Proclo: A Origem do Mal

Proclo dedicou três monografias ao problema: "Dez aporias relativas à prónoia" (De decem), "Sobre prónoia, destino e liberdade" e "Sobre a existência do mal" (De malorum subsistentia), chegando a uma solução perfeitamente autônoma e interessante. Ele não está satisfeito com a posição dos estóicos, que querem, digamos, eliminar por meio da interpretação a existência do mal, tampouco aceita a tese segundo a qual a providência não deve ser estendida ao âmnito das coisas terrenas. A suposição de Plutarco, de que haveria uma alma que efetua o mal, não o deixa satisfeito, o que ocorre também com a tese de Plotino, que associa a matéria com o mal. Como matéria é a última emanação da causa suprema e boa, ela não pode ser má, e sim, no máximo, neutra, nem boa nem má.

Proclo tenta, então, manter as duas posições - a tese do bom Deus e a existência do mal - sem que decorra delas uma contradição. Ele quer ver providência como uma causa que a tudo governa, e que, não obstante, não é responsável pelo mal nem direta nem indiretamente. Com essa finalidade, ele oferece uma análise expressiva da noção de causa. Proclo contesta que haja uma única causa para o mal, como supõem, por exemplo, os maniqueus. Ele fundamenta esta tese com a observação de que não haveria uma existência (hipóstase) própria para o mal, mas uma existencia apenas imprópria, parasitária. Pois, observando o modo de existência do mal, resulta que, no caso do mal, deve-se contar sempre com uma pluralidade de causas. Proclo pode ter em vista, nesse ponto, a diferenciação que faz Aristóteles entre causa própria e causa acidental. Quando um arqueiro erra o alvo, o conceito "errar" só faz sentido se havia sido designado um alvo. O "errar" até existe, mas só em conexão com as condições conjunturais antecipadas pelo alvo: ele existe, digamos, de forma "parasitária". O mesmo vale para o mal. De acordo com a opinião de Proclo, o mal nunca é alvo de uma ação em função de si mesmo, mas ele sempre ocorre de forma acidental no contexto de outros objetivos fixados, digamos, como decorrência de fraqueza (Mal. 50, 3-11 Boese). Portanto, assim como o errar, também o mal existe somente de modo parasitário. Para designar essa existência parasitária, Proclo utiliza o conceito "par-hipóstase" (parhypóstasis) (Mal. 49,7-11  Boese). Esta expressão sinaliza que o mal não é oriundo de uma causa ativa, não ganha existência a partir de si mesmo e não se dirige a um alvo, mas apenas aparece em conexão com algo e, por isso, tem um ser apenas "incidental". Em favor de sua tese, Proclo reporta-se a Platão. Ele entende a tese de Sócrates na Politéia, de que Deus seria inocente do mal, no sentido de que, segundo a opinião de Platão, o mal não é oriundo de uma causa apenas. Dessa forma, coisas más são causadas juntamente com as decisões da alma. Diferentemente de Plotino, com que Sócrates acha impossível que se façam coisas más voluntariamente, não delega a razão do mal à matéria, mas a transfere para a própria alma (Mal. 33,1ss Boese). Em grau maior que Plotino, Proclo ressalta a responsabilidade e o poder de decisão do indivíduo. Dessa forma, ele evita considerar a matéria como a única causa do mal, o que facilmente poderia ser mal entendido como princípio contrário ao uno bom e romper o monismo. A separação que Proclo faz entre mal e matéria também foi acolhida na teologia cristã. Para Proclo, o mal só pode ser imaginado no caso do agir livre dos seres humanos, quando estes se afastam daquilo que devem fazer. Proclo aceita, portanto, a existência do mal, mas npõe Deus salvo de qualquer responsabilidade, ao não assumir uma causa própria para o mal.

Com isso, está posta a pergunta pela liberdade do ser humano. Como é possível, num cosmo governado inteiramente pela causa suprema, aquela contingência que possibilita a decisão livre? Neste ponto, deve ser lembraque que Proclo distingue da forma pura primeiramente (El. theol. 60) aquilo que permanentemente tem parte nesta forma (p. ex., a alma cósmica), e depois aquilo que apenas ocasionalmente tem parte nessa forma; do último faz parte, por exemplo, a alma humana. Justamene no âmbito daquilo que apenas ocasionalmente tem parte na forma pura, há espaço para errar e assim para o mal. A pergunta, qual a razão de existir esse terceiro estágio, pelo visto definitário, do que participa apenas ocasionalmente é respondida por Proclo com uma referência à perfeição do cosmo, que praticamente condiciona diversos estágios de perfeição (Dec. dub. 5,28,4-11 Boese).



ERLER, Michael. Proclo. In:__ Filósofos da Antiguidade 2: Do Helenismo à Antiguidade Tardia. ERLER, Michael & GRAESER, Andreas, orgs. Editora Unissinos: São Leopoldo, 2002. p. 267 - 270


Artigos Relacionados:

Lipsius: Neo-Estoicismo Cristão

Cristianismo: O Problema Moral

Jesus, um Pregador Cínico Judeu

Mito da Caverna, por Maurício de Sousa

Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.