Sobre mim
Uma trajetória entre a filosofia, a ética, a saúde e a investigação da condição humana
Breno de Magalhães Bastos
Minha relação com a filosofia não nasceu simplesmente de uma escolha acadêmica. Ela surgiu de uma inquietação diante da própria existência e de uma preocupação antiga com a condição humana. Durante muitos anos, procurei compreender como os seres humanos constroem valores, enfrentam o sofrimento, estabelecem relações de poder e procuram atribuir algum sentido à própria existência.
Essa inquietação esteve presente em diferentes momentos da minha trajetória e acabou encontrando na filosofia um espaço privilegiado de investigação. Mais do que procurar respostas definitivas, passei a me interessar pelas perguntas que permanecem abertas e pela capacidade que o pensamento filosófico possui de colocar em questão aquilo que normalmente aceitamos sem reflexão.
A passagem pelo seminário
Em 2005, profundamente envolvido com questões humanitárias e com o desejo de dedicar minha vida a esse trabalho, ingressei no Seminário São Francisco de Assis, em Ituporanga, Santa Catarina. Naquele momento, minha intenção era seguir a vida religiosa franciscana e contribuir, no interior da Ordem dos Frades Menores, para aquilo que eu compreendia como uma tarefa fundamental: trabalhar em favor do ser humano.
A experiência no seminário foi breve, mas intelectualmente decisiva. O contato com os frades, com a tradição franciscana, com a filosofia e com a reflexão ética deixou marcas profundas na maneira como passei a compreender a vida, a sociedade e a responsabilidade individual.
Foi também nesse período que meu interesse pela filosofia ganhou uma dimensão mais concreta. A leitura deixou de ser apenas uma atividade intelectual e passou a representar uma maneira de compreender a própria existência e as escolhas que fazemos diante dela.
Seminário São Francisco de Assis, em Ituporanga, Santa Catarina, onde iniciei minha formação religiosa em 2005.
Imagem: Visite Ituporanga
Por circunstâncias que me levaram a abandonar o projeto de ser frade, retornei ao Rio de Janeiro. A saída do seminário, entretanto, não significou o abandono da investigação que havia começado ali. Pelo contrário: a filosofia permaneceu como uma das principais formas pelas quais passei a organizar minhas próprias inquietações.
O nascimento do Portal Veritas
Em 17 de dezembro de 2005, nasceu o Portal Veritas. O projeto surgiu inicialmente como um espaço pessoal de estudo e divulgação filosófica, especialmente dedicado aos autores que despertavam meu interesse naquele período.
O Portal nasceu, portanto, diretamente ligado à experiência do seminário. Se a vida religiosa não continuaria sendo o caminho escolhido, o estudo e a investigação filosófica permaneceriam como uma forma de dar continuidade às perguntas que haviam surgido naquele período.
Entre os primeiros autores que ocuparam minhas leituras estava Marco Aurélio, cuja filosofia estoica se tornaria uma das principais referências de minha trajetória intelectual.
O Portal Veritas tornou-se, assim, não apenas um espaço para publicar textos, mas também uma espécie de registro público de uma trajetória intelectual que continuaria se modificando ao longo dos anos.
A escolha do nome Veritas também não foi casual. A busca pela verdade, entendida não como uma propriedade definitiva de alguém, mas como um processo permanente de investigação, sempre esteve no centro do projeto.
Marco Aurélio e o estoicismo
O estoicismo foi uma das primeiras grandes tradições filosóficas a ocupar de maneira sistemática minhas investigações. Marco Aurélio tornou-se uma referência particularmente importante porque sua obra apresenta uma característica que considero fundamental na filosofia: a tentativa de confrontar as ideias com a própria vida.
Durante muitos anos, dediquei-me ao estudo do pensamento estoico, especialmente às questões relacionadas à ética, à responsabilidade, à liberdade, ao domínio das paixões, à relação entre indivíduo e sociedade e à maneira como lidamos com aquilo que não depende de nossa vontade.
Meu interesse pelo estoicismo, contudo, nunca foi simplesmente devocional. Não vejo os filósofos como autoridades que devam ser seguidas sem questionamento. Uma filosofia viva precisa ser confrontada, examinada e, quando necessário, criticada.
É justamente essa postura que procuro manter diante do estoicismo: compreender sua estrutura filosófica, reconhecer sua importância histórica e investigar aquilo que ainda pode oferecer ao pensamento contemporâneo, sem transformar uma tradição antiga em uma coleção de frases motivacionais.
Filosofia não é um conjunto de respostas prontas.
É também a disposição de permanecer diante de uma pergunta tempo suficiente para descobrir que talvez seja necessário reformulá-la.
Dos estoicos aos cínicos
Com o passar dos anos, minhas investigações ultrapassaram os limites do estoicismo. O universo dos filósofos cínicos, especialmente Diógenes de Sinope, passou a exercer grande fascínio sobre mim.
Diógenes representava uma ruptura radical com determinadas convenções sociais e com a necessidade de adequação às expectativas coletivas. Sua crítica à riqueza, ao prestígio, às instituições e aos costumes oferecia uma perspectiva particularmente interessante para pensar a autonomia individual.
A figura de Diógenes também ajudou a ampliar minha compreensão da filosofia antiga. A filosofia deixava de aparecer apenas como um conjunto de textos e sistemas conceituais e passava a ser compreendida como uma forma de vida, uma maneira de posicionar-se diante do mundo.
O encontro com o materialismo francês
Minha trajetória intelectual conduziu-me posteriormente ao materialismo francês e a autores que colocaram em questão os fundamentos religiosos e metafísicos da moral tradicional. Entre eles, o Marquês de Sade ocupa um lugar singular, justamente por levar determinadas questões morais até suas consequências mais radicais.
Posteriormente, Michel Onfray tornou-se uma referência importante em minhas leituras. Seu projeto de construção de uma contrahistória da filosofia e sua crítica às tradições idealistas contribuíram para ampliar meu interesse por uma filosofia materialista, hedonista e profundamente comprometida com a existência concreta.
Esse percurso não produziu uma doutrina pessoal fechada. Ao contrário, fez com que meu pensamento se tornasse progressivamente mais interessado no confronto entre diferentes tradições filosóficas e na possibilidade de pensar uma ética sem depender necessariamente de fundamentos religiosos.
Uma posição secular e materialista
Minha formação franciscana permanece como parte importante da minha história, mas ela não determina minhas posições filosóficas atuais. Ao longo dos anos, minha reflexão passou por uma transformação significativa e adquiriu um caráter cada vez mais secular e materialista.
Essa mudança não nasceu de uma simples rejeição da religião. Ela foi construída a partir da observação crítica dos efeitos que determinadas estruturas religiosas podem produzir quando deixam de ser instrumentos de reflexão e passam a reivindicar autoridade absoluta sobre a vida humana.
Ao mesmo tempo, não considero necessário negar a importância cultural, histórica ou existencial das religiões. A espiritualidade, a religião e a filosofia de vida podem exercer funções relevantes na experiência humana. O problema começa quando uma crença deixa de ser uma possibilidade de interpretação da existência e passa a exigir submissão intelectual ou moral.
Por isso, minha posição atual procura preservar aquilo que considero intelectualmente fecundo — a ética, a reflexão sobre a existência, a busca de sentido e a investigação sobre o comportamento humano — sem depender de uma explicação sobrenatural do mundo.
Filosofia como investigação da condição humana
É nesse ponto que diferentes momentos da minha trajetória acabam se encontrando. O estoicismo, o cinismo, o materialismo e outras tradições que despertaram meu interesse possuem diferenças profundas entre si, mas todas oferecem instrumentos para pensar uma questão que permanece atual: como viver?
Essa pergunta parece simples, mas envolve problemas filosóficos fundamentais. O que podemos controlar? O que devemos desejar? O que significa ser livre? De onde vêm nossos valores? Como devemos agir diante do sofrimento? Qual é a relação entre prazer e felicidade? Até onde devemos obedecer às convenções sociais? É possível construir uma ética sem recorrer a fundamentos transcendentes?
São essas questões, mais do que qualquer sistema filosófico isolado, que continuam orientando minhas investigações.
A pesquisa sobre estoicismo
Meu interesse pelo estoicismo também ultrapassou o âmbito das leituras pessoais e da produção no Portal Veritas. Ao longo dos anos, desenvolvi uma investigação mais sistemática sobre a tradição estoica e sua permanência no pensamento contemporâneo.
Atuei como conferencista no Stoicon X Brasil, evento dedicado ao estudo e à divulgação contemporânea do estoicismo, e também apresentei trabalhos no Grupo de Trabalho Epicteto da Universidade Federal de Sergipe (UFS).
Tenho ainda artigos publicados tendo o estoicismo como objeto de estudo, resultado desse percurso de investigação que procura tratar a filosofia estoica não apenas como uma tradição histórica, mas como objeto legítimo de análise filosófica.
Essas experiências representam uma continuidade natural do projeto iniciado muitos anos atrás com o Portal Veritas. O que começou como uma iniciativa pessoal de estudo transformou-se progressivamente em um espaço de pesquisa, produção e diálogo com outras pessoas interessadas na filosofia.
Meu interesse pelo estoicismo é filosófico, não meramente motivacional.
Interessa-me compreender seus conceitos, seus problemas, sua história, seus limites e sua capacidade de dialogar criticamente com as questões do mundo contemporâneo.
Da filosofia para a saúde
Minha trajetória profissional seguiu outro caminho paralelo. Em 2003, concluí minha formação em Enfermagem e Obstetrícia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Meu trabalho de conclusão de curso teve como tema “Uso e Abuso de Drogas pelo Jovem: Um Bem ou Um Mal?”, já revelando uma preocupação com questões que ultrapassavam o campo estritamente técnico da profissão.
Posteriormente, aprofundei minha formação na área de Saúde Mental e em outras áreas relacionadas à saúde e ao cuidado. Essa experiência acabou estabelecendo uma ponte inesperada entre duas áreas que, à primeira vista, poderiam parecer distantes: filosofia e saúde.
A filosofia pergunta, entre outras coisas, como devemos viver. A saúde pergunta como podemos preservar e recuperar condições que permitam essa vida. Entre as duas existe um território imenso de questões relacionadas ao sofrimento, à autonomia, aos hábitos, às relações humanas, à vulnerabilidade e à qualidade da existência.
Essa aproximação tornou-se uma parte importante da minha trajetória profissional e intelectual. Passei a compreender que cuidar de alguém exige não apenas conhecimento técnico, mas também capacidade de escuta, compreensão do contexto humano e disposição para reconhecer a complexidade de cada indivíduo.
O que é o Portal Veritas hoje?
O Portal Veritas continua sendo, acima de tudo, um espaço de investigação. Sua história começou com textos simples sobre filosofia e passou por diferentes fases, acompanhando também as transformações intelectuais de seu autor.
Não pretendo apresentar aqui uma filosofia acabada. O próprio percurso registrado neste espaço demonstra o contrário. As ideias mudam, os autores são revisitados, algumas convicções são abandonadas e outras permanecem depois de submetidas a novas perguntas.
É justamente essa possibilidade de transformação que considero uma das maiores virtudes da filosofia.
O Portal Veritas permanece, portanto, como um convite à reflexão. Um espaço para discutir estoicismo, filosofia antiga, materialismo, ética, política, existência humana e os problemas que continuam nos acompanhando apesar das mudanças históricas.
A filosofia continua sendo, para mim, uma forma de resistência intelectual.
Resistência contra respostas fáceis, contra verdades impostas, contra o pensamento automático e contra a ideia de que precisamos aceitar o mundo exatamente como ele nos foi apresentado.
Uma trajetória ainda em movimento
Minha trajetória passou pelo franciscanismo, pelo estoicismo, pelo cinismo, pelo materialismo e por diferentes formas de compreender a existência humana. Passou também pela Enfermagem, pela Saúde Mental, pela pesquisa, pela escrita e pela atividade de conferencista.
Esses caminhos não precisam ser compreendidos como etapas isoladas. Eles fazem parte de uma mesma investigação: compreender o ser humano em sua dimensão concreta, histórica, social, ética e existencial.
Talvez seja justamente essa a característica mais permanente da minha trajetória: a recusa em considerar qualquer resposta definitiva antes que ela tenha sido suficientemente examinada.
Continuo estudando, escrevendo e investigando. E, enquanto houver perguntas que permaneçam abertas, haverá também uma razão para continuar filosofando.
Breno de Magalhães Bastos
Enfermeiro • Pesquisador independente em filosofia • Conferencista
Estudos em filosofia, estoicismo, ética, materialismo e condição humana
Palavras-chave: Breno de Magalhães Bastos, Portal Veritas, estoicismo, Marco Aurélio, Epicteto, Diógenes, filosofia, filosofia estoica, ética, materialismo, filosofia antiga, Stoicon X Brasil, Universidade Federal de Sergipe, UFS