Imperador Juliano e Movimento Cínico

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O vivo interesse despertado em Juliano pelo verdadeiro cinismo e os ataques que ele dirigiu aos falsos cínicos aparecem em dois discursos compostos em Constantinopla durante o ano 362. Ambas as obras parecem ter sido inspiradas pelas atividades populistas dos filósofos de rua cuja influência possivelmente subversiva sore os soldados acampados e sobre a população de classe mais baixa o imperador sem dúvida não ignorava. "O cínicos", ele reclama, "andam para cima e para baixo em nosso meio subvertendo as instituições da sociedade, e isso não pela introdução de um estado de coisas melhor e mais puro, mas um estado de coisas pior e mais corrupto".
Juliano compara-os aos monges andarilhos e chama-os de apotaktitai, obviamente um termo ofensivo se levarmos em conta sua invectiva contra os membros dessa seita encratita. Juliano, não menos que Libânio ou Eunápio, revela sua profunda irritação quando direciona seus ataques aos monges itinerantes, censurando-os pela simples discrepância entre os que pregam e o que fazem. A comparação entre os falsos cínicos e os ascetas monásticos não é novidade, e segue uma tradição estabelecida. Nos Atos de Filipe, por exemplo, Filipe é tido como um filósofo por causa de seus trajes, eqnaunto na Vida de Serapião, em História Lausiaca de Paládio, e, de modo mais gera, no gênero literário da aretologia cristã, R. Reitzenstein demonstrou influência na lenda de Diógenes. 

Embora no discurso Contra Heráclio (Or. 7) Juliano mencione vários nomes, os cínicos que ele ataca não podem ser identificados. Seriam cristãos? Gregório de Nazianzo, por exemplo, cujo pendor para a idéia cínico de exercício pode ser claramente encontrada em sua obra, ainda assim criticava Diógens e Crates por eles fazerem exibição de sua auto-suficiência e buscavam a glória (philodoxia). O discurso de Juliano Contra os Cínicos Não-Educados (Or. 9) foi provocado por um cínico que havia acusado Diógenes de aidade porque ele morrera por comer polvo cru, como se fosse por uma dose de cicuta. A crítica da vaidade  (kenodoxia), sem dúvida, é um topos na polêmica entre as diferentes escolas filosóficas e também foi explorada por Luciano quando ele ridicularizou os suicídios de Empédocles e Peregrino. Mas as evidências de Gregório, assim como de Juliano, parecem sugerir que a desaprovação da ostentação de Diógenes era particularmente comum entre os cínicos cristãos.

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BILLERBECK, M. O Cínico Ideal: de Epicteto a Juliano. In:__ GOULET-CAZÉ, Marie-Odile & BRANHAM, R. Bracht, Orgs. Os Cínicos: O Movimento Cínico na Antiguidade e o Seu Legado. Edições Loyola: São Paulo, 2007.



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Peregrino Proteu

Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.