Lipsius, O Neo-Estoicismo Cristão

O erudito flamengo Justus Lipsius (1547-1606) não foi um filósofo no sentido estrito do termo. 1 Foi, antes, um brilhante filólogo clássico, que proficuamente escreveu também sobre a história antiga, a cristandade e as questões políticas e religiosas de seus conturbados tempos. O que o torna importante para os propósitos deste capítulo é seu conhecimento sem precedentes de muitas fontes antigas do estoicismo e da influência cultural por este exercida entre 1600 e 1750, aproximadamente.


Em três tratados, De Constantia, Manuductio ad Stoicam Philosophiam e Physiologia Stoicorum, Lipsius produziu caracterizações do estoicismo baseadas em uma seleção vasta de citações gregas e latinas. 2 Essas obras, sobretudo a primeira, eram extremamente populares nos séculos XVII e XVIII. Lipsius fia-se intensamente em Sêneca, seu autor favorito, mas seus livros incluem muito do material grego sobre o qual todo estudioso moderno do estoicismo deve-se debruçar, e ele às vezes sopesa o valor dos diferentes testemunhos de um modo que antecipa a erudição moderna. Quem quer que estivesse seriamente interessado no estoicismo naquela época deveria ler Lipsius: suas caracterizações da escola eram as mais completas à disposição.


Infelizmente, os trabalhos de Lipsius foram um desastre para a interpretação do estoicismo como filosofia sistemática. Isso se deu por três motivos principais. Em primeiro lugar, apesar de seu domínio extraordinário de numerosas fontes antigas, ele não conhecia ou não utilizava as provas de Galeno, de Sexto Empírico e dos comentadores aristotélicos ou de Marco Aurélio, e até suas citações de Cícero eram escassas se comparadas às extraídas de Sêneca e Epicteto. Assim, ele deixa passar despercebido o material mais técnico sobre a cosmologia estóica. Em segundo lugar, ele tende a confirmar ou corregir as fontes por ele citadas com referências adicionais a autores platônicos e cristãos, diluindo as fronteiras ou distorcendo as doutrinas originais estóicas. Em terceiro lugar - e esse é o aspecto mais lamentável - ele toma a cristandade como critério para aceder ao significado do estoicismo.


O que Spinoza, na geração seguinte, teria achado particularmente apropriado no estoicismo era precisamente o alvo de Lipsius - a imanência de Deus a todas as coisas, a unidade entre Deus e matéria, e o determinismo universal. Lipsius tenta alinhar as declarações estóicas acerca dessas quetões a sua compreensão da teologia cristã. O resultado é que o estoicismo perde o caráter distintivo e torna-se uma antecipação largamente branda do teísmo cristão.


Lipsius sabe que, para o estoicismo, Deus ou a Natureza, bem como a matéria, são princípios eternos e co-extensivos; que, juntos, esses princípios constituem o organismo vivente que é o universo; e que Deus ou a Natureza, sob as descrições de fogo, espírito ígneo, razão ou mente, funciona como o agente causal de todas as coisas. Em vez de conceder ao termo Natureza um sentido independente, Lipsius convida seus leitores a traduzi-lo como Deus: Naturam dixi, intellego Deum ("disse 'Natureza', (mas) entendo 'Deus'", Fís. I, 2). O contraste com o usoreverso em Spinoza, Deus sive Natura ("Deus, ou a Natureza"), é notável. Lipsius propõe objeções às idéias de que a matéria é coeva a Deus e de que Deus não poderia existir sem a matéria (extensão). "Deus", diz ele, "está contido nas coisas, mas não está instilado nelas" (Fís. I, 8): Deus é verdadeira e primariamente mente, apenas secundariamente é o mundo (ibid.). Lipsius pode encontrar algum apoio estóico para essa interpretação, mas o que ele busca, e o que ele quer encontrar, como o sentido pretendido pelos estóicos revela quão longe ele está de tentar compreendê-lo em seus próprios termos.


Como cristão que é, Lipsius não tolera o panteísmo, o materialismo ou a sugestão de que Deus poderia conter alguma coisa má tal como humanamente construída ou de que Ele poderia apresentar-se plenamente à mente humana. Onde quer que o possa, Lipsius procura demover os estóicos do endosso literal de tais reivindicações. Ele louva os estóicos por terem uma concepção vitalista da natureza, sendo distinta daqueles (os epicuristas?) que a fazem bruta et sine sensu ("bruta e sem razão, Fís. 1.5). Contudo, ele guarda-se de discutir Deus e a matériajuntamente como a Natureza. Deveríamos construir o fogo divino estóico, diz ele, como a Natureza por excelência, acima da matéria, e deveríamos elucidá-lo com o auxílio das referências bíblicas às manifestações de Deus no fogo. Quando os estóicos dizem que Deus está nas coisas, eles querem dizer, como ensina a Escritura, que "temos nosso ser em Deus" (Fís. I 9).


Com o auxílio do platonismo, como elemento distinto da estrita doutrina estóica, Lipsius confere valor negativo à matéria, e trata-a como a fonte do mal (Fís. I, 14). Não era essa a doutrina estóica ortodoxa, mas ela permite a Lipsius aliviar os estóicos dos problemas que sua teodicéia enfrentava em suas tentativas de reconciliar a providência e o determinismo estrito. Em um viés semelhante, ele considera que as declarações estóicas sobre a voluntas ("vontade") humana implicam a vontade "livre", sendo alinhadas, desse modo, à cristandade (Fís. I 14).


As observações que acabo de fazer com grande brevidade são questões complexas. As fontes em que Lipsius primariamente se fia não estão livres de ambiguidades. Não quero passar a impressão de que ele teria tido alguma razão forte, dados seu tempo e seu lugar, para discutir os estóicos de maneira mais histórica e crítica. Em seu trabalho mais popular, De Constantia, ele enfocava não os princípios básicos do estoicismo, mas a utilidade da filosofia como meio de fortalecer a mente contra a ansiedade e os problemas exteriores.


Pautando-se demasiadamente em Sêneca, ele se imagina, ao fugir dos problemas em Flandres, confrontando com um Longius, que o refreia com as seguintes palavras: "o de que precisamos fugir, Lipsius, não é nosso país, mas são nossos sentimentos: precisamos fortalecer a mente apara nos darmos a tranquilidade e a paz em meio ao tumulto e à guerra" (Const.I). E Longius segue instruindo Lipsius quanto a serem os principais inimigos da resolução mental "os falsos bens e males" (Const. 7). Com relação aos externos, Lipsius deveria indagar se ele realmente perdeu alguma coisa. Com referência à providência e ao determinismo estóico, aconselha-se o reconheicmento de que os fenômenos naturais são manipulados por uma "lei eterna", que é divina (Const. 13-20). A constribuição principal desse tratado está na necessidade de cultivar "uma perseverança voluntária e isenta de ressaibos a todas as contingências humanas" (Const. 3). O instrumento para esse cultivo é "uma mente boa" ou a racionalidade que derivamos de Deus.


Lipsius fez objeções numerosas a seu mentor, com base na tese de que as prescrições que lhe são oferecidas não são consistentes com a natureza huama, e Longius se opõe a elas (Const. II). A obra inclui algumas idéias originais, tais como a alegação de que, dentre os valores falsos, os públicos são mais nocivos que os privados porque o louvor equivocado ao patriotismo e à piedade exerce o efeito nocivo de doutrinar os ouvintes (Const. 7). Longius persuasivamente argumenta que á um alto grau de simulação quando as pessoas se afligem com as atribulações públicas: isso não aflige perdas reais à maioria, mas eles são atingidos por elas por carecerem da resolução mental necessária para permanecer em desprendimento perfeito.


O De Constantia de Lipsius é uma produção mais criativa que seus escritos teóricos sobre o estoicismo, que envolvem exegese pequena. Dada a época turbulenta em que foi escrito, assolada por disputas e perseguições religiosas, o apelo contemporâneo do livro é plenamente compreensível. É também, penso eu, mais autenticamente estóico que seus outros livros, especialmente na ênfase à mente e à interioridade como o úncio sítio da bondade autêntica. No entanto, em paralelo a sua dependência intensa em relação a Sêneca, a moralização do De Constantia e sua falta de argumentação rigorosa provavelmente só faziam irritar filósofos do calibre de Spinoza, Locke ou Hume. 3 Infelizmente, de novo, a imagem geral que o mundo moderno faz do estoicismo se deve, em grande parte, do foco estreito de Lipsius na aceitação sem ressentiemntos do destino.




Notas:


1. Para a vida de Lipsius e um quadro geral de suas obras, ver Saunders (1955). É um livro útil, mas pouco crítico em relação a Lipsius, e muito desatualizado na discurssão do estoicismo antigo. Existe um bom estudo sobre Lipsius em francês por Lagrée (1944).


2. Cito essas obras a partir das seguintes edições, disponíveis na Bancroft Library, University of Califórnia, Berkeley: De Constantia (Leiden, 1584); Manuductio e Physiologia Stoicorum (Antwerp, 1610).


3. Diferentemente de Dilthey (1977), acho improvável que a afinidade de Spinoza com o estoicismo tenha sido mediada por sua leitura de Lipsius.



LONG, A. A. O Estoicismo na Tradição Filosófica: Spinoza, Lipsius, Butler. In__: INWOOD, Brad, org. Os Estóicos. São Paulo: Odysseus Editora, 2006. p. 418-422



Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.