Cícero

Cícero, 106 - 43 AC, orador; cônsul

O maior dos oradores romanos, político eloquente mas obstinado, Marco Túlio Cícero é a personalidade republicana mais intimamente conhecida, principalmente através de seus volumosos escritos, nos quais, entretanto, sua importância política é exagerada. Homem Novo (novus homo), conseguiu progredir politicamente na condição de advogado de sucesso nos julgamentos políticos, em especial por sua acusação contra Verres, em 70 AC, quando eclipsou a reputação jurídica de Q. Hortênsio. Seguiu uma linha moderadamente popular (popularis), ligando-se sobretudo à causa de seu herói, Pompeu. Como pretor, Cícero falou em favor dos poderes ilimitados concedidos a Pompeu pela Lex Manilia (Lei de Manílio), em 66 AC. Em 64, aproveitando-se das suspeitas levantadas contra Catilina para assegurar para si o cargo de cônsul em 63 AC, como um candidato seguro. Esse foi um momento crucial de sua carreira: tendo aberto caminho no exclusivista e exaltado grupo da nobreza (onde não foi recebido com muito entusiasmo), continuou a se identificar com os interesses dos nobres, combatendo o projeto radical de lei agrária proposto por Rulo, e assumido uma posição solidamente conservadora contra a postura revolucionária de Catilina. A perseguição incansável por parte de Cícero levou Catilina à rebelião declarada, suprimida com sucesso pelo próprio Cícero, que se fez passar pelo homem que salvara Roma e a instituição republicana de um violento golpe de Estado. Ao exagerar o significado e o objetivo da "conspiração", ele conseguiu aumentar a importância de seu próprio feito.



O temor provocado por Catilina suscitou uma momentânea solidariedade da alta aristocracia, detentora de grandes privilégios (senatoriais ou não), solidariedade cuja perpetuação se tornou o grande ideal político de Cícero (concordia ordinum). Mas ele não pôde evitar que os nobres extremados, liderados por Catão Uticense, precipitassem a formação do Primeiro Triunvirato, em 54 AC. Depois disso, Cícero foi impedido pelos dinastas militares de exercer a autoridade e a influência a que fazia jus por sua posição. Gabar-se constantemente por ter vencido os catilinários acabou sendo uma séria desvantagem e, em 58 AC, foi exilado por uma lei especial de Clódio, por ter executado cidadãos romanos sem julgamento. Foi chamado de volta em 57 AC, por iniciativa de Pompeu, de quem continuava admirador e a quem procurava associar à nobreza.

Depois de 56 AC, a independência política de Cícero foi contrariada de modo humilhante pelo Triunvirato, do qual ele acabou sendo um instrumento, ao ter de fazer a defesa de seus antigos inimigos. Uma lei de Pompeu, em 52 Ac, nomeou-o para um comando proconsular na Cilícia. Aí, tentou por em prática seus princípios teóricos de bom governo, conseguindo um sucesso um tanto ambíguo. Retornando a Roma em 49 AC, no início da guerra civil, Cícero conservou seu imperium como procônsul até o ano 47 AC, mas desempenhou um papel pequeno durante a guerra. Depois de Farsala (48 AC), recusou-se a continuar resistindo a César e aceitou seu perdão.

Cícero considerou bem-vindo o assassinato de César em 44 AC. Saindo então de uma prolongada obscuridade política, atacou as ambições autocráticas de Marco Antônio numa série de discursos históricos (as Filípicas) e procurou - no início, com sucesso - associar Otávio à causa republicano. Seu fracasso tornou-se evidente em 43 AC com a formação do Segundo Triunvirato: Cícero foi uma das primeiras e mais importantes personalidades a sofrerem banimento.


- OBRAS -

I. Poemas

Cícero foi muito mais do que um diletante em poesia. Em sua juventude, fez várias experiências com formas helênicas, e traduziu do grego o poema astronômico de Arato. Sobreviveram quarenta fragmentos e uma sequência de quatrocentas e oito linhas. Mais tarde, escreveu dois poemas épicos, cada um em três livros: Sobre Seu Consulado e Sobre Sua Própria Época. Do primeiro existem ainda fragmentos, mas do segundo não restou nada. Além disso, seus trabalhos filosóficos contêm numerosas traduções de tragédias e poemas épicos gregos. Os deslizes ocasionais de seus poemas épicos bombásticos e pouco inspirados tenderam a cegar os críticos para a fluencia e a habilidade técnica de suas composições, principalmente a versão de Arato.

II. Cartas

Estão reunidas em: Cartas a Ático (a coleção atual em dezesseis volumes - não a primeira - foi provavelmente coligida durante o reinado de Nero); Cartas a Seus Amigos (também em dezesseis volumes, incluem algumas cartas dirigidas a seu irmão Cícero); Cartas a Seu Irmão Quinto, em três livros; e dois livros da correspondência entre Cícero e Bruto (43 AC, incluindo oito cartas a Bruto). É provável que as três últimas coleções (e outras hoje perdidas) tenham sido publicadas por Tirão. Foi preservado um total de novecentas e trinta e uma cartas, na maior parte escritas pelo próprio Cícero. A maioria das cartas, embora não todas, foram escritas sem qualquer idéia de publicação, num estilo coloquial, alegre, vivo, cheio de alusões, abundantemente salpicado com citações em grego; elas nos apresentam um quadro valioso, excepcionalmente vivo, da história e da sociedade do período 61-43 AC (apenas umas poucas cartas são anteriores).

III. Discursos

Conservaram-se cinquente e oito deles, alguns incompletos; o mais antigo é de 81 AC. (Em Defesa de Quíncio), o último (Décima Quarta Filípica) foi apresentado em 21 de abril de 43 AC. Durante esse per´piodo, estilo e forma permaneceram relativamente constantes nos últimos trinta anos, depois que Cícero deixou de dar muita atenção à estrutura formal, abandonou as exuberâncias do estilo asiático de sua juventude e começou a discursar com a autoridade de sua posição pública.

As circunstâncias de seus discursos são muito variados: nem todos foram apresentados, alguns foram apenas escrittos (os cinco últimos Verrinas, o Em Defesa de Milão, o divino Segunda Filípica), e muitos foram alterados ao serem publicados. Alguns discursos foram compostos para o Senado (as Catilinárias e as Filípicas, numa época de grtande crise nacional), alguns para a Assembléia Popular, outros para os tribunais (nem todos para clientes tão atraentes quanto Célio, 56 Ac), alguns para defender (em especial o Em Defesa de Milão) e outros para acusar (de modo espetacular no A Respeito dos Pisões - In Pisonem). Assim, fica difícil isolar características gerais: na Primeira Catilinária, não havia espaço para finuras ou graças, no Em Defesa de Célio, não havia lugar para o espelendor retórico e dramático. Apenas seu estilo copioso (em verdade, muitas vezes pomposo) e a estrutura frasal rítmica e regular permanecem constantes.

IV. Obras Retóricas

O primeiro tratado de Cícero sobre retórica, Rhetorica, em dois livros, foi provavelmente escrito quando ele era muito jovem; o último, Topica, é de 44 AC, como muitos de seus escritos sobre o assunto. Certos temas de importância permanente estão aí incluídos: 1. a história da oratória em Roma (principalmente em Bruto, que contém generosas homenagens aos mestres de Cícero e aos grandes oradores de sua juventude); 2. as características e a educação do orador perfeito (De Oratore, Orator), que devia também ser filósofo, historiador, jurista; 3. a controvérsia entre os asianistas rebuscados e os aticistas austeros, a respeito da qual Cícero sempre manteve intransigente neutralidade, insistindo no seu apego ao meio-termo; e 4. as classificações formais e as divisões da retórica clássica.

V. Filosofia

A educação filosófica de Cícero foi excelente, e seu interesse pela filosofia ocupou toda a sua vida. Dois diálogos políticos, Sobre o Estado e Sobre as Leis, dos anos 50 AC, consistem em objeções de um romano a Platão, influenciadas pela teoria helênica, a história romana e a reação contra os acontecimentos de então. O restante de sua imensa produção filosófica pertence a um período de intensa atividade, 46 a 44 AC, durante o qual sintetizou ecleticamente vastas áreas do pensamento ético grego - por exemplo, em Sobre os Deveres, Sobre as Finalidades, Sobre a Velhice, Questões Tusculanas, em especial sobre o sofrimento e a morte - e do pensamento religiosos (Sobre as adivinhações, A Natureza dos Deuses, Sobre o Destino, em que discute o livre-arbítrio), muitas vezes em atraente forma dialogada, criando um vocabulário filosófico latino bem-sucedido e de duração notavelmente longa, e tornando o pensamento grego acessível àqueles que não compreendiam a língua grega, ao mesmo tempo em que transmitia para épocas posteriores muito do que se sabia da ética grega.

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Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.