La Mettrie e Determinismo

por Breno Lucano

A obra lamettriana pode ser dividida, a grosso modo, em três blocos: o Discours préliminaire (1751), que trata da epistemologia; O Homem-Máquina (1747, datado em 1748), um manifesto materialista radical; e L'Anti-Sénèque (1750), que aborda teoria ética.

Antes de prosseguirmos, é necessário considerar um ponto cardeal: será La Mettrie um ateu? Existe alguma obra que negue explicitamente a existência de deus? Não, não há. Em momento algum nosso filósofo afirma que deus não existe ou que a providência é uma farsa, como faz Meslier. Todos os críticos de La Mettrie, com exceção de Pierre Lemée, confirmam, contudo, seu ateísmo. Em Anti-Sêneca, por exemplo, discorre sobre a animação das criaturas e depois se pergunta sobre o "adorável autor que as fez". Em O Homem-Máquina ele concluir pela probabilidade da existência de um ser superior. Temos, portanto, um deísta. Nesta mesma obra anuncia:

"Em todo o universo há apenas uma única substância diversamente modificada."



Alguns críticos associam La Mettrie na mesma tradição de Espinosa, panteísmo. Definições à parte, toda a sua filosofia se opõe em pelo menos um único deus, o cristão. Vejamos algumas de suas críticas. Os cristãos nos ensinam o ódio a si. O eu e tudo a ele relacionado toma proporções catastróficas que precisam ser eliminadas. La Mettrie toma partida do egoísmo, do amor a si: como amar os outros se não amamos a nós mesmos?

O catecismo divide o mundo em dois universos: o que vemos e o que não vemos. Um eterno, sobrenatural, perfeito, desejável e um segundo, modificável, imperfeito, a que se deseja repelir. Essa realidade dual é rejeitada categoricamente. A única realidade, a única coisa que realmente existe, é a matéria em suas diversas modificações. Nesse ponto, contraria abertamente Descartes: como uma substância pensante - a alma -, imaterial, pode habitar na parte material de uma substancia extensa? Ela apenas poderia ser, portanto, material. E, como tal, segundo critérios materialistas, ela more junto com a organização que define seu ser.

Contrariando mais uma vez os cristãos que definem uma hierarquia na natureza, partindo dos minerais, animais e alcançando seu ápice no homem, La Mettrie não estabelece o homem no topo da criação. Isso ocorre porque, na natureza, nada é superior ou inferior a nada; tudo é igual. A única diferença é a organização da matéria que produz ora um macaco, ora um vegetal, ora um homem.

 Que ética se extrai dessa cosmovisão? Antes de mais nada é necessário afirmar o determinismo estrito no pensamento lamettriano. Em decorrência, temos o fim das teses cristãs do livre-arbítrio, do pecado, da bem-aventurança, das diferenças ontológicas entre bem e mal. O homem nada pode escolher, nada determina; antes, é resultado da configuração da matéria. Afirma nosso filósofo em Épître à Mlle:

"Uma máquina não age pelo que quer, mas sim pelo que deve."

Se assim o for, o que é não pode não ser; o que ocorre nunca poderia deixar de ocorrer. O homem é, antes de tudo, aquilo que a organização de sua matéria o faz ser. Entra em jogo aqui a hereditariedade, o clima, o alimento, a saúde, e a educação desempenham importante função na construção da subjetividade. Se tudo é determinado por forças que escapam ao homem, a punição e a recompensa - sobrenatural ou terrena - são improváveis: apenas se pune ou congratula à medida em que se pode escolher. 

Pense, a título de exemplo, num sujeito que nasceu em meio à pobreza extrema. Esse cidadão, desprovido de tudo, de condições de educação digna, saúde precária, desemprego. Num belo dia, com fome, ele decide efetuar um assalto. Qual sua responsabilidade moral? Ele poderá ser punido pelo delito? Ou agiu conforme sua própria configuração material e psicológica, dadas as circunstâncias em que nasceu e foi criado? Essa é a indagação de La Mettrie.

Em Anti-Sêneca afirma que, se nada se pode culpabilizar o homem, então nada deve atormentá-lo. Nada há que possa exigir dele um arrependimento, infundír-lhe culpa e propagar remorso. Isso seria o mesmo pedir que o tsunami do que assolou o Japão peça desculpas pelo ocorrido. As circunstâncias levam o tsunami a produzir desabrigados e o nosso assaltante a assaltar.

Não existem culpados. Entra em jogo, então, uma espécie de metafísica da ternura. La Mettrie nos convida a uma redução das penas àqueles vistos como culpados pela sociedade. A pena apenas seria legítima caso fosse possível prevenir. Para evitar a reincidência a sociedade deve se proteger. Afirma nosso filósofo:

"Detesto tudo o que prejudica a sociedade."

Para La Mettrie temos o interesse da sociedade como central em sua ética. É necessário, pois, legitimar a pena de morte para que a coletividade seja resguardada. É necessário que se extermine tudo quanto for capaz de prejudicar a sociedade.

Mas a maior crítica de La Mettrie provavelmente se encontra no modo de vida estóico e cristão. Em Anti-Sêneca recusa a aceitar o suicídio estóico, a amargura da vida, a severidade a tristeza, a dureza. Inversamente, em La Volupté, celebra os prazeres convencionais e reconhecidos pelo senso comum: o bom vinho e as mulheres, a mesa e a ópera, a pintura e o teatro, o livro e a pintura. Eventualmente se aventura na análise filosófica sobre o prazer; prefere entender o hedonismo como oriundo da experiência prática, fruto dos sentidos, do corpo, do real. Ora ressalta que os prazeres do corpo são superiores ao da alma; outro momento, afirma o contrário. O importante, de fato, é não se deixar tanto ser influenciado pela reflexão e a análise profunda, metafísica, e viver o dia de hoje. E viver bem!


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Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.