Demonax

Expoente da corrente radical do cinismo foi também Demonax1, contemporâneo de Enomau. Na verdade, Demonax temperou em alguns pontos certos excessos do cinismo: "Não falsificava os seus costumes e maneiras para ser admirado", refere-nos Luciano2, ou seja, para atrair ostensivamente para si a atenção das pessoas, e, em particular, não se dava a gestos extremos típicos da cínica anaideia. Por outro lado, ele confessava expressamente admirar não apenas Diógenes, mas respeitar Sócrates e amar Aristipo3. Estudou também , e não superficialmente, o pensamento de outros filósofos, coisa incomum entre os cínicos.4

Do cinismo extraiu, em primeiro lugar, o grande amor pela liberdade e o "franco falar", e fez a felicidade consistir na liberdade.



Eis alguns significativos testemunhos de Luciano:

"Demonax [...] desprezou todos os bens humanos, não quis outra coisa senão ser livre e falar livremente [...]."5

"Alguém lhe perguntou em que punha a felicidade. Respondeu: 'Só o homem livre é feliz.' E o outro: 'Existem muitos livres?' E ele: 'Para mim é livre quem não teme nem espera nada.' E o outro: 'Mas como se pode ser tal se todos somos servos dessas duas paixões?' E ele: 'Se consideras as coisas humanas, encontrarás que por elas não se deve nem esperar nem temer, porque todas passam, sejam as agradáveis, sejam as desagradáveis.' "6

Também a sua atitude diante da religião pública, dos mistérios e das crenças sobre a alma e as suas sortes no além estavam em plena sintonia com o radicalismo cínico e, antes, justamente por isso foi acusado e chamado em juízo, com base na acusação formal de nunca ter sido visto sacrificar aos deuses e de nunca ter sido iniciado aos mistérios de Elêusis. (Defendeu-se brilhantemente da acusação, sustentando, em primeiro lugar, que os deuses não tem necessidade dos sacrifícios dos homens, e, quanto aos mistérios, sustentando que ele não os teria podido respeitar e calar sobre eles diante dos não-iniciados: de fato, se lhes tivessem parecido maus, te-los-ia revelado para afastar os não-iniciados das coisas más, e se lhes tivessem parecido bons, teria falado deles a todos por amor à humanidade).7

Sobre as opiniões a respeito da imortalidade da alma e as suas sortes, eis o que nos refere Luciano:

"Alguém lhe perguntou se a alma é imortal. 'É imortal como toda outra coisa', respondeu."8

"Perguntou-lhe alguém: 'Que pensas que existe no inferno?' 'Espera que ali esteja' - respondeu - 'e de lá te escreverei.' "9

O culto do exercício e da fadiga foi também reafirmado por ele, e exaltada a autarquia.10

Demonax retomou, ademais, a componente filantrópica do cinismo, que, antes dele, sobretudo Crates fizera valer. Escreve Luciano a este respeito:

"Nunca foi visto gritar, estabelecer contendas, irar-se, nem mesmo quando devia chamar a atenção de alguém: repreendia os vícios, mas perdoava os viciosos, e dizia que se devia imitar os médicos que curam as enfermidades e não desprezam os enfermos. Acreditava, justamente, que errar é humano: mas levantar quem caiu no erro é obra de um Deus, ou de um homem semelhante a um Deus."11

E ainda:

"Tentava faze com que voltassem às pazes os irmãos separados, fazer as pazes entre mulher e marido, e algumas vezes falou oportunamente nas dissensões do povo, e persuadiu a multidão a fazer o bem da pátria. Dessa natureza era a sua filosofia, doce, amável, alegre. Só a enfermidade lhe doía ou a morte de algum amigo, porque considerava a amizade o maior bem dos homens: e por isso era amigo de todos, e tinha por próximo a qualquer homem."12

E, enfim:

"Viveu cerca de cem anos sem males, sem dores, não incomodando a ninguém, nem pedindo nada, útil aos amigos, sem ter nunca um inimigo. Tanto amor tinham por ele os atenienses e todos os gregos, que quando ele passava os magistrados se punham de pé, e todos se calavam. Sendo já muito avançado em anos, amiúde lhe acontecia de entrar por acaso numa casa, e ali comia e dormia, e as pessoas daquela casa acreditavam que lhes tinha aparecido um deus, e que um bom gênio tinha entrado na casa."13


Notas:

1. Demonax nasceu no Chipre, e viveu por muito tempo em Atenas, onde morreu quase centenário, deixando-se morrer de fome, quando se deu conta de não ser mais auto-suficiente. Teve como mestres os cínicos Demétrio e Agatóbulo e o estóico Epicteto (cf. Luciano, Vida de Demonax, 3). Não conhecemos as datas de nascimento e de morte. Dudley (A History of Cynism, p. 159, nota 1), com base em escassas indicações que nos chegaram, de maneira conjetural, propõe 70 e 170 d.C. (aproximadamente) como datas de sua vida. Em todo caso, parece certo que a atividade de Demonax deve ser situada no século II d.C. A nossa principal (e quase única) fonte de informações sobre este cínico é a Vida de Demonax, escrita por Luciano, ou, em todo caso, a ele atribuída (mesmo que esta pequena obra não fosse de Luciano, o seu valor não mudaria, pois o autor deve ter tido muita familiaridade com Demonax.

2. Luciano, Vida de Demonax, 5

3. Cf. Luciano, Vida de Demonax, 5; 62

4. Cf. Luciano, Vida de Demonax, 4

5. Luciano, Vida de Demonax, 3

6. Luciano, Vida de Demonax, 19s.

7. Cf. Luciano, Vida de Demonax, 11

8. Luciano, Vida de Demonax, 32

9. Luciano, Vida de Demonax, 43

10. Cf. Luciano, Vida de Demonax, 3

11. Luciano, Vida de Demonax, 7

12. Luciano, Vida de Demonax, 9s.

13. Luciano, Vida de Demonax, 63



REALE, Giovanni. História da Filosofia Antiga IV: As Escolas da Era Imperial. Edições Loyola. p. 199-202



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Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.