Religião e Moral

por Breno Lucano

Em termos genéricos, podemos entender religião a fé ou crença na existência de potências sobrenaturais com os quais o homem estabelece relações. Do ponto de vista das relações entre homem e divindade, a religião se caracteriza pelo sentimento de dependência do homem à Deus e pela garantia de salvação da alma ante aos males terrenos.

A salvação num além proposto pela religião indica, como premissa, o reconhecimento da própria religião de que existem males terrenos, ou, em outras palavras, na existência de uma limitação ao pleno desenvolvimento humano. O indicativo de que esse desenvolvimento será concluso em outra vida, de certa forma, demonstra que a religião não se resigna com os males deste mundo e lhes dá uma solução, ainda que no mundo ultraterreno. Em contrapartida, quando se perde de vista que inclui um protesto contra o mundo real, a religião logo se transforma num instrumento de conformismo, resignação ou conservadorismo. Assim, a luta por um mundo melhor cede espaço para a espera passiva de tudo será melhor no além. Essa é a função que a religião desempenhou historicamente durante séculos, colocando-se, como ideologia, a serviço da classe dominante. Mas não foi assim em suas origens, quando a religião cristã nasceu como religião dos oprimidos em Roma.

Sobre o Aborto

por Breno Lucano

"A confusão entre vida e qualidade
 de vida constitui um dos maiores
 embates da bioética."



Um dos maiores dilemas que circundam a sociedade industrializada ocidental envolve o aborto. Afinal, será o direito ao aborto moralmente legitimado?

Em primeiro lugar, devemos nos perguntar para quem ele não é bom? Para o feto, ou para os pais? Isto posto, geralmente alegam-se alguns pontos: o aborto consiste no assassinato de um ser humano inocente e, sendo moralmente errado o homicídio, o aborto se torna um erro. Por outro lado, à favor do aborto, alguns se apóiam que, não sendo o feto ainda um homem senão em potência a se desenvolver, não haverá dano em sua eliminação.

A potência constitui o núcleo argumentativo dos que desaprovam o aborto. O feto se tornará num futuro possível um ser humano como nós, consciente, plenamente desenvolvido social e psiquicamente. O aborto indicaria, nesse sentido, a impossibilidade de qualquer forma de vida futura, como a de qualquer um. Pensa-se que o feto terá uma boa vida pela frente, com experiencias promissoras, passando pelos mesmos revezes e as mesmas felicidades que circundam a aventura humana. E, à medida em que a gestante opta pela interrupção da gestação, impede esse feto de potencialmente se desenvolver e ser feliz.

Análise do Discurso de Posse de Bolsonaro

por Breno Lucano

O discurso de posse de Bolsonaro serve como elemento de análise de uma ideologia bem estrita. Ele se desdobra numa série de outros discursos à direita, cada vez mais estritos em alguns aspectos e, por outros, amplos.

Vale lembrar que ideologia não é um sistema de doutrina fechado, mas como uma meia verdade; ou ainda, como uma falsa consciência à respeito de algo. Está sempre sintonizado com certo público e funciona quando quem emite está no poder.

Vejamos o texto.

"Esse momento não tem preço. Servir a pátria como chefe do executivo só está sendo possível porque Deus preservou minha vida e vocês acreditaram em mim". 

Uma Noite de Crime e Filosofia

por Breno Lucano

Criado por James DeMonaco em 2013, a franquia Uma Noite de Crime chega em seu apogeu com a quarta e última continuação: A Primeira Noite de Crime. A franquia abre lacunas reflexivas na política e na ética com sua tese central. Imagine que uma vez por ano, por doze horas, todo crime será permitido, inclusive homicídio. Não haverá policiamento, nem risco de prisão. Tudo o que a vontade e o desejo quiserem será permitido, tendo a imaginação como único limite.

No decorrer da franquia os filmes ganham cada vez mais teor político, com a disputa de grupos rivais no Congresso Americano lutando pela sanção das doze horas, chamada de Noite do Expurgo. O Expurgo se configura como aquele momento único em que o instinto pode ser aflorado, a raiva vai à toma, toda sua frustração pode ser expurgada, suas vontades - antes contidas - agora podem se voltar contra seus desafetos. E o Expurgo é um bem social porquanto reduz a criminalidade, elimina da sociedade elementos que seriam um entrave para si mesma, indivíduos que dependeriam do Estado passam a não depender mais.

Por Trás da Máscara e a Filosofia

Cartaz do filme
por Breno Lucano

Muitos filmes de horror são bons apenas para dar bons sustos entre uma machadada e outra. Alguns são bem ruins nesse quesito, concordo. Contudo, há um bem inteligente que possui reflexões filosóficas que valem à pena. Trata-se de Por Trás da Máscara: O Surgimento de Leslie Vernon. Lançado em 2006 e estrelado pelo pouco conhecido Nathan Baesel com participação especial de Robert Englund, ator consagrado com mais de sessenta filmes no currículo, sendo Hora do Pesadelo o mais famoso.

Nesse filme os serial killers Freddy Krueger, Jason Voorhees e Michael Myers não são personagens. Tratam-se de assassinos reais, consagrados pela criminologia, ídolos que inspiram outros assassinos, entre os quais Leslie Vernon. O filme se passe sob a perspectiva do psicopata, seus planos, sua articulação, elabora seu modus operandi e reflete sobre o que vai acontecer quando ele atacar a vítma. Isso é uma inovação no cinema do horror em que a vítma é o núcleo dramatúrgico e o assassino apenas aparece, mata e vai embora. Pouco se sabe sobre ele. Aqui é diferente. Uma jornalista conhece Leslie e passa a conviver com ele, aprendendo sobre a personalidade, suas perspectivas, sua visão de mundo e como pretende operar no último momento.

Qual a Democracia Que Queremos?

por Breno Lucano

Ainda não assisti o debate de ontem. Mas ainda quero ver um tal deputado que quer ser presidente com uma cola na mão e que prefere resolver seus dilemas no grito... e ter pena da forma como somos miseráveis por pensar como alguém pode querer votar nele.

Aquele que nada sabe não possui condições de querer ser presidente. Está certo, constitucionalmente, qualquer um o pode. Mas sem conhecer nada de nada, a não ser ensinar uma criança a atirar, demonstra não ter qualquer competência técnica e mesmo moral para tal.

Ocorre que, por desagravo com Lula, todos correm para a direção diametralmente oposta, ingenuinamente, como se isso melhorasse algo. Todos esperam um anjo caído do céu, um messias capaz de resolver nossos problemas como um passe de mágica. Mas, além de ingenuidade, isso também é burrice. Burrice por não entender que os problemas se resolvem com história, no decorrer da história. Esperar que tudo melhore em poucos anos é impossível. Talvez nossos bisnetos vejam algo melhor, mas apenas um pouco. Não muito.

E é mais burrice ainda pensar de que forma alguém que ensina uma criança a atirar e possui três condenações por ataque a grupos sociais minoritários possa melhorar algo. Na melhor das hipóteses apenas demonstra não saber o que é democracia. E quando falo em democracia, falo do entendimento moderno de democracia. Talvez o tal deputado seja suficientemente desatualizado para pensar que a nossa democracia é a mesma da Grécia antiga, onde mulheres, escravos e menores de idade não eram cidadãos.


Sobre as Cotas Étnicas

por Breno Lucano

Cotas raciais é um daqueles temas em que as pessoas, de modo geral, negam-se a ouvir. As pessoas gritam "esquerdista", "comunista", "fascista". Elas não conseguem ouvir. O ódio toma conta da reflexão. Já escrevi um pouco disso no texto Política Pública de Minorias.

A política étnica de cotas são uma tentativa de acelerar o processo de integração. Pelo processo normal os negros não ocupam os espaços que poderiam ocupar. Essa política serve para que ocorra o costume de se encontrar os negros nesses lugares, lugares onde historicamente não deveriam estar, mas agora estão. Esse é um passo para terminar com o preconceito. Isso ocorreu nos EUA com republicanos e democratas.

Claro, esse processo político não pode substituir o processo natural do liberalismo que diz que a escola deve ser pública e de boa qualidade e essa escola que fará integração. No Brasil a escola não fez esse papel. Os negros não conseguiram se manter nessas escolas. O motivo: preconceito étnico.

Movimento Black Bloc

por Breno Lucano

Uma dificuldade notória em termos de pesquisas sociais na sociedade brasileira atual é a imparcialidade que se torna necessária para entender o fenômeno. Afastar as noções de bem ou mal e justo ou injusto são fundamentais para que se faça uma leitura adequada dos eventos sociais.

Deparei-me com um livro bem interessante chamado Mascarados: A Verdadeira História dos Adeptos da Tática Black Bloc, escrito pela socióloga e pesquisadora Esther Solano. O livro surgiu de suas conclusões após intenso convívio com os jovens adeptos da tática, através do qual se pôde dar prosseguimento às pesquisas in loco.

À primeira vista o que temos visto nas manifestações que se originaram com o reajuste das passagens de ônibus e prosseguiram em outras manifestações é a grande massa afirmando que não se faz protestos c om violência. Ainda mais, que democracia não se faz com violência e que o povo brasileiro é pacífico. Mas ao falar isso não se considera que o sistema político, corporativo e social são extremamente violentos. A violência estrutural é imperceptível para a maioria, mas não significa que não exista.

Qual o Verdadeiro Platão?

por Breno Lucano

Platão foi lido e continua sendo no decorrer dos séculos. Mas com frequência vemos platões diferentes, especialmente quando comparados a diversos períodos históricos. Assim ocorre quando temos o Platão lido por Aristóteles, aquele autor preocupado com a distinção entre o mundo sensível e o mundo inteligível, com o ser e o não-ser e com as questões lógicas do conhecimento.

Se compararmos com o Platão do século VI. O Platão de Plotino é algo bem diverso. Esse é o filósofo preocupado com a teologia: o Bem (a idéia suprema para Platão) é o ser uno e indizível, luz infinita, impensável e incalculável pelo espírito comum, espalhando em emanações capazes de criar o mundo, desde as formas estritamente espirituais até as imanentes.

Para os primeiros cristãos o verdadeiro Platão é o da imortalidade da alma, da crítica do corpóreo, da purificação espiritual, da salvação.

Ideologia e Alienação

por Breno Lucano

Talvez a palavra mais usada atualmente, embora em termos bem vulgares, seja ideologia. Periódicos e as redes não cansam de falar em ideologia de gênero, ideologia marxista, ideologia feminista. Mas o que é ideologia?

O conceito de ideologia origina-se na obra  do iluminista Antoine Destutt de Tracy, autor do tratado Les élements de l'idéologie (1801-1807) e que pertenceu a um grupo de pensadores que incluía o filósofo Dégerando, o médico Cabanis e o matemático Condorcet, que passaram a ser conhecidos nesse período como "ideólogos" (idéologues). A proposta original era a de formular uma genealogia da idéia, decompondo o processo de formação das idéias no homem. Esse projeto foi influenciado pelo sensualismo de Condilac, em seu Tratado das Sensações (1754), que, por sua vez, inspira-se no empirismo de Locke. As teorias dos ideólogos era servir como fundamento para a educação, fornecendo em última análise as bases para a reforma da sociedade no sentido iluminista.

Será o Homem Racional?

por Breno Lucano

"Então vá fumar maconha. Maconha ajuda a ter uma vida mais feliz... As implicações lógicas são fundamentais em qualquer discurso filosófico. Mesmo que o resultado disso seja o niilismo, o caos e o desespero... Quem busca a felicidade de bobo-alegre, aquela felicidade baseada numa sentença mágica, num mecanismo milagroso, numa dieta revolucionária é a 'auto-ajuda'". - Resposta de um usuário do G+

Essa resposta foi-me dada como reação a um de meus posts no G+ que se segue:

"Pouco importa se uma dada filosofia faz ou não sentido, se possui implicações lógicas ou metafísicas falsas. A pergunta que se deve fazer é: ela o ajuda a ter uma vida mais feliz?"

Em muitos aspectos achei essa resposta interessante. Ela se refere àquela que possivelmente é a questão central da filosofia, já muito discutida sob variados enfoques: como desfrutar de uma boa vida? Essa questão, como sabemos, foi refletida na antiguidade por variados autores, perpassou o medievo, atingiu a modernidade e encontrou seu ápice na pós-modernidade. Longe de afirmar que uma visão sobrepuja a outra. Isso não seria filosofia, por mais que alguns assim o vejam. Antes, tratam-se apenas de abordagens.

Moral e Caráter

por Breno Lucano

Todo ato moral, qualquer que seja, implica necessariamente em consciência e liberdade. Isto porque consciência e liberdade são indispensáveis para a moralidade ou, em outras palavras, apenas é moral o indivíduo que seja consciente de seu ato e esteja livre para optá-lo.

Contudo a moralidade é um evento social. Embora exercido indivudalmente, as bases que incindem sobre a moralidade possuem fundamentação em interesses e necessidades sociais. A atividade moral se realiza no quadro de várias condições das quais fazem parte os valores, princípios, normas, tal como a estrutura ideológica que existe nas instituições e meios de comunicação em massa. Mas deixemos de lado por hora os mecanismo através dos quais tais instituições influem a moralidade e passamos a investigar tão somente o indivíduo.

Sobre Identidade de Gênero e Orientação Sexual

Por Breno Lucano

Quando terminei minha graduação escrevi sobre uma abordagem filosófica sobre o uso de drogas em meu TCC. Foi apenas uma abordagem, dentro tantas que existem sobre esse tema. Isso é ciência. Ela se faz por diferentes narrativas dialéticas, onde se pode observar o mesmo objeto por variados angulos. Qualquer um que tenha feito uma simples graduação sabe disso.

O mesmo ocorre quando discorremos sobre temas espinhosos porque novos, como identidade de gênero e orientação sexual. Alguns dirão que não passa de ideologia de gênero gayzista. Não me preocupo muito com esses. Seria melhor que lessem antes do assunto antes de tecer considerações proveitosas, assim como tive que ler sobre uso de drogas. Não me atreveria escrever sobre fiísica quantica. Não é minha área, nada conheço sobre o assunto. Teria que ler sobre o assunto, refletir e, depois tecer algumas considerações. Não tenho como dizer se Stephen Hawking estava certo ou não porque nunca li um livro seu. Ele é um autor especialista.

Teorias Éticas

por Breno Lucano

Ao longo de alguns meses tenho explicado algo mais específico no universo da ética, onde esmiucei um pouco nos textos Consciência Moral, Ignorância e Responsabilidade e Caráter Histórico da Moral. Mas igualmente temos que refletir sobre o próprio conteúdo dessa responsabilidade e obrigação moral, de modo que discursemos sobre como devemos agir. Assim, inicio o artigo com a seguinte pergunta: o que me obrigo a fazer?

Para responder essa pergunta, os éticos costumam dividir suas teorias em dois blocos: ética deontológica e ética teleológica. Uma teoria ética deontológica (do grego déon, dever) recebe esse nome quando não se faz depender a obrigatoriedade da ação exclusivamente das consequências da própria ação ou de uma norma específica. As teorias teleológicas (télos, fim), por outro lado, derivam o conteúdo moral unicamente das consequências, do fim, das ações.

Períodos da Filosofia Antiga

por Breno Lucano

É comum na historiografia filosófica antiga três grandes períodos que demarcam os diversos autores. O primeiro período se inicia com os pré-socráticos - também chamados de cosmológicos -, que principia com Tales de Mileto e finda com Sócrates de Atenas; o segundo, chamado de antropológico ou socrático, começa com Sócrates e os sofistas e vai até Aristóteles; e, finalmente, com o período helenístico, que vai do surgimento dos sistemas cosmopolitas (epicurismo, estoicismo, neoplatonismo e ceticismo) e se estende até o final do Império Romano.

Vale lembrar que esses períodos conservam alguma relação com os períodos históricos, mesmo que precariamente. Eles possuem função meramente cronológico e didática e não devem ser vinculados fielmente à história como a conhecemos, seja história arcaica, clássica e helenista. Servem, antes, apenas como categorias através do qual seja possível compreender melhor os diversos sistemas filosóficos.

Proclo e a Origem do Mal

Proclo
por Breno Lucano

Sobre a questão do mal, Proclo escreve três trabalhos: "Dez aporias relativas à prónoia" (De decem), "Sobre prónoia, destino e liberdade" e "Sobre a existência do mal" (De malorum subsistentia), chegando a uma solução perfeitamente autônoma e interessante. 

Ocorre que Proclo não se mostra convencido com a posição estóica sobre o mal, que buscam negá-lo e alocá-lo entre os indiferentes. Tampouco aceita a tese segundo a qual a providência não deve ser estendida ao âmnito das coisas terrenas. A suposição de Plutarco, de que haveria uma alma que efetua o mal, não o deixa satisfeito, o que ocorre também com a tese de Plotino, que associa a matéria com o mal. Como matéria é a última emanação da causa suprema e boa, ela não pode ser má, e sim, no máximo, neutra, nem boa nem má. Proclo busca outras saídas. 

O autor tenta, então, manter as duas posições - a tese do bom Deus e a existência do mal - sem que decorra delas uma contradição. Ele quer ver providência como uma causa que a tudo governa, e que, não obstante, não é responsável pelo mal nem direta nem indiretamente. Com essa finalidade, ele oferece uma análise expressiva da noção de causa. Proclo contesta que haja uma única causa para o mal, como supõem, por exemplo, os maniqueus. Ele fundamenta esta tese com a observação de que não haveria uma existência (hipóstase) própria para o mal, mas uma existência apenas colateral. Vejamos de que modo.

Ética e Hedonismo

por Breno Lucano

Muito se fala do dever enquanto modalidade ética e, assim, contra as proposições hedonistas., e disso já discorri no texto sobre Hedonismo, entre outros. Assim, o prazer se torna o oposto do dever, dois blocos diametralmente opostos na ética. Muito disso se deve à nossa herança iluminista, especialmente Kant; e, num modelo mais popular, ao cristianismo.

Ao contrário do que se diz, o hedonismo abrange os prazeres esperados da mesma forma que os desprazeres dispensáveis. Se põe como cálculo do regozijante ou aborrecido, do agradável e do desagradável, para somente depois julgarmos antes de agir. Epicuro explica tal matemática ao ensinar que um prazer não merece ser desfrutado se for seguido de um desprazer. O mero júbilo instantâneo se torna relativo e apenas procurado se considerarmos o momento após o instantâneo.

Gladiador e Filosofia

por Breno Lucano

Gladiador foi, seguramente, um dos filmes que mais marcou minhas reflexões filosóficas e que me influenciou desde o início, impelindo-me para a investigação dos meandros estóicos e, de modo muito particular, ao universo de Marco Aurélio. Isso fez com que, em 2005, criasse o Portal Veritas como forma de publicar textos à respeito do Imperador e de seu pensamento, algo que preservo ainda hoje à partir da coluna com seu nome.

Escrevi já bastante coisa sobre Marco Aurélio, onde destaco os textos Marcus Aurelius, Homem, Filósofo e Guerreiro e As Meditações de Marcus Aurelius. Mas o filme nos confere já algumas reflexões, apesar de suas limitações. A grandiosidade da produção é um show à parte, que garante um bom entretenimento.

Diógenes e o Ofício Cínico

Diógenes na pintura "Escola de Atenas", de Rafael
por Breno Lucano



O cinismo era primordialmente definido como "um atalho para a virtude", em oposição ao estudo elaborado e teórico típico da filosofia. Contudo, esse atalho não significava algum tipo de facilidade quanto à aquisição de uma vida filosófica, porquanto requeria a aplicação de um método rigoroso: a askésis ("exercício", "prática", "treino", "disciplina").

Entendida no sentido cínico do termo, a askesis tinha o intuito de ser um método preventivo. A cada dia, o cínico treina a si mesmo fisicamente nas artes da perseverança e da resistência; o exercício diário da vontade faz com que o medo se dissipe, já que o cínico praticante está constantemente se fortificando contra infortúnios imprevistos. A compreensão da askesis deve ser entendida sob o contexto do cínico como um filósofo da contingência.

O conceito de "disciplina" (askesis), emprestado do vocabulário do atletismo, não era usado pelos cínicos apenas no sentido metafórico. Como a do atleta, a disciplina (askesis) do filósofo era totalmente concreta. A única diferença estava no telos de seu treinamento, a finalidade de seu ofício: enquanto o atleta treinava o seu corpo com vista à vitória no estádio, o cínico o treinava para fortalecer a sua vontade e assegurar a sua capacidade de resistência.

Poliamor e Poder

por Breno Lucano

Em tempos de elevada onda ultra-conservadora que varre a sociedade brasileira, variados temas entram em choque com os costumes, como o uso da maconha para fins medicinais e a marcha das vadias. Outros temas, contudo, já foram e continuam sendo de algum modo discutidos, como a reprodução in vitro, a instituição do divórcio, a entrada da mulher no mercado do trabalho, a cultura gay, a legalização do trabalho das profissionais do sexo, entre outros. Um me chamou a atenção: o poliamor.

Conceituamente o poliamor viabiliza a desconstrução da monogamia enquanto imperativo normativo, viabilizando a vivência de variados amores simultâneos e de profundidade e durabilidade. Ele, contudo, não se confunde com poligamia na medida em que a poligamia sugere assimetria de gêneros. Se pensarmos, a título de exemplo, os muçulmanos, apenas o homem pode ser polígamo, constituindo um núcleo familiar formado por um homem com várias mulheres. O poliamor admite, opostamente, a vivência de mais de uma relação amorosa simultânea, tanto de homens quanto de mulheres.