Movimento Black Bloc

por Breno Lucano

Uma dificuldade notória em termos de pesquisas sociais na sociedade brasileira atual é a imparcialidade que se torna necessária para entender o fenômeno. Afastar as noções de bem ou mal e justo ou injusto são fundamentais para que se faça uma leitura adequada dos eventos sociais.

Deparei-me com um livro bem interessante chamado Mascarados: A Verdadeira História dos Adeptos da Tática Black Bloc, escrito pela socióloga e pesquisadora Esther Solano. O livro surgiu de suas conclusões após intenso convívio com os jovens adeptos da tática, através do qual se pôde dar prosseguimento às pesquisas in loco.

À primeira vista o que temos visto nas manifestações que se originaram com o reajuste das passagens de ônibus e prosseguiram em outras manifestações é a grande massa afirmando que não se faz protestos c om violência. Ainda mais, que democracia não se faz com violência e que o povo brasileiro é pacífico. Mas ao falar isso não se considera que o sistema político, corporativo e social são extremamente violentos. A violência estrutural é imperceptível para a maioria, mas não significa que não exista.



A tática black bloc vê a violência como algo simbólico, como algo que luta contra o status quo. A vidraça quebrada do Banco do Brasil na Av. Paulista indica mais que uma simples vidraça, mas contra as taxas de juros aplicados. Por outro lado, a vidraça possuiu mais adesão dos meios de comunicação que em outras formas de violência porque se dão nos centros das cidades, como se ela possuísse mais importância que as altas taxas de homicídio no interior, que não ganham uma única linha nos jornais.

A imprensa não se interessa por política dura-e-crua. É necessário mais, é necessário a violência para que os eventos sejam publicados, para que haja uma reflexão sobre o que está ocorrendo. A violência se torna o motor da publicação das matérias, um intenso chamar a atenção público.

Fala-se que a grande maioria dos jovens são despolitizados e que se tratam de meninos que vão às ruas para simplesmente quebrar. A pesquisa revelou outro dado: que os jovens são bastante articulados politicamente e afirmam que o quebrar é um mecanismo para chamar a atenção do governo. Querem que o governo os escute, e que façam uma reflexão.

Esses jovens não crêem nos discursos de direita e esquerda - como a maioria esmagadora da população, não crêem em estrutura partidária e nada que seja hierarquizado. São apartidários. São jovens que votaram apenas uma única vez; outros nunca votaram. Mas que não se sentem representados politicamente, especialmente porque a maioria advém da periferia pobre e marginalizada. E o sistema, claro, não os inclui.

Os black bloc não são uma instituição. Os indivíduos agem individualmente. Não há uma hierarquia, uma liderança. As idéias são individuais.

Deve-se debater sobre a violência, mas não sobre a violência que gera uma vidraça quebrada. A violência que a tática black bloc propõe para o debate é a estrutural, ao mesmo tempo em que acusa a violência real que ocorre todos os dias nas favelas. A proposta da criminalização dos black bloc apenas polariza mais ainda uma sociedade já dividida: de um lado os que estão fazendo parte da sociedade de consumo e dos outro lado os que são marginalizados. A criminalização impede ainda mais um diálogo que deveria existir entre as diversas estruturas sociais.

Temos uma inversão semântica da terminologia violência. Talvez tenhamos uma vidraça quebrada, mas o que eles querem frisar é a violência que o Estado produz todos os dias, corporativa e capitalista, violência essa que não aparece na matéria de capa das revistas e sequer ganha representatividade nos meios de comunicação.

A nós, atores sociais, basta refletir e decidir sobre que tipo de sociedade queremos.

Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.