Questões de Gênero e Papéis Sociais

por Breno Lucano

Tendo por modelo as lutas de tantos segmentos sociais minoritários por direitos civis, à modelo do movimento feminista e negro, o movimento LGBT possui suas raízes históricas bem consolidadas num evento ocorrido no bar Stonewall In no ano de 1969, em Nova York. Num momento em que travestis, gays e lésbicas eram duramente cerceados e presos, isolados em clínicas psiquiátricas e submetidos a tratamentos atrozes para cura de uma suposta patologia mental, intensa rebelião que durou três dias incorreu entre LGBTs e simpatizantes contra a polícia, o quer originou posteriormente nas paradas gays. A partir daí, em diversas localidades do mundo os autodenominados queer - os estranhos - lutaram e ainda lutam por conquistas de direitos civis à semelhança dos padrões heteronormativos.

Paradoxalmente, à medida em que direitos foram conquistados, também criaram-se conceitos do que é um gay verdadeiro, sempre atrelados a atributos claramente hegemônicos da masculinidade.



CARRARA afirma (confira a matéria clicando aqui) que:

"Na pesquisa do Datafolha, chamou a atenção o fato de 76% dos entrevistados concordarem, total ou parcialmente, com a idéia de que 'alguns homossexuais exageram nos trejeitos, o que alimento o preconceito contra os gays'. A pesquisa do Rio revelou que, entre os homens homossexuais,  44,6% preferem parceiros 'mais masculinos', contra apenas 1,9% que os preferem 'mais femininos. Para alguns, por aumentar o preconceito, a feminilidade parece politicamente incorreto nos homens."



No decorrer do processo histórico de conquistas, os queer não construíram novas vidas. O que houve foi uma aproximação da vida gay feliz da vida de família no casamento. Pouco a pouco formou-se o imaginário popular de famílias felizes com filhos adotados ou obtidos por inseminações ao redor de uma mesa no café-da-manhã antes de irem para o trabalho e os filhos para a escola.

De modo algum deve-se desvalorizar o que se conseguiu até o momento. Gays não são mais marcados pelo triangulo rosa, embora em muitos países ainda haja pena capital para a prática homossexual. O que se discute é o adentramento do perfil gay num perfil previamente estabelecido e normativo. Por exemplo, pouco se fala de gays que passam a vida inteira solteiros e que gostam de praticar sexo com homens heterossexuais e casados com mulheres. A procura por dignidade encontra alguma dificuldade em casos específicos. Esses gays teriam que casar com outros homens caso queiram adotar um filho? Será que não poderíamos imaginar a criação de filhos fora do esquema da família?

Homens que gostam de sexo com homens casados sofrem preconceito em razão da visibilidade do orgulho gay. Será que todos os atos e desejos necessitam de visibilidade? Será preciso  afirmar "sou gay" para que se alcance algum nível de qualidade de vida? E quanto aos que querem parceria com tais homens casados? Alguns não poderiam gostar de frequentar parques à noite à procura de sexo? Outros não poderiam frequentar saunas? Necessitamos assegurar segurança a essas práticas, lutar contra um moralismo que diz que isso tudo é pecado e implicitamente negativo. Trazer à luz da visibilidade pode ser importante, mas não apenas os mais comportados.

Evento social semelhante ocorre com os praticantes de barebacking. Os dedicantes dessa prática são vistos como traidores da luta do movimento LGBT. No campo do barebacking o que temos visto são indícios de uma resistência contra práticas higienistas na prática da prevenção da contaminação HIV, combinada a um moralismo que produz o homossexual correto como sendo aquele casado e monogâmico. Essa preocupação sobre o binômio epidemiologia-moralismo se manifesta também na doação de sangue, em que gays devem se abster da prática sexual por vários meses antes da coleta.

Não se trata de defender a prática barebacking, mas de analisá-la do ponto de vista social e cultural. Seus praticantes são vistos, sem qualquer reflexão prévia, como irresponsáveis e logo patologizados. O mesmo ocorre com as relações abertas, onde os parceiros estão livres para se relacionar com outros parceiros sem comprometimento da relação original, primária. Ou ainda em grupamentos de três homens que formam um núcleo familiar.

Esse é o impasse criado pela criação de leis específicas. Se por um lado temos a conquista de direitos, por outro temos o cerceamento por padrões legais. No limite, o que teríamos é a codificação de afetos; e a consequente patologização e discriminação no que não for estabelecido legalmente. A negativa da legislação conduz a uma experimentação livre que obriga a viver como se quer, com quem se quer.

Seríamos felizes sem casar com mulher, sem filhos, sem noivar, sem ser monogâmico? Há pessoas que são felizes casando, outras ficando solteiras. Longe da discriminação, os gays poderiam ser vistos como questionadores das instituições sociais, com uma saudável crítica às regulamentações do afeto, amor e sexo. Não deveriam ser vistos apenas como sendo aqueles que desejam tudo aquilo que os outros já têm, mas também como sendo aqueles que possuem outra visão de futuro, de viver e ver o mundo. A pederastia possui recursos inúmeros para inventar o mundo. Inventar mundos. E não apenas reproduzir o que os outros já possuem.

Iniciativas inovadoras são relevantes para o estabelecimento do saber queer. Destaco a extração do gênero da alçada médica. Não queremos médicos curando gêneros. Queremos muitos gêneros no embate cultural. Também recordo do essencialismo biológico da homossexualidade que determina o perfil queer. Gay não o é em razão de um gene, um hormônio ou enzima. Os LGBTs o são porque querem ser assim, mesmo enfrentando as restrições do heterossexismo. Ter gene A ou B não pauta uma luta social ou faz com que a aceitação seja maior porque são naturalmente homossexuais. Queer é algo da cultura, da política.

E finalmente, entender que a heterossexualidade orbita um plano inócuo, que ela é uma construção social e histórica, tal como a homossexualidade. Penso que somente posto e refletido a questão de gênero dessa forma, não numa sociedade moderna à moda religiosa tradicional, mas pós-moderna e criativa, teremos um mundo mais pacífico.