Aristão de Quios

Aristão, o Calvo, nasceu em Quios, e era chamado de Sereia. Afirmava que o fim supremo é viver perfeitamente indiferente a tudo  que não é excelência ou deficiencia, não admitindo distinção alguma entre coisas indiferentes, pois a considerava todas iguais. Comparava o sábio a um ator talentoso que, devendo pôr a máscara de Tersites ou de Agamênon, representa os dois papéis competentemente. Aristão eliminou a física e alógica, argumentando que a primeira está acima de nossas forças, e a segunda nada tem a ver conosco; somente a ética nos interessa.


Comparava os discursos dialéticos a teias de aranha, que embora tenham aparntemnete algo de artístico, são entretanto inúteis. Não admitia uma pluralidade de formas de excelência, como Zenão, nem a existência de uma só com muitos nomes, como os megáricos, mas considerava a excelência em relação aos modos de vida. Ensinando essa filosofia e dando suas aulas no Cinosarges, exerceu tanta influência que chegou a ser considerado fundador de escola. De qualquer modo Miltíades e Dílfilos eram chamados aristônicos. Possuía grande força de persuasão e agradava ao gosto do público em geral. Daí os versos de Tímon a seu respeito:

"Alguém que se diz descendente do sedutor Aristão."

Após o encontro com Polêmon, diz Dioclés de Magnésia, enquanto Zenão padecia de uma longa moléstia, mudou sua maneira de pensar. Da doutrina estóica adotava especialmente o princípio segundo o qual o sábio não confia em meras opiniões. Persaios opôs a ele valendo-se do seguinte expediente: mandou um de dois irmãos gêmeos depositar com Aristão certa quantia, e depois mandou o outro retirá-la; Aristão ficou perplexo e foi refutado por Persaios. Costumava polemizar com Arcesilau; certa vez viu uma aberração da natureza  na forma de touro com útero e exclamou: "Ai de mim! Agora Arcesilau tem um argumento contra a evidência!"

A um filósofo acadêmico que proclamava que não confiava nos sentidos para coisa alguma, Aristão perguntou: "Não vês sequer o teu vizinho sentado a teu lado?" O outro respondeu que não e Aristão recitou o verso:

"Quem te cegou? Quem te tirou a luz dos olhos?"

Conta-se que, sendo calvo, Aristão foi vítma de uma insolação e morreu por isso. Dedica-lhe como gracejo o seguinte poema no metro coliâmbico:

"Por que, Aristão, velho e calvo, deixaste o sol assarte-te a cabeça? Buscando o calor mais do que era necessário, contra a tua vntade fostes para o frio Hades."


DL, livro VII


Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.