Fourier e a Nova Sociedade

por Breno Lucano

Sobre Charles Fourier, Deleuze afirma em O Que é a Filosofia: um criador de conceitos e personagens conceituais. De fato, devemos entender que Deleuze tinha razão ao encontrar tais personagens nos doze volumes escritos por Fourier, intitulados Teoria dos Quatro Movimentos e dos Destinos Gerais (1808), Teoria da Unidade Universal (entre 1822 e 1841), O Novo Mundo Industrial e Societário (1829), O Novo Mundo Amoroso (1835). Facilmente encontramos palavras forjadas pelo autor e incompreensíveis caso não nos atenhamos nas definições dadas por ele mesmo. Dentre tantas, a mais famosa é falanstério, que encerra seu núcleo discursivo.



Apesar da matematização do trabalho de um Fourier obcecado por construções numéricas, proporcionais e geométricas presentes em toda sua obra, o autor demonstra preocupação com Deus em sua cosmologia. . Sua teodiceia pretende dar consentimento e adesão àquilo que a Natureza, portanto Deus, nos ensina, para chegarmos à felicidade pessoal e coletiva. Pois de Deus derivam as paixões, desejos e pulsões. Sua afirmação em Deus é preenchida por elogios aos Evangelhos, especialmente em O Novo Mundo Industrial e Societário. Essa obra estabelece o fim da miséria, da pobreza, da escravidão, da exploração, o desaparecimento da angústia e do temor e a abolição da negatividade. Essa mesma obra, Fourier principia sua análise política e entende que o Capitalismo gera pauperização e miséria e afirma que o liberalismo enquanto livre concorrência desenfreada configura o modo mais perverso que pode existir de produção.

Fourier estabelece uma correção entre riqueza dos ricos e a pobreza dos pobres. A fortuna de uns pressupõe a pobreza de outros, o dinheiro abundante aqui  explica o dinheiro que falta ali. O liberal se recusa a examinar a possibilidade de relação de causalidade entre essas duas situações. A cabana de chão dos camponeses, seus catres de folhas apodrecidas, infestadas de parasitas, pressupõe os palácios de ouro e brocados, os objetos de luxo e os móveis refinados dos burgueses endinheirados da Revolução Francesa.

O socialista afirma ainda em O Novo Mundo Industrial e Societário sua aproximação do utilitarismo:

"Só vi um escritor civilizado que se aproximou um pouco da definição de verdadeira felicidade: é Bentham, que exige realidades, e não ilusões."

Essa aproximação do utilitarismo revela que apenas é verdadeiro, justo e bom o que for  útil para a realização de um projeto harmônico entre os indivíduos. Se existem santos e heróis dessa sociedade, chamada Harmonia, como de fato existem, são as mulheres e homens que, por meio da recusa da austeridade corpórea e do ideal ascético apregoado pelas religiões, são capazes de configurar um novo paradigma existencial. Isso porque Fourier se posiciona criticamente contra os padrões de moralidade de sua época, os vendo como ridículo e totalitário. O filósofo quer santos úteis, santificados aqui e agora em virtude de suas proezas amorosas.

Em sua erótica, Fourier entende que toda paixão é boa, nenhuma é viciosa em si. A expressividade das paixões é que as tornam perigosas. Assim, uma ação, por pior que seja, por mais maledicente que seja, apenas a é em função de seus atos impulsivos, nunca em face da própria paixão que apenas existe por permissão de Deus. Os vícios existem por má utilização das paixões, que devem ser utilizadas em benefício de todos, como um verdadeiro utilitarista, conforme o plano de Harmonia.

Assim, ferocidade, orgulho, espírito de conquista, furto, gosto por sangue, hipocrisia, não são ruins em si, mas apenas relativamente ao seu uso. Nos planos de Deus cada uma dessas coisas foi criada para um plano harmônico onde cada qual possui uma mecânica própria. Afirma o autor:

"A partir do momento em que queremos reprimir uma única paixão, cometemos um ato de insurreição e hostilidade contra Deus."

Geograficamente, essa sociedade é encontrada nos famosos Falanstérios. Longe das fábricas do século XIX, as crianças devem ocupar seu tempo com a educação, enquanto seus pais com o trabalho. Mas o trabalho possui status diverso, configuração própria de um perfil harmônico. Em sociedade, o trabalho é um fado; nos falanstérios ele é regado à prazer. Repetição? Nunca. Tédio? De jeito nenhum. Sofrimento? Desconhecido. O que se encontra é a variedade, a alegria, o entusiasmo.

O Falanstério acolhe todos os ofícios, e cada pessoa pode exercer algum pelo menos durante uma quarentena. Afim de propor mais alegria nos afazeres, todos fazem tudo, não há qualquer atividade que seja rotineira. O que hoje está na jardinagem, amanhã pode plantar, depois colher. Mas também pode ensinar, pintar ou cozinhar. O homem deve ser, para sua felicidade,aberto às possibilidades de suas paixões e seus talentos.

O utilitarismo de Fourier foi encontrado nas teorias freudianas. Encontramos ecos dele nas paixões como genealogia das neuroses, no poder da libido na constituição de uma identidade, a multiplicidade da afetividade. Continua atual o entendimento de que não há paixão ruins, mas mau uso das paixões.

A miséria, a infelicidade, a frustração e a pobreza, aqui e agora, na civilização, produzem mais misérias, infelicidades e frustrações. Como saída desse ciclo, Fourier entende que apenas a criação de uma sociedade harmônica seria eficiente. E, principalmente, harmônica para todos!

Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.