Estoicismo e Poesia Romana

Marco Aneu Lucano
por Breno Lucano

Um dos aspectos notáveis do período imperial é a influência exercida pela filosofia - particularmente o estoicismo - sobre a literatura romana, inclusive a poesia - um aspecto sem paralelo em outras eras da Antiguidade. Porém, no período republicano tardio, a filosofia chegou a desempenhar papel significativo na educação dos gregos e romanos de alta extração social. Na literatura romana, a presença da filosofia, inclusive do estoicismo, fez-se notar no campo da poesia e da prosa a partir do final do século I a.C. e por todo o século I d.C.


Pergunta-se quais os limites dessa influência. A resposta pode variar: a questão, como não poderia deixar de ser, é complexa. O foco aqui incide sobre a sátira, a épica e a tragédia de Sêneca. A linguagem e os conceitos do estoicismo estão presentes nos três satíricos romanos, mas em Horácio e Juvenal o uso do estoicismo é localizado e oportuno. Horácio (65-5 a.C) é bem capaz de utilizar, como alvo de suas sátiras, importantes conceitos estóicos tais como a perfeição do sábio e a tolice e a irracionalidade de todos os demais, ou a idéia de que somente o sábio é livre (Sátiras II 3,7). Mas em suas Odes Romanas ele também é capaz de fundir temas estóicos e atitudes patrióticas para criar uma poderosa poesia lírica.



De modo similar, Juvenal (início do século II d.C.) está preparado para adotar uma concepção quasi-estóica da vaidade de todos os desejos humanos não-virtuosos na Sátira 10 (especialmente 346-66) ou para fazer referência à terapia estóica dos sentimentos (Sátira 13). Mas, ao que parece, ele o faz tão-somente pelo efeito satírico negativo. De modo distinto ocorreu com Pérsio (34-62 d.C.) que estudou o estoicismo com Cornuto desde os 16 anos e manteve relação íntima com os estóicos Sêneca e Lucano. As Sátiras de Pérsio sevem como veículo de seu comprometimento com a ética estóica, expressa positivamente no tributo a seu professor Cornuto (Sátira 5) ou, indiretamente, por meio do diálogo crítico (Sátira 4). Na Sátira 1, ele justifica sua escrita satírica por meio de retrato brilhante da decadência contemporânea, retrato esse que entrelaça (de maneira profundamente estóica) a expressão do vício à moda psicológica, corporal e social.

A complexidade se torna maior quando relacionamos estoicismo e poesia épica romana. Não se deve questionar que, para Virgílio, Lucano, Sílio Itálico e possivelmente Estácio, o estoicismo ajuda a formar a estrutura conceitual dos poemas. Mas em que medida se pode dizer que a concepção poética de qualquer desses poemas reflete diretamente a visão de mundo estóica? Em todos esses poemas, sobrelevam-se dois possíveis pontos de contato principais: a representação da causalidade divina e humana dos acontecimentos (ai incluído o papel do Destino) e o retrato ético e psicológico dos caracteres.

Na Eneida de Virgílio, os elementos que evocam o estoicismo incluem a ênfase sobre o destino (que é, como no estoicismo, não só compatível com as ações humanas como, ademais, levada a efeito por elas). Também estóica é a ênfase na aceitação do destino como componente-chave em termos do contraste entre virtude (ou razão) e paixão. Um traço importante desse modo de retratar as personagens é a apresentação da rendição à paixão como uma queda a uma espécie de loucura, traço esse que constitui o retrato de Dido e Turno, bem como o de Enéias. Mas isso significa que a concepção poética do poema é essencialmente estóica? Deve-se lembrar que a Medéia de Eurípedes também encarna esse tema e, por essa mesma razão, atraiu o interesse de Crisipo. Talvez seja inútil perguntar se o uso dessa idéia por Virgílio teria mais dívida com fontes literárias ou filosóficas. E, mais ainda, mesmo se vemos a linguagem conceitual da Eneida sob tão forte coloração estóica, persiste a questão relativa a se um poema cuja concepção é, para muitos leitores, profundamente trágica pode exprimir a visão de mundo (em última instância positiva) do estoicismo.

Questões semelhantes são suscitadas pelos demais épicos. Lucano (39-65) era sobrinho de Sêneca e, também ele, aluno de Cornuto; como seu tio, morreu por causa de suposto envolvimento na conspiração dos pisões contra Nero. Sua Farsália, que descreve a guerra civil que assinalou o término da república romana, é profundadamente política. Seu matiz estóico revela-se principalmente na apresentação de Catão como um sábio estóico corporificado e na representação vigorosamente ética de Pompeu e César. Sua concepção do Destino como força arbitrária e caprichosa, contudo, talvez indique mais uma visão sobre os acontecimentos históricos que, propriamente, o estoicismo. Embora a Tebaida de Estácio (aproximadamente 45-96) por vezes tenha sido tomada como estóica, a concepção completamente negativa das ações humanas e divinas ou predestinadas faz com que seja difícil de o sustentar. O candidato mais plausível a motivo estóico é, provavelmente, a apresentação das paixões como forças irracionais e poderosas nocivas que acabam por eventualmente conduzir a uma espécie de loucura e auto-destruição. As Guerras Púnicas de Sílio Itálico (26-101) parecem ser muito mais moldadas pelo estoicismo, sobretudo na caracterização contrastada e vigorosamente ética dos principais generais cartagineses e romanos. 6

Finalmente, resta a questão sobre até que ponto as tragédias de Sêneca refletem o estoicismo que lhe é tão importante em outros aspectos. Os principais motivos estóicos são a apresentação da paixão desgovernada como geradora de loucura, destruição e destituição e a idéia de que esse processo tem dimensões tanto cósmicas como éticas. De localização mais difícil em uma visão de mundo estóica é o retrato do Destino (uma poderosa, ainda que negativa, presença nas peças) e a concepção geral desoladora e violenta. Contudo, para abrigar toda a força do impacto do estoicismo nesse período, deveríamos ter em mente que a Farsália de Lucano, as Sátiras de Pérsio e talvez as tragédias de Sêneca sejam todas produtos da breve, porém intensamente carregada, atmosfera cultura da Roma de Nero. 8



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Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.