Quanto Há de Estóico em Marco Aurélio?

Marco Aurélio Distribui Pão ao Povo
de Joseph-Marie Vien, 1765 
Quanto há de estóico em Marco Aurélio em suas Meditações? Por um lado, à parte sua filiação explícita ao estoicismo (por exemplo, 17-8), os temas dominantes são vigorosamente estóicos, havendo sinais claros da influência do programa ético de Epicteto. Por outro, o estilo é idiossincrático, com forte coloração heraclitiana, cínica e platônica. Sua linguagem psicológica parece refletir antes uma versão do dualismo platônico que a ênfase ortodoxa na unidade psicológica.1 E o mais intrigante de tudo, apesar da frequente adoção de uma perspectiva cósmica da vida ética, é a expressão de indiferença a respeito de que visão de mundo é a correta: a concepção providencial estóica ou a concepção epicurista de que o universo é uma coleção fortuita de átomos. 


No caso de Marco Aurélio, não há razão a priori para exigir consistência doutrinal. Mas podemos explicar esses aspectos de modo que faça sentido em seu modo de ver predominantemente estóico. O contraste entre mente (ou a divindade dominadora) e  corpo pode ser tomado, como a terminologia aparentável em Epicteto, como expressão do tema ético estóico central da importância de perseguir a virtude em vez das vantagens corporais.2 O tema "providência ou átomos" é mais desafiador, embora em algumas passagens a questão apareça mais aberta que em outras.3 Mas pode ser importante Marco Aurélio reconhecer, em Meditações I 17, que ele próprio em verdade não concluirá o curículo tripartite estóico (incluindo a lógica e a física) que garantiria o entendimento cósmico que ele busca aplicar a sua própria vida. Portanto, há, quanto a esse aspecto, necessidade de que se assuma a visão de modo estóica (embora Marco Aurélio não assuma) - fato que talvez seja reconhecido em seu uso do tema "providência ou átomos".4

Notas:

1. A divisão é, grosso modo, entre mente, alma (ou espírito) e corpo: ver, por exemplo, Meditações II 2, III 16, VI 32, XIII 3.  

2. Cf Gill (1997a), xi-xiii

3. Em Meditações IV 27, X 6, XI 18, a quetão (embora se coloque) parece presspor uma resposta providencial (estóica). Alhures (por exemplo II 11, VI 10, VII 32), a questão é deixada mais em aberto.

4. Annas (no prelo); para outras discurssões, Rist (1983), 29-40, Asmis (1989), 2250-1; para um exame da questão, Gill (1997a), 181-200.



GILL, Christopher. A Escola no Período Imperial Romano. In: INDWOOD, Brad. Os Estóicos. São Paulo: Odysseus Editora, 2006. p. 54-55

 

Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.