Justiça em La Mettrie

Por Breno Lucano

Dentre as questões que envolvem La Mettrie, uma chama chama especial atenção: as relações entre determinismo e moral. Se os acontecimentos são geridos por genuína articulação da matéria, de tal modo que o que ocorre no homem é fruto do modo como o corpo se conforma - bem ao modo como vemos no século XXI -, e se ninguém é responsável pelo Bem e pelo Mal, então como devemos agir?

Respondendo essa questão, La Mettrie se coloca além do Bem e do Mal, não se rebelando em nome da moral moralizadora, já que recusa o juízo de valor, indo em direção a um gênero de piedade pós-cristã. Um delinquente não é um carrasco e sim uma vítima. Tal como um ser vítima de homicídio, o matador não é responsável ou culpado: são somente movimentos da natureza, determinações da matéria.

Nazismo, Esquerda ou Direita?

Entrada de Auschwitz
por Breno Lucano

Nas discussões políticas atuais, tingidas pela polarização entre esquerda e direita no espectro, temos acusações mútuas. Não negamos que o Khmer Vermelho fez milhões de vítimas, mas também não podemos negar que o nazismo foi de extrema direita.

Essa conversa ocorreu no Brasil porque a direita no Brasil é essencialmente desescolarizada. A tese do nazismo de esquerda foi inventada pela direita porque, é claro, ninguém quer carregar nas costas que o nazismo foi o perdedor da guerra e responsável pelo holocausto. Ninguém quer Hitler para ele, o mal do mundo.

Religião e Moral

por Breno Lucano

Em termos genéricos, podemos entender religião a fé ou crença na existência de potências sobrenaturais com os quais o homem estabelece relações. Do ponto de vista das relações entre homem e divindade, a religião se caracteriza pelo sentimento de dependência do homem à Deus e pela garantia de salvação da alma ante aos males terrenos.

A salvação num além proposto pela religião indica, como premissa, o reconhecimento da própria religião de que existem males terrenos, ou, em outras palavras, na existência de uma limitação ao pleno desenvolvimento humano. O indicativo de que esse desenvolvimento será concluso em outra vida, de certa forma, demonstra que a religião não se resigna com os males deste mundo e lhes dá uma solução, ainda que no mundo ultraterreno. Em contrapartida, quando se perde de vista que inclui um protesto contra o mundo real, a religião logo se transforma num instrumento de conformismo, resignação ou conservadorismo. Assim, a luta por um mundo melhor cede espaço para a espera passiva de tudo será melhor no além. Essa é a função que a religião desempenhou historicamente durante séculos, colocando-se, como ideologia, a serviço da classe dominante. Mas não foi assim em suas origens, quando a religião cristã nasceu como religião dos oprimidos em Roma.

Sobre o Aborto

por Breno Lucano

"A confusão entre vida e qualidade
 de vida constitui um dos maiores
 embates da bioética."



Um dos maiores dilemas que circundam a sociedade industrializada ocidental envolve o aborto. Afinal, será o direito ao aborto moralmente legitimado?

Em primeiro lugar, devemos nos perguntar para quem ele não é bom? Para o feto, ou para os pais? Isto posto, geralmente alegam-se alguns pontos: o aborto consiste no assassinato de um ser humano inocente e, sendo moralmente errado o homicídio, o aborto se torna um erro. Por outro lado, à favor do aborto, alguns se apóiam que, não sendo o feto ainda um homem senão em potência a se desenvolver, não haverá dano em sua eliminação.

A potência constitui o núcleo argumentativo dos que desaprovam o aborto. O feto se tornará num futuro possível um ser humano como nós, consciente, plenamente desenvolvido social e psiquicamente. O aborto indicaria, nesse sentido, a impossibilidade de qualquer forma de vida futura, como a de qualquer um. Pensa-se que o feto terá uma boa vida pela frente, com experiencias promissoras, passando pelos mesmos revezes e as mesmas felicidades que circundam a aventura humana. E, à medida em que a gestante opta pela interrupção da gestação, impede esse feto de potencialmente se desenvolver e ser feliz.

Análise do Discurso de Posse de Bolsonaro

por Breno Lucano

O discurso de posse de Bolsonaro serve como elemento de análise de uma ideologia bem estrita. Ele se desdobra numa série de outros discursos à direita, cada vez mais estritos em alguns aspectos e, por outros, amplos.

Vale lembrar que ideologia não é um sistema de doutrina fechado, mas como uma meia verdade; ou ainda, como uma falsa consciência à respeito de algo. Está sempre sintonizado com certo público e funciona quando quem emite está no poder.

Vejamos o texto.

"Esse momento não tem preço. Servir a pátria como chefe do executivo só está sendo possível porque Deus preservou minha vida e vocês acreditaram em mim". 

Uma Noite de Crime e Filosofia

por Breno Lucano

Criado por James DeMonaco em 2013, a franquia Uma Noite de Crime chega em seu apogeu com a quarta e última continuação: A Primeira Noite de Crime. A franquia abre lacunas reflexivas na política e na ética com sua tese central. Imagine que uma vez por ano, por doze horas, todo crime será permitido, inclusive homicídio. Não haverá policiamento, nem risco de prisão. Tudo o que a vontade e o desejo quiserem será permitido, tendo a imaginação como único limite.

No decorrer da franquia os filmes ganham cada vez mais teor político, com a disputa de grupos rivais no Congresso Americano lutando pela sanção das doze horas, chamada de Noite do Expurgo. O Expurgo se configura como aquele momento único em que o instinto pode ser aflorado, a raiva vai à toma, toda sua frustração pode ser expurgada, suas vontades - antes contidas - agora podem se voltar contra seus desafetos. E o Expurgo é um bem social porquanto reduz a criminalidade, elimina da sociedade elementos que seriam um entrave para si mesma, indivíduos que dependeriam do Estado passam a não depender mais.