Charron e a Volúpia

Outro sinal hedonista, a condenação não do prazer em si, em absoluto, mas relativamente ao seu uso. Charron se detém um pouco na questão da sexualidade. Por que razões deveria ser vergonhosa? Ela é natural porque desejada por Deus. Melhor: ela é divina, já que natural. Faz parte do plano divino que a libido encontre sua justificação na Natureza, que quer o acoplamento para atingir seu fim: a propagação da espécie. Assim, o prazer é um tempero da Natureza. Por conseguinte, a volúpia pertence à razão corretamente compreendida.



A religião católica quer a continência para todos? Erro. Charron não questiona o celibato dos padres, não convida os membros do clero a uma sexualidade livre e confirma a excelência da abstinência no caso de uma vida consagrada ao serviço do Deus cristão. Em compensação, para o homem comum, que idéia esquisita! Proibir-se a sexualidade e o prazer que a acompanha? Como, diabos, essa mutilação poderia ser agradável a Deus?

A sexualidade - e o mesmo vale para a comida, a bebida, o sono e toda modalidade de relação com o mundo - deve evitar os excessos: excesso na carência, excesso no dispêndio. Nem demais, nem de menos. Nem ascetismo, continência ou virgindade perpétua; nem devassidão, luxúria ou estupro. Como no caso do mel: com a ponta dos dedos, não as mãos cheias. De tanto querer bancar o anjo, escreve Charron citando Montaigne, o homem acaba bancando a besta. Pascal se lembrará disso... A solução? A moderação, a medida justa, o equilíbrio, a boa distância entre privação e intemperança. Em matéria de sexualidade conjugal, o teologal chega ao ponto de dar conselhos: três vezes por mês para uma " volúpia moderada" ou uma "volúpia prudente e conscienciosa" (III, 12)... Mas Charron se retifica: esse número, indicativo, não obriga ninguém!

Lição epicurista: não se comprometer no que perturba a tranquilidade adquirida. A prudência tem por objeto o contentamento de si e de todas as virtudes que permitem um livre e pleno gozo do seu ser. Emprestar-se, sempre; dar-se, nunca. Guardar dentro de nós o que constitui nossa força, nossa autonomia, nossa independência, nossa soberania. Nada é pior, para o sábio, do que um estado, um fato, uma situação, uma pessoa pondo em risco a serenidade obtida com tanta luta graças ao controle das paixões e dos afetos.


ONFRAY, Michel. Contra-História da Filosofia 3: Libertinos Barrocos. Martins Fontes: São Paulo, 2009. p. 65-66


Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.