Epicuro: Esboço

Da imensa obra de Epicuro, Diógenes Laércio transcreveu três epístolas (A Heródoto sobre a física, A Pítocles sobre os meteoros, A Meneceu sobre a moral), e 40 máximas capitais. Oitenta máximas foram descobertas há um século num manuscrito do Vaticano. Alguns fragmentos da monumental obra de Epicuro, Da Natureza, também estão disponíveis.

O que nos resta da sua obra é bastante consistente para termos uma idéia precisa do pensamento do filósofo do Jardim. Assim como os outros pensadores helenistas – estóicos -, Epicuro articula a reflexão moral à lógica e à teoria física do cosmo. As Epístolas e Máximas de que dispomos praticamente não tratam de lógica, conhecida pela doxografia. Mas a física é amplamente desenvolvida nas epístolas (A Pítocles e A Heródoto).



Epicuro considera que nossos sofrimentos provêm essencialmente de nossa ignorância do universo físico e da relação que temos com ele; por exemplo, da crença de que a morte é algo temível. A física deve ser cultivada por ser útil à terapêutica dos temores, e não pelo seu conhecimento em si. É por essa razão que Epicuro muitas vezes propõe várias explicações diferentes para um mesmo fenômeno.

Os princípios (encontrados na Epístola a Heródoto) são extraídos na tradição de Abdera (Leucipo e Demócrito). Nada nasce do nada. A natureza não é um caos sem ordem, onde tudo pode acontecer. O universo em sua totalidade – sem nada excluir do que é – é constituído por átomos e pelo vazio. Os átomos são sólidos, compactos, inacessíveis a modificações, não-engendrados, indestrutíveis. Evidentemente, os átomos não possuem, como em Demócrito, nenhuma das qualidades sensíveis que sua agregação determina nos corpos, na escala macroscópica de nossa percepção. Em razão do peso que têm, por um movimento natural, tendem para baixo. Esse movimento dos átomos é, porém, modificado por um ligeiro desvio aleatório, a declinação (parênkesis, ou clinamen, no latim de Lucrécio), que produz o seu entrechoque. Desses choques nascem os compostos que constituem o universo. Este não deve ser confundido com a infinidade de mundos que o constituem. Enquanto o universo é eterno, os mundos só têm existência passageira, ainda que retornem ciclicamente à existência em razão da infinidade do tempo.

É impossível descrever pormenores a astronomia, a meteorologia (Ep. A Pítocles), a biologia e a antropologia que decorrem dessa concepção atomista (Lucrécio desenvolverá todos esses aspectos com muito mais riqueza que seu mestre). Vale destacar apenas que o atomismo de Epicuro é exposto de maneira rigorosa e coerente, e que não recua diante de nenhuma conseqüência: o caráter corporal, portanto mortal da alma, a negação expressa de finalidades. O autor destina um lugar aos deuses, que vivem nos “intermundos”, mas não lhes atribui nenhum papel criador ou providencial; sua filosofia pode ser chamada de atéia. De resto, a posteridade não se enganou a respeito disso.

A moral epicurista (Ep. A Meneceu) é uma moral do prazer. O prazer epicurista remete mais a um estado que a um movimento de gozo. Esse prazer catastemático (estável) resulta da plenitude dos equilíbrios vitais. Mas o hedonismo teórico de Epicuro desemboca paradoxalmente numa moral prática próxima do ascetismo (o que destrói as calúnias que durante muito tempo fizeram dele alguém voltado para o gozo, e do adjetivo “epicurista” sinônimo do bon-vivant ou devasso). Os prazeres são objeto de cálculo, não autorizando o sábio a sucumbir ao primeiro desejo que se apresente. O prazer mais elevado é o da amizade compartilhada.

Em moral, como em física, Epicuro não se detém diante de nenhuma conseqüência. Bastam dois exemplos para ilustrar isso.

A morte, que, como consenso quase universal, é temível para todos os homens, não é nada. Epicuro tranqüiliza Meneceu: estar morto é não ser mais, e o que não é não pode ser afetado por nada, nem para o mal nem para o bem. Lucrécio irá se esmerar em pulverizar as ilusões de quem, imaginando-se morto, acredita-se vivo (para sofrer por estar morto).

Assim também a justiça não é o valor transcendente, ideal, que Platão imaginava. O direito é apenas convenção, e seu fundamento é a utilização recíproca (Máximas capitais XXXI a XXXVIII).

Mais do que seus predecessores Leucipo e Demócrito, mais que seu continuador Lucrécio (que não se pode deixar de ler), Epicuro é símbolo do materialismo tranqüilo que, já na época helenística, forjou as armas que servirão a tantos outros.



RODIS-LEWIS, G. Epicure ET Son École. Idées/Gallimard, 1976.



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Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.