Cracolândia e Paraísos Artificiais

Moradores da Cracolândia fizeram barricada
para impedir entrada da Guarda Civil Municipal
na região
(Foto: TV Globo/Reprodução)
por Breno Lucano

Há algumas semanas saiu nos jornais uma matéria de grande repercussão nacional: a cracolândia que se formou em São Paulo e que mobilizou ação da prefeitura para o acolhimento dos usuários de drogas (veja a matéria clicando aqui). Embora o assunto não seja novo e cracolândias e uso de drogas exista de forma disseminada nas grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, entre outras, logo nos perguntamos o que faz um indivíduo abandonar sua vida, principalmente quando socialmente estabilizada, e passar a viver nas ruas, mendigando alimento e drogas, passando fome, frio e toda sorte de infortúnios que a necessidade seja capaz de produzir. Mas como tratar a questão filosoficamente?

Tratei do assunto em meu TCC - Uso e Abuso de Drogas Pelo Jovem -, em 2002, quando me formei na UFRJ. Mas penso que o assunto não se esgota e merece nova atenção. Tema de reflexão antes, ele recorre hoje e será sempre motivo de novas abordagens, variando de autor em autor e de enfoque para enfoque. A problemática social, porém, permanece porque o sujeito será perene: o homem e a questão do desejo.



Os mais conservadores dirão que se trata de vagabundagem. Outros, dirão que é falta de Deus e que se trata da ação do demônio. Há quem diga que o núcleo do problema é a própria sociedade, com sua estrutura que propaga a exclusão por irrestrita divisão entre ricos e pobres, com zonas urbanas de alto desenvolvimento em contraste com zonas de abandono e precariedade e que apenas uma política pública que pretenda reduzir as desigualdades sociais seria capaz de reduzir o uso de drogas. Há ainda uma abordagem mais psicologizante, que pretende elaborar um homem mais necessitado de segurança e atenção. O entendimento varia do mais bruto senso comum à mais elaborada teoria psico-social.

A reflexão sobre o tema nunca foi fácil, principalmente porque envolve abordagem multi setorial. Em outras palavras, assistentes sociais, médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, segurança pública, advogados, todos juntos trabalham com determinado enfoque com o objetivo de traçar um delineamento do perfil do usuário e sanar suas necessidades, entender o motivo que o levou à aquele mundo e como trazê-lo de volta.

Recordo de meu antigo paciente A., que matou a avó quando sob efeito de cocaína e de como, ainda com conhecimentos superficiais de filosofia, eu tentava compreender o que tinha ocorrido. Na época, descrevi de que modo a Alegoria da Caverna de Platão poderia nos dar pistas de como entender o assassinato. Mas hoje penso que o Mito do Cocheiro, no diálogo Fedro, também seria útil. Nele, temos um cocheiro e dois cavalos. O primeiro representa a harmonia, a razão, o espírito apolíneo, nos dizeres de Nietzsche. O outro cavalo, a destemperança, a irracionalidade, o caminhar de um lado ao outro em loucura, ou ainda o espírito dionísico, segundo a voz de Nietzsche. O homem é o cocheiro, que tenta equilibrar as duas forças, as duas instâncias psíquicas, para o devido cavalgar em direção à sua realização, à sua ataraxía. Mas, em determinado momento, algo sai errado e o primeiro cavalo puxa mais que o segundo e o cocheiro-alma não é capaz de equilibrar as forças, produzindo eventos viciosos.

Na época também usei os estóicos, especificamente Sêneca e Marco Aurélio. Mas também poderia ter utilizado Crisipo ou Diógenes. Ou mesmo Epicuro ou Aristipo, talvez o mais apropriado. Decerto Aristipo não conheceu os paraísos artificiais das drogas sintéticas, mas elaborou teorias que poderiam ser utilizadas para compreender o uso de drogas. Embora parte considerável da obra aristipiana tenha se perdido e restado apenas o que é relatado por Diógenes Laércio, ainda assim há pistas que podem ser utilizadas. A diferença essencial entre ele e Epicuro consiste na dinâmica do prazer. Epicuro vê o prazer como algo estático, como um certo distanciamento daquilo que nós ocidentais chamamos hoje como prazer, como usufruir e ter sensações. Para Epicuro, o prazer se encontra longe desse movimento contínuo do fruir, e se concentra no contentar-se com um simples gole de água ou uma mordida num pão. O prazer epicurista é algo semelhante ao de um monge perdido num heremitério. Não é uma fuga do prazer como o entendemos modernamente, mas um prazer que se converte em felicidade pelo simples fato de estar desfrutando das coisas mais simples, uma compreensão de felicidade que se desdobra em precisar de poucas coisas para se concretizar. Para Epicuro, seria loucura necessitar de algo necessitar que o prazer estivesse em movimento para que o homem fosse feliz.

Por outro lado, Aristipo crê o prazer como doce fruir. O prazer não se satisfaz com um copo de água e um pão, mas, por que não, pensar num pão-doce ou num suco de frutas em substituição da água? Isso porque o prazer cirenaico se debruça nas sensações, nos odores, no tato. O prazer se torna sensual, não no sentido necessariamente sexual - embora isso faça parte -, mas no que tange às possibilidades sensitivas. A corporeidade aristipiana comanda a felicidade do espírito. Esse fruir, contudo, não se direciona à loucura e à perda de si. Essa perspectiva fica muito bem explícita na passagem de Diógenes Laércio (II: 75), quando o acusavam de manter relações sexuais com  uma cortesã de nome Laís:

"Possuo Laís, mas não sou possuído por ela; abster-nos de prazeres não é o melhor, e sim dominá-los e não sermos prejudicados por eles". 

Chegamos ao ponto: a falta de controle. Talvez o problema não seja tanto o uso das drogas, embora não despreze o fato de que uso de um crack ou de uma heroína seja capaz de desencadear reações químicas destrutivas ao sistema nervoso central. Mas o álcool de um vinho pode facilmente causar efeitos deletérios quando consumido de modo destemperado; ou o tabaco igualmente pode se converter num câncer ao longo de vinte anos de consumo. Não é disso que me refiro, mas à falta de controle, o "possuir Laís, sem ser possuído por ela".

De modo geral, o senso comum nos remete à idéia da dureza da vida dos estóicos, de sua racionalização sem limites que quase chega ao extremo de se afirmar que o sábio estóico é insensível e austero. Há meia verdade nisso. É verdadeira a sentença segundo o qual o sábio estóico se distancia de tudo que for capaz de abalar sua alma e, com isso, produzir infelicidade. Talvez Zenão não queira correr os riscos de Aristipo quanto ao prazer e entenda que é muito difícil controlá-lo. Ou ainda mais, que o prazer é uma artimanha capaz de corromper o correto existir da alma, o que eles chamam de Hegemoníaco. A meia verdade é que eles abriam exceções. Eles não repeliam os prazeres de um bom vinho ou de uma cama bem quentinha para se deitar. A ética estóica é contemplada por aquilo que eles chamam  em grego de Proegmena, os preferíveis. Apenas na ausência do que se chamava de ações preferíveis é que o sábio estóico se recusava a encarar a infelicidade como possibilidade. Assim, o sábio será feliz com um bom vinho; se ele faltar, ele será feliz da mesma forma. Igualmente, ele será feliz se puder deitar numa cama bem quentinha; mas se o infortúnio bater e ele não tiver a cama, ele será feliz da mesma forma. Aqui se insere o que eles chamam em grego de Adiáphora, os indiferentes. Ter ou não vinho, ter ou não cama, é indiferente para a felicidade. E porque é indiferente? Porque essas coisas não são capazes de tocar a alma. Apenas o que toca a alma de fato é capaz de produzir infelicidade, como o que a alma pensa e sente.

Ou seja, o vinho pode até produzir algum prazer, mas ele é temporário e, portanto, indiferente em si mesmo. A cocaína pode até produzir o paraíso artificial, mas logo a sensação se esvai e o furor se dissipa. A cocaína em si se encontra no campo dos indiferentes. Ela, em si, estritamente falando, não é capaz de produzir felicidade, assim como tudo o que começa e termina também não é. O devir é um obstáculo à felicidade e essa é uma história que será contada por Agostinho.

Ocorre que essa conversa sobre indiferente será narrada também por Diógenes, agora sim, com toda aquela dureza que antes era direcionada aos estóicos. Podemos descrever essa aspereza em grego como Áskesis, que é o exercício físico próprio dos cínicos. Físico porque a ataraxía passa necessariamente pelo corpo e sua forma de encarar o indiferente. Os estóicos baseavam sua ética nos indiferentes, mas apenas se os preferíveis não estivessem presentes, como o vinho, a cama ou qualquer outra coisa que o senso comum entenda felicidade e que provenha do mundo externo. Agora imagine que não haja essa história de preferíveis e que todas as coisas sejam de fato indiferentes. Não há porque procurar o vinho se ele é genuinamente indiferente para a felicidade. Não há porque procurar a cama bem quentinha já que ela também não é capaz de propor felicidade. Ocorre que essas coisas são bens apenas porque assim são socialmente convencionadas. Imagine que uma criancinha seja educada desde a tenra idade a acreditar que só será feliz se for casada, com filhos e com uma família. Ela realmente acreditará que o conto do príncipe encantado será o único real, o único que faz sentido, principalmente porque a sociedade é estruturada dessa forma. É natural se casar e ser feliz para sempre. Isso é um bem e, portanto, produz felicidade. A felicidade está intimamente associada com uma crença, ou, em outras palavras, com uma convenção. E é aqui que entra a famosa transfiguração da moeda de Diógenes.

Casar, ter um bom marido e uma família verdadeiramente feliz é o sonho de qualquer mulher. Mas o significado simbólico desse casar pode variar, algo que Aristipo já previa quando afirmava que as almas são diferentes, dando pistas de uma subjetividade que será desenvolvida posteriormente por Agostinho. Mas o que ocorre se o tão esperado casamento não ocorre? E se o filho morre? Ou se o marido, em overdose de cocaína, a espanca? Os sonhos realizados logo se tornam infelicidade. A transfiguração da moeda toca nesse ponto. Ou seja, entender como verdadeiramente indiferente tudo quanto for capaz de ser alterado por força do acaso e da sorte. De modo que, quando as dificuldades surjam, ele não se espanta mais. Ele não sofre mais. A dor é antecipada e racionalmente calculada como uma possibilidade real e previsível. Essa é a Áskesis, o exercício cínico, o sujeitar-se aos acontecimentos antes que eles surjam, o entender que as coisas podem dar errado, os sonhos podem acabar e que, nem por isso, há motivos para ser infeliz. A infelicidade ocorre quando você espera algo e esse algo não ocorre, mas você pode não esperar e simplesmente permitir o simples fluir da vida, onde quer que ela o leve. Ser indiferente ao casamento, mas também àquilo que se entende socialmente como felicidade, como um bom emprego ou status social; e, por que não, também aos paraísos artificiais.

Por meandros diversos, creio que haja sincronia no que Platão, os estóicos, Aristipo, Epicuro e Diógenes proferem. A questão talvez seja menos o abster-se e mais o saber não ser "possuído por Laís". Sou favorável à interpretação de Rachel Gazolla em Ofício do Filósofo Estóico de que o controle sobre o prazer seja o essencial nos estóicos. Eu apenas acrescentaria que essa é possivelmente a questão central de toda ética: o ser o agente racional capaz de se relacionar positivamente com o aspecto irracional da alma - o controlar ao invés de ser controlado -, de modo que o prazer realmente se torne prazeiroso, numa vida exitosa e feliz.

Apenas gostaria que aquele meu paciente, citado no início do artigo, soubesse dessas coisas.



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Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.