Crisipo, Co-Fundador do Estoicismo

Foi Crisipo quem restabeleceu a unidade no seio da escola estóica 1; em primeiro lugar, devido à sua personalidade, depois, pela sua douta dialética que lhe permitiu entrar em luta com os seus adversários. Nasceu por volta de 280 a.C., em Soles, cidade célebre em toda a Antioquia pelo incorreto falar dos seus habitantes, ou em Tarso, onde viria a nascer mais tarde são Paulo.

Uma lenda suspeita apresenta-o como um corredor de fundo profssional. Parece que Crisipo, ao contrário de Cleanto, teria sido um homem bastante orgulhoso e seguro de si; assim, terá respondido um dia a alguém que lhe perguntou a quem poderia confiar seu filho:


"A mim, pois se eu conhecer alguém que me ultrapasse, ir-lhe-ei pedir lições de Filosofia."




Prolixo e falando uma língua incorreta, parece ter sido um trabalhador incansável; Diógenes Laércio afirma que ele escreveu mais de 705 obras e deixa-nos uma lista incompleta de títulos de 119 escritos lógicos e de 43 escritos éticos. Crisipo gostava de fazer numerosas e longas citações, a tal ponto que numa das suas obras citou a Medeia de Euripedes quase toda. A sua personalidade opunha-se muitas vezes à dos fundadores da doutrina e talvez até indispusesse com Cleantes. Seja como for, este ao morrer em 232 a.C. deixou-lhe a direção do Pórtico.

O aspecto dominante do ensino de Crisipo é o dogmatismo polêmico apoiado numa dialética sutil. O Pórtico tinha efetivamente de lutar contra as argúcias sofisticas da escola de Mégara frequentemente designada escola erística 2, e contra as sutilezas da Nova Academia que, sob o impulso de Arcésilas, tendi para o ensino de um ceticismo mitigado apoiado por uma discurssão que visava a refutação de todo a discussão proposta. Crisipo era de tal forma contra a Nova Academia que foi alcunhado de "faca cortante das armadilhas acadêmicas". Ele próprio tinha uma tal confiança na sua capacidade de argumentação que dizia que só lhe eram necessários os dogmas da doutrina estóica, pois era capaz de encontrar sozinho as provas que os fundamentavam... "Se os deuses praticam a dialética não se servem senão da de Crisipo", dizia naturalmente. Com ele o estoicismo toma um caráter verdadeiramente sistemático, se bem que fosse muito usual a expressão: "sem Crisipo não há Pórtico".

Enquanto naquela época os reis recorriam naturalmente aos chefes de escola como conselheiros, Crisipo parece ter tido um grande desprezo pelos grandes: não só não dedicou qualquer um dos seus livros a um rei mas ainda se recusou a acompanhar Sferos para responder ao convite de Ptolomeu. Morreu com a idade de 80 anos, segundo uns, depois de ter bebido vinho doce, segundo outros, depois de ter rebentado a rir ao ver um burro a comer figos.


Notas:

1. O Estoicismo é também conhecido como Stoa ou Filosofia do Pórtico.

2. Do grego eristicé: amante das controvérsias.




BRUN, Jean. O Estoicismo. Edições 70, Lisboa.




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Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.