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Saint-Évremond e o Epicurismo Moderno

por Breno Lucano

Mesmo militar, Saint-Évremond se encontrava regularmente com um grande nome da cena intelectual do  século XVII: Pierre Gassendi. Tal como filosofia, assistia suas aulas de astronomia em Paris na companhia de Cyrano de Bergerac.

Após uma longa discurssão sobre os limites da razão, sobre o caráter restrito de seus poderes, sobre a evidente limitação dos nossos conhecimentos, sobre a possibilidade ou incapacidade de se pensar numa ou em várias coisas, Saint-Éveremond conclui: a filosofia não serve para nada! Não há qualquer motivo para investir trabalho, dispensar energia e tempo numa operação que, no final das contas, não trará nenhum benefício.

Houve tempo em que cria nos discursos contraditórios dos mais variados filósofos, desde os gregos até os de seu tempo. Com o avançar da idade, entra em conformidade com o espírito cético e passa a adotar o famoso epokhé cético, a suspensão de juízo, e de buscar incessantemente.  Dá as costas para os dogmas, e o simples prazer em discurssar, e abraça a viva filosofia prática, pragmática, vinculada ao cotidiano. Assim, seu imperativo categórico passa a ser:

"Falando sabiamente, temos mais interesse em aproveitar o mundo do que em conhecê-lo."

Lorenzo Valla e a Volúpia em Deus

por Breno Lucano

Todos se recordam do epicurismo cristão de Gassendi. Mas são poucos os que lembram que o primeiro a reconciliar dois blocos tão distantes na história do pensamento foi o romano Lorenzo Valla (1407-1457).

Anticlerical, certamente. Mas nunca ateu. Em momento algum Valla promove o materialismo, reforça o atomismo ou desconstrói Deus. Antes, Deus é verdade eterna que apenas é compreendido por meio da fé, em detrimento das sutilezas escolásticas, dos labirintos tomistas e dos meandros dialéticos. Não questiona a existência de Deus, mas deseja Sua reinterpretação. O romano não pretende a um ataque à religião, mas uma purificação de sua mensagem, depois um retorno a seus princípios éticos e genealógicos. Cristo, o filósofo por excelência, deve ser preservado. Os ataques dizem respeito à Igreja, ao Papado, e se concentram, sobretudo, em seu famoso texto Doação de Constantino.

Gassendi e o Epicurismo Cristão

por Breno Lucano

O que busca a filosofia de Gassendi? Nada  menos que a felicidade e o prazer. Tendo em razão sua proposta eudemonista, ataca Aristóteles de todas as formas, chegando mesmo a afirmar que sua leitura é profundamente entediante. A mola propulsora do ataque foi o pirronismo. Mas entenda bem: o ceticismo foi o caminho metodológico da obra gassendista, nunca a conclusão.

Aristóteles à parte, a rivalidade principal sempre foi Descartes. Aprofundemos: Descartes, partindo da dúvida, alcança certezas ontológicas, passando pelo cogito, pelas idéias inatas, por Deus, construindo a metafísica moderna. Gassendi, por outro lado, admite que a razão não é o instrumento adequado para o alcance de Deus, já que é limitado e pouco confiável. Ambos são homens de ciência. Creem na observação, na dedução, confederem a física como modelo. Mas Gassendi limita a ciência, entende que ela deve poupar os assuntos religiosos.

Gassendi, o Padre Epicurista

por Breno Lucano

Nascido em 1592, ano da morte de Montaigne, Gassendi ainda se chama Gassend. Era comum a italianização do nome segundo o gosto de Maria de Médicis. Seus pais, camponeses de Alpes-de-Haute-Provence, onde passa os anos mais importantes de sua vida, salvo breves períodos em Paris.

Progredindo rápido nos estudos, já aos 16 anos ensina retórica do colégio em Digne, de onde se torna diretor aos 22. Pouco mais tarde torna-se doutor em teologia, o que lhe confere a possibilidade de pregar e ensinar. Assume, finalmente a cátedra de filosofia e teologia em Aix-en-Provence. Por alguns anos ensina Aristóteles, embora sempre de forma heterodoxa: apoia-se na ciência e na experimentação, na verificação dos fatos, partindo do corpo sensual.

Aula sobre Aristóteles? Melhor dizendo: contra Aristóteles. Ataca a escolástica sempre que possível, assim como Descartes por querer provar racionalmente a existência de Deus, quando, para Gassendi, Deus é tão-somente um artigo de fé. Mas nosso filósofo possui outras ocupações, além da filosofia e teologia. Estudioso de anatomia e pratica dissecação; nas horas vagas, tece observações astronômicas.

Influência da Obra de Epicuro

O estudo das obras de Epicuro teve novo ímpeto com a publicação, nos anos de 1647-1655,  dos trabalhos do professor de filosofia do Collége Royal de Paris, Pierre Gassendi, que interpretou a filosofia epicuréia por comentários ao livro X de Diógenes Laércio, e defendeu o ponto de vista do atomismo contra o racionalismo de Descartes. É de se supor que Epicuro se tornou conhecido e familiar às pessoas cultas daquela época, principalmente em razão dessa controvérsia. O poema de Lucrécio também foi traduzido para o francês, estava aberto o caminho para a influência da concepção atomística sobre a tendência espiritual da era do "esclarecimento", e especialmente sobre o trabalho das ciências naturais modernas. Foi nessa altura que o pensamento atomístico se tornou familiar a Frederico, O Grande.