Deus e Moral

Isso não significa que o fato de ser ateu, ou de se tornar ateu, não mude coisa alguma. Sei disso por experiência própria: fui crente nos anos mais importantes da minha vida - a infância, a adolescência - e pude avaliar, a posteriori, a diferença. Ela não é nem total nem nula. Aliás, é o que Kant, do seu ponto de vista de filósofo crente, confirma. Num trecho célebre de Crítica da Razão Pura, ele resume o domínio da filosofia em três questões: Que posso conhecer? Que devo fazer? Que posso esperar? Confrontemos rapidamente cada uma das três com a perda eventual da fé.

Perder a fé não muda em nada o conhecimento. As ciências continuam sendo as mesmas, com os mesmos limites. Nossos cientistas sabem disso muito bem. Eles crerem ou não em Deus pode modificar o modo como vivem sua profissão (seu estado de espírito, sua motivação,  o sentido último, para eles, da sua pesquisa); mas não podem mudar os resultados do seu trabalho, nem o estatuto teórico desse, nem portanto a profissão do cientista como tal (senão, ele deixaria de ser cientista). Pode mudar sua relação subjetiva com o conhecimento; mas não muda o próprio conhecimento, nem seus limites objetivos.



Não muda em nada, tampouco, ou em quase nada, a moral. Não é porque você perdeu a fé que vai de repente trair seus amigos, roubar ou estuprar, assassinar ou torturar! "Se Deus não existe, tudo é permitido", diz um personagem de Dostoiévski. Claro que não, já que não me permito tudo! A moral é autônoma, mostra Kant, ou não é moral. Quem só se impedisse de matar por medo de uma sanção divina teria um comportamento sem valor moral: seria apenas prudência, medo do policial divino, egoísmo. Quanto a quem só faz o bem para a sua salvação, não faria o bem (já que agiria por interesse, e não por dever ou por amor) e não seria salvo. É o ápice de Kant, das Luzes e da humanidade: não é porque Deus me ordena alguma coisa que está certo (porque nesse caso poderia ter sido certo, para Abraão  matar seu filho); é porque uma ação é boa que é possível acreditar que ela é ordenada por Deus. Não é mais a religião que funda a moral; é a moral que funda a religião. É onde começa a modernidade. Ter uma religião, precisa a Crítica da Razão Prática, é "reconhecer todos os deveres como mandamentos divinos". Para os que não tem ou deixaram de ter fé, já não há mandamentos, ou antes, são os mandamentos que impomos a nós mesmos.

Bela fórmula de Alain, em suas Cartas a Sérgio Solmi sobre a filosofia de Kant: "A moral consiste em se saber espírito e, por esse motivo, absolutamente obrigado; porque a nobreza obriga. Na moral, não há nada mais além do sentimento de dignidade". Roubar, estuprar, matar? Não seria digno de mim - não seria digno do que a humanidade se tornou, não seria digno da educação que recebi, não seria digno do que sou e quero ser. Proíbo-me de fazê-lo, portanto, que é isso que se chama moral. Não é preciso crer em Deus para isso; basta crer em seus pais e em seus mestres, em seus amigos (se soubermos escolhê-los) e em sua consciência.

Se digo que a presença ou não de uma fé religiosa não muda "quase" nada na moral, é que, sobre certas questões, que pertencem menos à moral que à teologia, haverá apesar de tudo algumas pequenas diferenças... Pensem, por exemplo no problema da contracepção em geral ou do preservativo em particular. O aborto é um problema moral: ele se coloca tanto para os crentes como para os ateus, e houe partidários da liberação, embora em proporções diferentes, dos dois lados. Já sobre o preservativo, nunca vi um ateu interrogar-se seriamente a seu respeito. Se você não tem religião, a questão de saber se é moralmente aceitável utilizar um preservativo (seja como meio contraceptivo, seja, a forttiori, para se proteger e proteger o outro contra a aids) encontra rapidamente resposta! O preservativo não é um problema moral: é um problema teológico (e olhe lá! Nunca li nada a esse respeito nos Evangelhos...). Mesma coisa, cá entre nós, no caso das preferências sexuais de fulano ou beltrano. A moral não tem de se imiscuir entre parceiros adultos e consequências  A homossexualidade, por exemplo, talvez seja um problema teológico (é o que sugere, no Gênesis, a destruição de Sodoma e Gomorra). Ela não é - ou já não é - um problema moral, ou só o é, hoje ainda, para os que confundem moral e religião, especialmente se buscam na leitura literal da Bíblia ou do Corão o que os dispense de julgar por si mesmos. É um direito deles, enquanto só deles se tratar, enquanto eles respeitarem as leis das nossas democracias (a soberania do povo, as liberdades individuais). E é nosso direito não concordar com eles, combatê-los se quisermos (contanto, aqui também, que respeitemos as leis), enfim defender contra eles, nossa liberdade de consciência e de exame. Por que deveria eu submeter meu espírito a uma fé que não tenho, a uma religião que não é a minha, enfim, aos ditames impostos, séculos ou milênios atrás, por um chefe de clã ou de guerra? Fidelidade, sim, mas crítica, refletida, atualizada. Submissão cega, não.

Mas deixemos essas querelas ou esses arcaísmos. Em todas as grandes questões morais, e salvo o caso dos integristas, crer ou não em Deus não muda nada de essencial. Quer você tenha ou não uma religião, isso não o dispensa de respeitar o outro, sua vida, sua liberdade, sua dignidade; isso não anula a superioridade do amor sobre o ódio, da generosidade sobre o egoísmo, da justiça sobre a injustiça. O fato de as religiões terem nos ajudado a compreender isso faz parte da sua contribuição histórica, que foi grande. Isso não significa que elas bastem para compreendê-lo ou detenham o monopólio dessa compreensão. Bayle, desde o fim do século XVII, havia salientado vigorosamente: um ateu pode ser virtuoso, tanto quanto um crente pode não sê-lo.



COMTE-SPONVILLE, André. O Espírito do Ateísmo. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2007. p. 46-49


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Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.