Os Fugitivos, de Luciano de Samosata

A sorte do cinismo na era imperial não se deve às reelaborações doutrinais nem nas inovações literárias, mas a uma fortíssima atração exercida pela vida cínica, a kynikós bios. A prática da vida cínica, na era imperial, tornou-se um verdadeiro fenômeno de massa, que interessou amplamente aos estratos sociais mais pobres, que acreditaram encontrar na kynikós bios um meio de evadir-se da sua condição infeliz, um meio de libertação. Pode-se seguramente afirmar que nem de longe qualquer uma das filosofias da antiguidade teve uma difusão entre as classes populares comparável à filosofia cínica.

As fontes indicam que muitos confundiam o espírito da vida cínica com suas manifestações exteriores, e consideravam que bastava vestir a divisa cínica - o mantelo, o bornal e o bastão - e andar vagabundiando de país em país como verdadeiros mendicantes, repetindo poucas, rudes e desgastadas fórmulas de Diógenes, para serem autênticos cínicos.


A mais eficaz descrição desse fenômeno é descrito por Luciano, no texto Os Fugitivos. Vejamos a passagem mais significativa:



"Zeus - Ainda não me disseste, ó Filosofia, as ofensas que sofreste, mas apenas te lamentaste.

A Filosofia - Ouve, ó Zeus, quais são. Uma raça de vagabundos, na maioria servos e mercadores, que não viveram comigo desde crianças por causa das suas ocupações; porque ou serviam, e trabalhavam à mercê, ou exerciam outras artes que costumam exercer, como a do sapateiro, a do fabricante, ou a de limpar, ou a de desfiar a lã para torná-la mais manejável às mulheres e mais fáceis de fiar e de esticar, quando puxam a trama sobre o tear, ou fiam o linho, aplicados a essas coisas desde crinaças, nem sequer conheciam o meu nome. Mas depois de se tornarem homens, e verem o respeito que todos têm pelos meus amigos, e como as pessoas são expostas ao franco falar, e como se comprazem de serem reguladas por eles, e obedecem aos seus conselhos, e se advertidas, se submetem, pensaram que isso era o mesmo que mandar como reis. Aprender o que convém para ter tanta autoridade, era coisa muito longa para eles, antes impossível: escassas as artes, com fadiga apenas conseguiram o necessário; para alguns ainda a servidão parecia grave e, como é verdadeiramente, insuportável. Pensando e repensando resolveram lançar a última âncora, chamada sacra pelos marinheiros; e t endo-se fixado sobre a desonestidade, ajudando-se, ademais, com a audácia, a ignorância e a impudência, que adquirem com trapaças, e tendo estudado certas novas injúrias para tê-las sempre na ponta da língua, com essas únicas provisões - e nota, provisões para a filosofia! -, tomam hábito e aspecto grave, semelhante ao meu, justamente como Esopo diz ter feito o asno de Cuma, o qual cobrindo-se com pele de leão, bravamente acreditou ter-se transformado em leão: e certos tolos acrditaram nele. É muito fácil e ágil, como sabes, imitar-nos, externamente digo; e não é preciso muito para pôr um mantelo sobre os ombros, pendurar um bornal a tiracolo, ter um cajado na mão, e gritar, antes, relinchar e ladrar, e injuriar a todos. O respeito que se tem pelo hábito lhes dá a segurança de não sofrer nada por isso: e a liberdade é bela e segura, e o senhor que quiser prendê-los, será golpeado com o bastão; o alimento, não mais escasso como antes era uma fogaça magra; o que acompanha o pão, não mais salame ou alho, mas pedaços de carne de todo tipo; vinho viníssimo, e dinheiro em abundância. Vão, pois, recolhendo um tributo, ou como dizem, tosam as ovelhas; e muitos dão ou por respeito ao hábito, ou para não ouvir falar mal de si. E talvez eles tenham compreendido ainda outra coisa, que se misturam num feixe com os verdadeiros filósofos; e que ninguém pode julgar e discernir o de dentro se o de fora é semelhante. Não admitem nenhuma discurssão, mesmo que alguém a peça de maneira polida e breve; mas logo gritam, e recorrem às baixezas, que é o seu forte, e pegam o bastão. Se bascas os fatos, encontras muitas palavras: se queres julgá-los pelas palvras, dizem-te para olhar para a sua vida. De fato que toda a cidade está repleta de tais canalhas, especialmente dos que se dizem seguidores de Diógenes, de Antístenes e de Crates, sob a insígnia do Cão; os quais não extraem as boas qualidades do cão, a vigilância, a guarda da casa, a fidelidade ao dono, a memória, mas afadigam-se em imitar o latido, a gula, a voracidade, a licenciosidade contínua, e a adlação, e o balançar a cauda quando alguém lhe dá algo, e o ficar junto às mesas. Ora, verás logo o que acontecerá. Que todos deixarão as lojas e abandonarão as artes quando virem que se afadigam e se cansam do nascer ao por-do-sol, curvados sob o trabalho, e conseguem apenas o suficiente para sobreviver, e esses ociosos e impostores deleitam-se entre todos os bens, exigem como se fosse coisas deles, recebem prontamente, irritam-se se não se lhes dá, e nem sequer agradecem quando recebem. Isso lhes parece uma vida no século de ouro, e verdadeiramente o mel cai do céu na sua boca. E, contudo, seria menor mal se essa rça não nos fizesse nenhuma outra injúria. Essas figuras graves e severas externamente e em público, se encontram um moço bonito ou uma bel amulher, e os esperam. Óh, não se poderia dize o que fazem. Alguns, depois de terem desonrado a mulher dos seus anfitriões, as levam embora, como o jovem troiano, mas nota, paqra torná-las filósofas; e depois a dividem com todos os outros companheiros, acreditando praticar uma doutrina de Platão, sem entender em que sentido aquele divino homem queria que as mulheres fossem comuns. Depois, sobre as sujeiras que fazem nos banquetes, as bebedeiras que tomam, haveria muito a dizer. E enquanto fazem essas coisas, quem acredita? Condenam a bebedeira, o adultério, a lassidão, a evareza! Não há nada mais contraditório do que as suas palavras com os seus feitos. Assim dizem desprezar a adulação, e em matéria de adulação superam a Gnatão e Estrúcia; recomendam aos outros dizer a verdade, e não podem mover a língua sem dizer uma mentira: o prazer é o inimigo de todos nas palavras, e Epicuro é o grande adversário, mas nos fatos não buscam outra coisa senão o prazer. Irascíveis, fofoqueiros, mais coléricos que as crianças, fazem verdaeiramente rir ao vê-los por uma pequena razão se transformar, empalidecer, olhar furiosamente ao redor, com a boca cheia de espuma, antes de veneno. Isso quando não sai aquela torrente de palavras: Nem ouro nem prata, por Hércules, preocupo-me em ter; um óbolo me basta para comprar tremoços; uma fonte ou um riacho me dará de beber. E logo depois pedem não um óbolo, nem poucas dracmas, mas fortunas inteiras. Que mercador se enriquece tanto com o seu comércio, quando estes ganham com a filosofia? E depois de terem recolhdio suficientemente e de terem engordado, lançado fora o pobre mantelo, compram campos, e vestes finas, e jovens de boa aparência, e inteiras oficinas, lançam uma blasfêmia ao bornal de Crates, ao mantelo de Antístenes e ao tonel de Diógenes. O vulgo que vê isso despreza a filosofia, crê que odos são da mesma laia, e acusam a mim, que dou bons preceitos. Por isso tem-me sido impossível há muito tempo atrair alguém a mim, e me acontece como a Penélope, que tudo o que teci, num momento se desfaz: e a Ignorância e a Injustiça riem de mim, vendo que faço uma obra que nunca se realiza, e uma fadiga inútil. "



LUCIANO, Os Fugitivos, 12-21.

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Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.