Plutarco e a Alma, a Paixão e a Virtude

Por Franco Ferrari

O ser humano vive, portanto, em um mundo ordenado, criado pelo demiurgo dentro do tempo e regido pela divina providência. Apesar disso, como vimos, o mal e a desordem não podem, mesmo que sejam restringidos e limitados apenas à esfera abaixo da lua, ser totalmente reprimidos. Eles representam um componente estrutural do mundo, já que apontam para um princípio independente de Deus e que não pode ser derivado deste, a saber, a alma pré-cósmica má. A alma cósmica é entidade em que esse dualismo se mostra com maior clareza, pois ela se compõe de dois elementos, um dos quais é racional e divino, o outro, irracional e mau. Essa estrutura reproduz-se também na alma do indivíduo (An. Procr. 1025C-102A e 1026E), que é parte (méros) e imagem (mímema) da alma cósmica: pois também a alma dos seres humanos compõem-se de um elemento racional e lógico (noeron kaì logistikón) e um elemento passional e irracional. Este último, por sua vez, apresenta duas partes distintas: a desejante (tò epithymetikón), presa ao corpo, e a estimulável (thymoeidés), que ora se alia ao corpo, ora à razão (Virt. mor. 442A-B). É provável que também as duas partes irracionais reconhecíveis da alma do ser humano tenham um correspondente na alma cósmica, na qual a alma dos seres humanos tem sua origem: de fato, pelo visto, também a alma cósmica mostra, no interior de seu componente irracional, um tipo de princípio avaliador (tò kritikón), que deveria corresponder à parte estimuláve, e um princípio exclusivamente perceptivo, que deveria corresponder à parte desejante da alma individual.



Ao assumir de Platão a tripartição da alma, Plutarco posiciona-se expressamente contra o monismo psíquico dos estóicos, que não reconheciam qualquer componente irracional e passional na alma. A consequencia mais importante da noção de uma alma tripartida certamente consiste na rejeição daquele ensino estóico segundo o qual o objetivo ético do ser humano consiste em erradicar totalmente as paixões: estas, no entanto, não podem ser completamente exterminadas, mas apenas moderadas, limitadas e ordenadas, pois dependem de um componente constituinte da alma (Virt. mor. 443C). Dessa maneira, Plutarco propaga o ideal ético do controle e da moderação das paixões (metriopátheia), que se contrapõe ao radicalismo dos estóicos, que insistiam na necessidade de reprimi-las totalmente (apátheia).

A virtude ética mostra-se, portanto, como concordancia harmônica entre razão e paixão (virt. mor 444E e 445D). Essa concordância harmônica surge no âmbito das paixões, cuja moderação e controle ela justamente representa. Recorrendo ao conhecido ensino de Aristóteles, Plutarco define as virtudes éticas como "o centro justo" entre os dois extremos, o qual está em condições de remontar as paixões a uma medida justa e irrepreensível (virt mort. 44eE-445A). De Aristóteles, Plutarco assume, além disso, a diferenciação entre virtudes éticas e dianoéticas: as primeiras referem-se exatemente às partes irracionais da alma e consistem no centro justo entre os extremos provocados pelas paixões, ao passo que as últimas dizem respeito ao elemento racional. Em seu âmbito pode haver dois tipos distintos de virtudes, dependendo se o objeto ao qual se refere a razão pertence às realidades eternas e imutáveis ou ao âmbito do agir humano: no primeiro caso, a razão possui caráter teórico, no segundo, um caráter prático. A essas duas formas de racionalidade, sendo a primeira necessária e a bsoluta, a segunda contingente e deliberativa, correspondem duas virtudes: a sabedoria (sofía), isto é, o saber a respeito das realidades eternas e imutáveis, e a sensatez (frónesi), isto é, a racionalidade prática, aplicada às decisões humans (virt. mort. 443E-444B).

Para Plutarco, consequentemente a sabedoria - ou seja, uma forma teórica do saber - constitui a virtude suprema. Tudo isso combina bem com o ensino médio-platônico, segundo o qual o alvo do ser humano consiste em "assemelhar-se a Deus" (homoíosis theô). Porque a característica principal da divindade reside no conhecimento (gnôsis) da realidade (Is. et Os. 351E), e o conhecimento teórico representa justamente a virtude suprema do ser humano. Ao exercitá-la, ele pode aproximar-se nos limites de suas possibilidades humanas, do modo de vida da divindade (Ser. num. vind 550D). Mas Plutarco, como bom platônico, tem total clareza de que o conhecimento que a alma pode obter neste mundo é provisório e fragmentário. Apenas quando ela um dia estive livre das algemas da corporiedade e entrar em contato com Deus e com o mundo inteligível, ela será capaz de alcançar um conhecimento completo e permanente (Is. et Os 382F-383A). O mito que conclui o escrito De Facie In Orbe Lunae representa simbolicamente a ascensão cognitiva do ser humano, cuja culminância se situa fora da existencia terrena: apenas por meio da "segunda morte", quando a razão separar-se da alma, ele conseguirá vislumbrar o auge de todo o conhecimento, isto é, o primeiro princíipio do ser, que é definido como"aquilo que é almejável, belo, divino e bem-aventurado" (tò eféton kaì kalòn kaì theîon kaì makárion)(Fac. Lun. 944E).

Nesta vida deve praticar o tipo de virtude ao alcance do ser humano, ou seja, preservar uma postura sensata fugindo dos excessos das paixões, enquadrar-se no sistema social e político dominante, praticar os cultos da religião tradicional e, acima de tudo, almejar comportar-se como um bom cidadão. As Moralia estão impregnadas do esforço incessante de comunicar um tipo de arte de viver (ars vitae, técne bíou), que consiste em evitar os extremos (medèn ágan = tae, téchne bíou), que consiste em evitar os extremos (medèn ágan = "nada em demasia" é o lema délfico): na área teórica, isso significa manter o cuidado que o saber sobre a limitação humana ordena, e sobretudo assumir uma atitude de reserva cautelosa em relação ao divino (eulabeîa pròs tò theîon) e evitar, na vida prática, o excesso das paixões que estão ligadas à alma do ser humano por natureza.

Plutarco realmente foi uma pessoa do seu tempo, cujos sinais distintivos - tensões e medos religiosos - ele abordou com habilidade e procurou integrar na grande tradição da filosofia grega, uma filosofia cuja expressão máxima, aos seus olhos, era o platonismo.



FERRARI, Franco. Plutarco: Platonismo e Tradição. In:__ ERLER, Michael & GRAESER, Andreas, orgs. Filósofos da Antiguidade 2: Do Helenismo à Antiguidade Tardia. Editora Unisinos: São Leopoldo, 2003. p. 169-172



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Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.