No jogo dos contextos, um deles não é o menor: o das implicações ideológias que atraveeesam a história das idéias e opõem uma tradição hedonista a sua familiar inimiga do ideal ascético. De um lado, Leucipo, Demócrito, Aristipo, Diógenes, Epicuro, Lucrécio, Horácio, etc. - aquele que esta obra reúne pela primeira vez as grandes figuras -, do outro, como contemporâneos exatos, Pitágoras, Parmênides, Cleanto, Crisipo, Platão, Marco Aurélio, Sêneca. Atomistas, monistas, abderianos, materialistas, hedonistas contra idealistas, dualistas, eleatas, espiritualistas e defensores da linha ascética. A filosofia, em seu período grego, mas também depois, apresentou constantemente uma dupla fisionomia da qual uma só face é montada, apresentada. Pois, como ganhadores, Platão, os estóicos e o cristianismo impõem suas lógicas: ódio ao mundo terreno, aversão às paixões, às pulsões, aos desejos, desconsideração ao corpo, ao prazer, aos sentidos, culto às forças noturnas, às pulsões de morte. Difícil pedir aos vencedores que escrevam objetivamente a história dos vencidos...
21 de maio de 2013
20 de maio de 2013
Gassendi e o Epicurismo Cristão
por Breno Lucano
O que busca a filosofia de Gassendi? Nada menos que a felicidade e o prazer. Tendo em razão sua proposta eudemonista, ataca Aristóteles de todas as formas, chegando mesmo a afirmar que sua leitura é profundamente entediante. A mola propulsora do ataque foi o pirronismo. Mas entenda bem: o ceticismo foi o caminho metodológico da obra gassendista, nunca a conclusão.
Aristóteles à parte, a rivalidade principal sempre foi Descartes. Aprofundemos: Descartes, partindo da dúvida, alcança certezas ontológicas, passando pelo cogito, pelas idéias inatas, por Deus, construindo a metafísica moderna. Gassendi, por outro lado, admite que a razão não é o instrumento adequado para o alcance de Deus, já que é limitado e pouco confiável. Ambos são homens de ciência. Creem na observação, na dedução, confederem a física como modelo. Mas Gassendi limita a ciência, entende que ela deve poupar os assuntos religiosos.
19 de maio de 2013
Série Diógenes de Sínope
Diógenes e Felipe
(43) Às pessoas que se deixavam perturbar por sonhos Diógenes falava: "Por tudo que realmente fazeis quando estais despertas não vos atormentais, porém usais toda a vossa perspicácia para entender o que imaginais no sono." Quando o arauto proclamou em Olímpia: "Diôxipos venceu os homens", Diógenes o interrompeu para dizer: "Estes vencem os escravos, e eu venço os homens."
Apesar de tudo os atenienses o amavam. Tanto era assim que quando um rapaz lhe quebrou o tonel os atenienses surraram o rapaz e deram outro tonel a Diógenes. Dionisios, o estóico, afirma que após a batalha de Caironea ele foi detido e levado à presença de Felipe; perguntando-lhe este quem ele era, sua resposta foi: "Um observador de tua ambição insaciável." Por essa resposta Diógenes conquistou a admiração do rei e foi posto em liberdade.
DL, Livro VI
18 de maio de 2013
Marco Aurélio e o Estoicismo
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| Pintura de Eugene Delacroix intitulada "La Mort de Marc Aurèle", de 1844. |
17 de maio de 2013
Gassendi, o Padre Epicurista
por Breno Lucano
Nascido em 1592, ano da morte de Montaigne, Gassendi ainda se chama Gassend. Era comum a italianização do nome segundo o gosto de Maria de Médicis. Seus pais, camponeses de Alpes-de-Haute-Provence, onde passa os anos mais importantes de sua vida, salvo breves períodos em Paris.
Progredindo rápido nos estudos, já aos 16 anos ensina retórica do colégio em Digne, de onde se torna diretor aos 22. Pouco mais tarde torna-se doutor em teologia, o que lhe confere a possibilidade de pregar e ensinar. Assume, finalmente a cátedra de filosofia e teologia em Aix-en-Provence. Por alguns anos ensina Aristóteles, embora sempre de forma heterodoxa: apoia-se na ciência e na experimentação, na verificação dos fatos, partindo do corpo sensual.
Aula sobre Aristóteles? Melhor dizendo: contra Aristóteles. Ataca a escolástica sempre que possível, assim como Descartes por querer provar racionalmente a existência de Deus, quando, para Gassendi, Deus é tão-somente um artigo de fé. Mas nosso filósofo possui outras ocupações, além da filosofia e teologia. Estudioso de anatomia e pratica dissecação; nas horas vagas, tece observações astronômicas.
13 de maio de 2013
Deus e Moral
Isso não significa que o fato de ser ateu, ou de se tornar ateu, não mude coisa alguma. Sei disso por experiência própria: fui crente nos anos mais importantes da minha vida - a infância, a adolescência - e pude avaliar, a posteriori, a diferença. Ela não é nem total nem nula. Aliás, é o que Kant, do seu ponto de vista de filósofo crente, confirma. Num trecho célebre de Crítica da Razão Pura, ele resume o domínio da filosofia em três questões: Que posso conhecer? Que devo fazer? Que posso esperar? Confrontemos rapidamente cada uma das três com a perda eventual da fé.
Perder a fé não muda em nada o conhecimento. As ciências continuam sendo as mesmas, com os mesmos limites. Nossos cientistas sabem disso muito bem. Eles crerem ou não em Deus pode modificar o modo como vivem sua profissão (seu estado de espírito, sua motivação, o sentido último, para eles, da sua pesquisa); mas não podem mudar os resultados do seu trabalho, nem o estatuto teórico desse, nem portanto a profissão do cientista como tal (senão, ele deixaria de ser cientista). Pode mudar sua relação subjetiva com o conhecimento; mas não muda o próprio conhecimento, nem seus limites objetivos.
Perder a fé não muda em nada o conhecimento. As ciências continuam sendo as mesmas, com os mesmos limites. Nossos cientistas sabem disso muito bem. Eles crerem ou não em Deus pode modificar o modo como vivem sua profissão (seu estado de espírito, sua motivação, o sentido último, para eles, da sua pesquisa); mas não podem mudar os resultados do seu trabalho, nem o estatuto teórico desse, nem portanto a profissão do cientista como tal (senão, ele deixaria de ser cientista). Pode mudar sua relação subjetiva com o conhecimento; mas não muda o próprio conhecimento, nem seus limites objetivos.
12 de maio de 2013
Helvétius, Pedagogo e Utilitarista
por Breno Lucano
Helvétius presta culto ao interesse púbico: o despotismo existe quando triunfa o interesse pessoal do governante. Com frequência são encontradas em suas obras as formulações "ventura pública", "bem público", "felicidade geral", "salvação pública", "interesse público". Seu programa político não se esconde ao formular um utilitarismo hedonista cuja fórmula é: "a felicidade da maioria".
A perseguição de Do Espírito durante o regime político fez com que, em seu livro póstumo, escrevesse: "Minha pátria recebeu finalmente o jugo do despotismo". Em termos marxistas, Helvétius percebe o que se chama luta de classes e a pauperização do povo por meio do despotismo. E o que é despotismo? A resposta não poderia ser outra senão toda prática que abole a distinção entre justo e injusto, o regime que proíbe a liberdade de palavra, de expressão, de publicação, o governo que controla a produção, difusão e circulação das idéias. Definições não muito longe do que encontramos hoje.
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