Gladiador e Filosofia

por Breno Lucano

Gladiador foi, seguramente, um dos filmes que mais marcou minhas reflexões filosóficas e que me influenciou desde o início, impelindo-me para a investigação dos meandros estóicos e, de modo muito particular, ao universo de Marco Aurélio. Isso fez com que, em 2005, criasse o Portal Veritas como forma de publicar textos à respeito do Imperador e de seu pensamento, algo que preservo ainda hoje à partir da coluna com seu nome.

Escrevi já bastante coisa sobre Marco Aurélio, onde destaco os textos Marcus Aurelius, Homem, Filósofo e Guerreiro e As Meditações de Marcus Aurelius. Mas o filme nos confere já algumas reflexões, apesar de suas limitações. A grandiosidade da produção é um show à parte, que garante um bom entretenimento.



O filme apresenta erros históricos, como é fácil constatar em meu primeiro texto. Destaco o pequeno Lúcio Vero, filho de Lucila, neto de Marco Aurélio. Na verdade, Vero foi irmão adotivo de Marco Aurélio, morto no ano de 169 e, portanto, 11 antes antes da história narrada em Gladiador. Marco morre possivelmente de causas naturais no ano de 180 da Era Comum e, nesse ano, Cômodo já havia assumido o título de Imperador há três anos, configurando, assim, a segunda vez em que Roma era governada por dois imperadores simultaneamente - a primeira vez foi quando Marco dividiu o trono com Lúcio Vero.

Outro dado importante é que sei irmão Vero se casou com sua filha Lucilla, de modo que ela se tornou também Imperatriz. Com a morte de Vero, Marco casou Lucilla com um de seus maiores generais, Pompeano e pouco se houve falar dela mais tarde. Apenas é sabido que se envolveu na conspiração para assassinar Cômodo no início dos anos de 190 e foi, por isso, condenada à morte pelo irmão.

Cômodo, à seu turno, nunca foi o preterido a assumir o trono, e isso parece evidente no filme, embora o personagem de Máximo seja fictício. Marco Aurélio teve ao todo 13 filhos - ele não brincava em serviço!!! E, seguindo a tradição da época, em que uma criança deveria ser educada para assumir o trono, Marco escolhe seu filho Marco Anio Vero como seu sucessor natural, e lhe confere o título de César em 166. O que ele não contava era que Anio Vero morreria ainda criança de causas naturais, com 7 anos.

Busto de Marco A. Vero de Mármore
encontrada na Argélia
Esculpida em 170
Ao que parece, Cômodo foi de fato o escolhido para suceder seu irmão Anio Vero no trono. Alguns historiadores apontam alguns traços de doenças psiquiátricas em seu comportamento, algo fácil de se verificar se levarmos em consideração apenas o que o filme Gladiador mostra, fora todas as outras coisas não narradas na película. Possuía realmente grande fascinação por lutas de gladiadores, de modo que num de seus bustos mais famosos ele é representado como Hércules, com tacape e roupa de gladiador. As lutas nos estádios eram populares, algo talvez como UFC atualmente, e Cômodo viveu essa influência.

A esposa de Marco Aurélio, a Imperatriz Faustina, a Jovem, não é citada na película, como ocorre no filme Declínio e Queda do Império Romano. Faustina era, na verdade, filha do Imperador Antonino, pai adotivo de Marco e ela, Faustina, sua própria prima. Envolvida em inúmeros escândalos de adultério, inclusive com um de seus maiores generais, Avídio Cássio, estando ambos envolvidos na conspiração de 175 que pretendia tirar Marco do trono.

Marco Aurélio é narrado como o último dos Cinco Bons Imperadores, o fim de um ciclo de grandiosidade e prosperidade que se inicia com o Imperador Nerva, alcança o general e Imperador Trajano, encontra seu maior esplendor com o Imperador Adriano, é sucedido pelo pacifista Imperador Antonino e finda com Marco. Constantemente narrado como um exemplo de estadista, conseguindo fazer algo que Sêneca nunca conseguiu - conciliar a vida pública com a vida de filósofo.

Embora o Marco Aurélio de Richard Harris sirva apenas de argumento para o filme, já que o verdadeiro protagonista é Máximo, algo lhe é preservado, pelo menos se considerarmos suas Meditações e o que nos chegou através dos relatos antigos. Seu diálogo com Máximo, após a guerra, na cabana em Vindobona (atual Viena) evidencia traços importantes. Nele percebemos realmente um guerreiro, como de fato foi - o reinado de Marco durou 19 anos, quase todo consumido com guerras. Mas o personagem de Harris não se orgulhava da guerra e chegava mesmo a desdenhar do progresso que alcançaram. O trono era para ele um fardo, duro demais para sustentar, com vários perigos, onde ele era obrigado a fazer coisas com as quais não concordava o tempo todo.

Os diálogos entre Marco Aurélio e Cômodo devem igualmente serem lembrados, como:

"A ambição pode ser uma virtude, quando nos motiva a vencer".

A lista das virtudes enumeradas pelo personagem Marco não citavam as características de Cômodo. Este, por sua vez, apontava-lhe a ambição, um fator sui generis que pode motivar o homem. Mas o rigor estóico de Marco não fazia sentido a Cômodo, que o abandona completamente quando assume sozinho o trono. Mas Marco se sentia culpado pelo comportamento do filho:

"Suas falhas como filho são as minhas falhas como pai."

Marco Aurélio por Richard Harris
O Marco histórico aponta Cômodo como seu sucessor e faz vista grossa para o comportamento do filho. Mas o Marco personagem não o aponta como sucessor, e escolhe naturalmente Máximo, que fica relutante. Máximo, na verdade, não queria ser um Augusto. Sua única vontade era voltar para sua fazenda, estar com sua esposa e filho e levar vida de homem simples do campo.

Após o assassinato de Marco Aurélio, Máximo assume o papel do filósofo estóico do início ao fim do filme, apesar de afirmar que quer se vingar de Cômodo pelo assassinato de sua família. Se levarmos em consideração os estudiosos do estoicismo segundo a qual o sábio estóico nunca existiu e que temos apenas pessoas em processo que tentam exercer a ascese estóica da indiferença, então Máximo foi um estóico perfeito, tal como Catão de Útica e Helvídio Prisco. As frases à seguir demonstram bem isso:

"Às vezes não acha difícil cumprir seu dever?"

"Às vezes faço o que quero fazer. Na maioria das vezes faço o que tenho que fazer."

O dever estóico foi uma dificuldade para Máximo, talvez por ser ainda mais rigoroso que o dever kantiano. Ele coloca a obrigação acima da própria vida, de modo que em momento algum Máximo tinha medo de morrer. Para ele, a única coisa realmente importante, era matar Cômodo e devolver o poder ao Senado - lembrando que Marco sempre teve uma articulação muito firme com o Senado. Não se tratava dele matar Cômodo para assumir o trono. Havia, por outro lado, um interesse pelo bem comum, um zelo pelo Estado.

"Conheci um homem que disse uma vez que a morte sorri para todos nós. Tudo o que podemos fazer é sorrir de volta."

Talvez a maior característica de Máximo, fora seu imperativo categórico, seja o destemor da morte, tipicamente estóica. A morte não era vista como um mal; era, antes, um indiferente. É como se alguém chegasse e dissesse "você vai morrer"; você olha e diz "ah, tudo bem"; isso porque viver ou morrer não tem importância. Não era isso que estabelecia o limiar existencial, seu verdadeiro lugar no mundo, conferia respostas para as perguntas mais essenciais da vida, como quem sou eu e o que eu tenho que fazer. A morte existe, mas como algo natural, que virá mais cedo ou mais tarde. Mas a ação, sim, era a única coisa que realmente importava.

Gladiador é um daqueles filmes que não se deve perder. O identifico até como um daqueles filmes que podem até passar despercebidos quando se prende-se apenas ao espetáculo hollywoodiano, à grandiosidade da produção, da luta com as feras e os lutadores. Mas o interessante nesse filme são seus diálogos e suas lacunas, que não devem ser despercebidas. Vale, ao meu ver, até numa boa aula de ética.


Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.