo fisicamente nas artes da perseverança e da resistência; o exercício diário da vontade faz com que o medo se dissipe, já que o cínico praticante está constantemente se fortificando contra infortúnios imprevistos.

O conceito de "disciplina" (askesis), emprestado do vocabulário do atletismo, não era usado pelos cínicos apenas no sentido metafórico. Como a do atleta, a disciplina (askesis) do filósofo era totalmente concreta. A única diferença estava no telos de seu treinamento: enquanto o atleta treinava o seu corpo com vista à vitória no estádio, o cínico o treinava para fortalecer a sua vontade e assegurar a sua capacidade de resistência.

O treinamento (askesis) cínico dá-se na preparação para uma disputa, e o agonista precisa estar seguro de não perder de vista o sentido de seu esforço. Diógenes alertava que qualquer sofrimento inútil exigido por costume social, família, negócios ou política não valia a pena: "ele elogiava aqueles que estavam prestes a se casar mas não o faziam, os que estavam prestes a sair do barco mas não o faziam, os que estavam prestes a entrar na política mas não o faziam, os que estavam prestes a criar filhos mas não o faziam, os que estavam prestes a viver no tribunal mas não o faziam" (D.L. 6,29) Em vez de tais atividades vãs, Diógenes treinava-se para lutar contra adversários existenciais como exílio, pobreza, fome e morte. Para ele, esta era a única batalha que valia a pena ser vencida. Embora a existência civilizada representasse essas provações (ponoi) como más, o cínico procurava suportá-las precisamente recusando-se a considerá-las más. Para adquirir esse estado mental, os cínicos exortavam a si mesmos e aos outros a praticar uma vida de acordo com a natureza (kata physin). Alguém "treinado" para beber água, dormir no chão, comer e se vestir com simplicidade quando a Fortuna atacar. A lei da askesis cínica era simples: consistia em viver na pobreza e satisfazer apenas as necesssidades naturais - "o modo de aprender filosofia livre de instrução".3 Desta forma, o cínico buscava liberdade da agitação emocional (apatheia) e independencia do mundo exterior. No cinismo de Diógenes não há autonegação por si só ou a serviço de uma meta transcendente. Embora seja verdade que muito do que tornou Diógenes influente na Antiguidade será perdido se caracterizarmos o seu cinismo apenas como uma moralidade prática, o elemento prático era, ainda assim, fundamental para a atração que ele exercia.

Diógenes gostava de proclamar-se:

"Sem cidade, sem casa, desprovido de pátria,
Um mendigo e vagabundo, vivendo de um dia para o outro." 4

Os sinais tangíveis de sua "disciplina" (askesis) eram os apetrechos que o filósofo carregava consigo: sua sacola contendo tudo o que ele possuía, um bastão e uma túnica grosseira e curta, sua única vestimenta no inverno e verão, que ele também usava como cobertor. O cínico, missionário e "doutor de almas"5, saía pela estrada para difundir a sua mensagem. A terapia que ele recomendava era bastante incomum: baseava-se, em primeira instância, em franqueza e liberdade de discurso (parrhesia), o que com frequência levava a réplicas e reprimendas devastadoras, e no riso - riso destemido que abalava o interlocutor e o forçava a reagir. Por fim, baseava-se em provocação, particularmente na forma de "despudor", que Diógenes não usava como fim em si, mas como um instrumento pedagógico destinado - também neste caso - a chocar seus interlocutores e tirá-los de sua atitude complacente. A prática de Diógenes buscava fazer que os outros tomassem consciência das incoerências da vida civilizada em comparação com a "vida natural" e levá-los a abandonar sua falsa vergonha. Estas eram as preliminares indispensáveis a qualquer pretensão de praticar filosofia.


Notas:

1. Essa definição dificilmente poderia se dever aos primeiros cínicos; ela deve antes ser atribuída aos estóicos e, mais especificamente, a Apolodoro de Selêucia.

2. D.L. 70-71 conserva um trecho de uma obra de Diógenes em que o filósofo apresenta a sua concepção de askesis.

3. ESTOBEU 4.2, 32, 19 = V B 223 G.

4. D.L. 6,38 = V B 263 G.

5. Para a aplicação filosófica dessa metáfora em outras escolas helenísticas, ver M. Nussbaum, The Therapy of Desire: Theory and Practice in hellenistic Ethics, Princeton, 1994.


Texto extraído de

GOULET-CAZÉ, Marie-Odile & BRANHAM, R. Bracht, Orgs. Os Cínicos: O Movimento Cínico na Antiguidade e o seu Legado. Edições Loyola: São Paulo, 2007. p. 36-38


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Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.