Estoicismo - Fontes Doxográficas

Por Émile Bréhier
Tradução de Miguel Duclós


Não temos senão um conhecimento indireto dos ensinamentos de Zenão e de Crisipo. Dos numerosos tratados de Zenão e dos setecentos e cinco de Crisipo não resta mais do que uma parte dos títulos, conservados por Diógenes Laércio, e alguns breves fragmentos.

As únicas obras estóicas que possuímos, as de Seneca, Epicteto e Marco Aurélio são da época imperial, quatro séculos depois da fundação do estoicismo. Buscando as características que o antigo estoicismo deixou nos seus próprios escritores ou em outros, se pode reconstituir seus ensinamentos, ainda que com grande dificuldade, porque nossas principais fontes são de época muito posterior. Umas procedem dos ecléticos, como Cícero, cujos escritos filosóficos são de meados do século I. a.C, ou como Fílon de Alexandria (início da nossa era); outras, de adversários, como Plutarco, que, no final do século I escreveu as obras Contra os Estóicos e Contradições dos Estóicos, ou o cético Sexto Empírico, do final do século II da nossa era, ou do médico Galeno, que na mesma época escreveu contra Crisipo; e finalmente os padres da Igreja, e em particular Orígenes, no século III.

Essas exposições, parciais ou adversárias, é tudo o que resta ao todo, se deixarmos de lado a principal fonte constituída pelo compêndio de lógica estóica que Diógenes Laércio no seu livro VII, retirou do Resumo de Filósofos de Diocles Magnésio, um cínico amigo de Meleagro de Gadara, que vivia no começo do primeiro século antes da nossa era. Salvo essa exceção, toda essa literatura nasceu de conflitos que existiram desde o século II d.C., entre o dogmatismo estóico e a Academia dos céticos. Assim, a principal fonte acerca da doutrina estóica do conhecimento está nos Acadêmicos de Cícero, que foi escrita expressamente para combatê-la. Este espírito polêmico desfavorecia uma exposição serena e exata, e Plutarco, principalmente, deturpa muitas vezes o pensamento dos estóicos para melhor colocá-los em contradição consigo mesmos. Ademais, estes escritos são de época tardias e, a menos que os autores destas doutrinas sejam designados pelos seus nomes, muitas vezes fica difícil fazer uma separação entre as opiniões dos estóicos antigos, os do século III a. C, e as opiniões dos estóicos médios, os do século II e I a.C.

Há também no desenvolvimento do Antigo Estoicismo divergências que diminuem a concordância geral. Não se deve, pois, disfarçar o caráter algo artificial de uma exposição panorâmica do estoicismo, já que é feita com tão poucos dados. Partindo da doutrina de Zenão, indicaremos aproximadamente o que seus sucessores Cleanto, ou Crisipo, modificaram nela.



Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.