Filósofo Libertino

Johnny Deep no filme O Libertino
por Breno Lucano

A filosofia Iluminista não é apenas apolíneo, também é dionísico, e ambas as forças se complementam. Claro, do lado de Apolo, entramos na ordem, a luz, a sobriedade, a calma, a medida, a epopéia dramática, a simplicidade, a transparência, a dialética, o numérico, mas também simultaneamente, com Dionísio, notamos também a música e a embriaguez, o canto e a dança, a vida exultante, o ardor, as forças misteriosas, o júbilo, a natureza. Voltaire põe Apolo num pedestal, mas, assim fazendo, esquece a existência de outra metade do mundo. O libertino evoluiu nesse teatro das forças, o filósofo libertino ao lado dele.

O termo libertino existe, mas desde sempre serve para quase tudo. É algo semelhante ao termo estóico e cínico, cuja precisão terminológica resiste apenas nos manuais de filosofia. Inicialmente, o termo libertino desacredita e desqualifica um homem e um pensamento: o libertino denomina de outro modo o ateísta, como se dizia na época, o reformado, o heterodoxo, o herético, o homem livre, ou qualquer outro personagem que não crê no Deus dos cristãos com o fervor e a abnegação mental exigidos pela Igreja Católica. A etimonologia confirma: o libertino - o libertinus dos romanos - define o emancipado.

Diógenes e Crítica Social

Diógenes
por Breno Lucano

A tradição possui muito a falar na filosofia, principalmente quando o assunto tratado é a antiguidade. É o que ocorre com o cinismo. Segundo os relatos doxográficos, o objetivo de Diógenes era demonstrar pelo seu próprio exemplo a superioridade da natureza em relação ao costume. Dessa forma ele passou toda a sua vida tentando questionando os valores falsos da cultura dominante: a terminologia correta em termos de Diógenes é desfiguração, recordando a recomendação que o oráculo de Apolo deu ao filósofo em Delfos. Em todas as áreas da atividade humana, essa desfiguração levou os cínicos a adotar posições escandalosas.

Tornando um exemplo da política: os cínicos apareceram numa época em que, embora a pólis tradicional estivesse começando a ser abalada em suas funções pelas conquistas do jovem Alexandre, muitos ainda não estavam prontos para abandonar seus papéis tradicionais na vida civil e política. E, no entanto, Diógenes pregava o cosmopolitismo, declarando-se "sem cidade" (a-polis), "sem causa" (a-oikos) e "cidadão do universo" (kosmopolites). Diógenes insistia em todos seus relatos para que as pessoas se abstivessem de todo engajamento político que, como obrigações familiares e sociais, pudessem constituir um obstáculo à liberdade individual.

Marco Aurélio e a Corrupção Política

Marco Aurélio, Museu do Louvre
por Breno Lucano

Há alguns anos surgiu no Brasil intensa onda de retaliação à corrupção política que desembocou em diversos movimentos  sociais direitistas, como Movimento Brasil Livre e Escola Sem Partido. Cansados da antigo panorama presente no espectro político vigente, pretende-se que que possa fazer política sem associações partidárias; ou melhor, que a existência de partidos torna a defesa dos interesses do país um obstáculo. Ou seja, para que se possa debelar a corrupção deve-se, em última análise, igualmente anular o poder dos partidos, torná-los inexistentes.

O evento corrupção, contudo, não é exclusivo do Brasil. Temos visto em jornais eventos semelhantes na Coréia do Sul, China e EUA. Variados autores, especialmente na sociologia, abordam o assunto. Mas e o que Marco Aurélio, o imperador-filósofo, teria a dizer?

O Que São Direitos Humanos?

por Breno Lucano

O tema não é novo. O não entendimento do conceito de direitos humanos também não. Por que a todo momento encontramos em vídeos diversos já publicados idéias errôneas sobre o tema, muitos dos quais viralizando em razão da popularidade de políticos e até mesmo de persona non grata que vinculam sua própria imagem à uma causa, como a recusa dos direitos humanos.

Dizem que direitos humanos são uma proteção que o Estado concede a vagabundos e marginais. É o mesmo que dizer que os que os que assaltam ou cometem outro delito criminal qualquer terão "vida boa" - seja lá o que isso signifique! - na cadeia. Ou ainda, que pedófilos devem ter execução sumária. A confusão é tanta que até os os que sofrem de disfunção sexual denominada pedofilia, devidamente classificada no Código Internacional de Doenças (CID 10) como F65.4, seriam mortos, mesmo se nunca tivessem cometido abuso sexual. O simples fato de ser classificado com esse CID já lhe daria argumentos para a execução...

Trasilo

Século IV a.C. Cínico que viveu na época de Antígono Monoftalmo. Plutarco (Regum et Imperatorum Apophthegmata, Antinogonus 15.182e; cf. De Vitioso Pudore 7.351f, em que ele menciona um cínico, sem citar o nome) e Sêneca (De Beneficiis 2.17.1) relatam uma história que reúneo sucessor de Alexandre, Antígono Monoftalmo, e o cínico Trasilo. Trasilo pede ao rei uma dracma e recebe a resposta de que a quantia é indigna de um rei; diante disso, ele pede um talento e ouve, então, que a quantia é indigna de um cínico.


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Robert Owen e o Casamento

por Breno Lucano

Robert Owen, socialista utópico, reformador político, mas igualmente reformador erótico. Isso porque coloca o casamento como pilar de suas críticas sociais. Bem antes de Freud, Owen inter-relaciona a moral castradora e a genealogia do deplorável.

Em matéria de sexo, o êthos obriga à renúncia, celebra o ideal da castidade, inclusive no casamento: deve-se evitar o sexo e, caso não seja possível, tentar não obter prazer com ele. E tão logo ele seja sentido, temos as retaliações religiosas de pecado, erro, culpa.

Já em 1835 Owen faz conferências sobre um casamento pouco ortodoxo, todas publicadas em Lectures on the mariages of the Priesthood of the Old Immoral World. Reflete que o casamento induz à trapaça para com o outro à medida em que se nega a dizer o quanto se está insatisfeito e enfadado com a presença do outro. Assim, leva a renunciar a si mesmo, ao desejo, ao prazer, à alegria, ao júbilo, à sexualidade plena. O resultado? Indiferença, insatisfação que conduz aos vícios e desprezo pela vida que se tem. Além disso, gera a infelicidade dos filhos que são submetidos ao espetáculo desolador de um casal que se mantém junto apenas pela legalidade e, por vezes, ativa entre o marido e a mulher um desejo de dominação, portanto de esmagar o outro.