Moral e Demonização: Resposta ao Apostolado Shemá

Agradeço mais uma vez ao Apostolado Shemá pela oportunidade da escrita de um novo texto. Desta vez, minhas linhas são em resposta à sua publicação intitulada 'Carta Aberta ao Portal Veritas Sobre Homossexualismo: A Moral é Imutável?', de modo que, como sempre, estimulo muito mais à reflexão que proporciono respostas.



Pensei muito em como escreveria este texto e optei por não ser didático - não agora! Não me prenderei às complexas teorias éticas estudadas a partir de Sócrates. Em seu devido tempo, darei início a algumas publicações explicando melhor a dimensão da axiologia e as dificuldades por elas desencadeadas. Apresentarei, portanto, algo mais simples, mais pessoal, de fácil compreensão e de eficaz teor pedagógico. Iniciarei relaxando uma experiência pessoal vivido no seminário franciscano; prosseguirei expondo meus posicionamentos filosóficos; e, por último, relembrarei algumas exortações de um bispo.

Em poucas linhas relatei no Histórico do Veritas algo sobre minhas experiências como franciscano, em Santa Catarina e de como cresci e amadureci como pessoa depois disso. Não temo em afirmar que foi, seguramente, a experiência mais rica que tive até o momento. Aprendi muito sobre mim mesmo a partir da vivência franciscana e sou mais realizado, apesar da secularização.

A formação de um franciscano engloba várias aulas diferentes, como Liturgia, Música, Formação Cristã, Formação Franciscana e Formação Humana, entre outras, quase todas ministradas pelos próprios frades. Dentre as mensionadas, entendo a Formação Humana como a mais importante porque é aquela que nos faz adentrar em nós mesmos, questionar nossos medos e vocações, se auto-conhecer e pro-vocar. Trata-se de uma disciplina que fora ministrada por um frade e que possui a psicologia como carro-forte, assim como muita filosofia - NÃO NECESSARIAMENTE CRISTÃ! Os encontros não eram como em sala de aula, com exposições teóricas, mas um bate-papo descontraído, onde cada um poderia se expressar livremente, refletindo sobre um tema qualquer, sem qualquer medo de dizer coisas erradas ou de blasfemar. O objetivo dessa aula era a Formação Humana!

Naquele dia, o frei, para explicar algo que não me recordo exatamente o que era, relatou um fato vivido por ele no momento enquanto era noviço da província. Ele, aquele noviço, rapaz jovem, rígido por tantos medos de pecar, excessivamente severo consigo mesmo, conversava com seus outros con-frades, também noviços. Falavam sobre sexo e alguém deixou escapar que se masturbava. Meu professor entrou em crise, porque em sua rigidez, não entendia como um candidato à santidade poderia se masturbar. Achava que isso não era um comportamento apropriado para um frade, um home de Deus, alguém que vive o Santo Evangelho seguindo os passos de nosso Seráfico Pai São Francisco.

Todos nós ouvíamos aquela estória com atenção. Alguns de nós, oriundos de movimentos severos na Igreja, pensavam com ele. O exercício da sexualidade é sagrado e a masturbação não condizente no laicato e menos ainda a alguém que vive em celibato. O professor disse que no noviciado precisou de atendimento psicológico. Ele precisava se entender e conhecer a origem de seu comportamento castrador para, a partir dai, propagar Deus sem medo, sem remorso, sem culpa, entendendo que faz o melhor que pode dadas àquelas circunstâncias. Ele precisava entrar em contato consigo, se auto-conhecer - e esse é o objetivo pedagógico do noviciado, o contato consigo -, reconhecer que a demonização dos atos e pensamentos gera mais dor e sofrimento. Entender que atos simples, como praticar academia, andar de bicicleta, passear, falar palavrão quando martela o dedo, exercitar a sexualidade com compromisso e responsabilidade, longe constituir um pecado, é fator intrínseco à natureza humana.

Faz parte da cultura do sul do país o consumo de chimarrão. Os frades consomem muito e em todo lugar que há um frade, há uma garrafa térmica com água fervendo e uma cuia. Certa vez um frade me acompanhou até um gastroenterologista. Ele dirigia, eu carregava a carrega térmica. Numa freada brusca, a garrafa cai de minhas mãos e água fervendo cai em meus pés. Lembro como se fosse hoje de quantas vezes eu gritei no carro: "PUTA QUE PARIU!". Fiz queimadura de segundo grau no pé. Ótimo: agora eu tinha uma gastrite e uma queimadura!

Uma outra aula que tive era de Comunicação. O Clero trabalha, sobretudo, com o exercício da fala e se comunicar em público seria importante para uma homilia - como as que fiz -, para uma entrevista - como a que dei na rádio de uma cidade de Santa Catarina -, para expressar Deus. O frade que dava essa aula tinha agendado conosco que todos nós faríamos um discurso qualquer na frente da turma. Poderia ser sobre qualquer tema, cristão, secular, anti-cristão: não importava. O objetivo era analisar o formato do discurso e exercitar. No dia do meu discurso, haviam dois frades assistindo - o meu era um dos mais esperados porque eu fazia parte da ala intelectual dos seminaristas - além dos mais de trinta seminaristas. No dia de meu discurso - o guardo até hoje - soltei em alto e bom tom um escandaloso 'PUTA QUE PARIU' . O discurso, no final, não ficou excepcional - apesar do texto bem trabalhado - porque gaguejei algumas vezes. O palavrão foi inserido propositalmente como recurso pedagógico. Ele tinha finalidade.

O professor de Formação Humana foi o mais importante professor que tive até hoje. Ele me ensinou a ser eu, a me olhar e entender, sem culpa. Aproximando-me de Christo diante de minhas condições existenciais atuais, mas sem exigências e gratuitamente. Seguindo o costume que todo aluno possui de colocar apelido em seus professores, também o apelidamos: de agora em diante, para nós alunos, ele seria o frei punheta!

É necessário que se compreenda que muitos de meus posicionamentos filosóficos não são necessariamente cristãos. Agostinho pode ser encantador, ou para nós franciscanos, Alexandre de Hales, Scoto e Boaventura. Mas outros autores trouxeram reflexões fundamentais para a compreensão do homem, em suas diversas reflexões sobre a existência, a dor, a morte. Poderemos encontrar respostas em Nietzsche que vão além do bem e do mal, aprender sobre a liberdade humana com Sartre, discorrer sobre eticidade com Giges de Platão, usar os indiferentes dos cínicos e estóicos, adentrar no ceticismo de Hume, alcançar o inconsciente de Freud, ser desafiado pelo imperativo categórico de Kant. Podemos ainda ser congratulados pela paz de Christo, atingir o Não-Eu de Buddha, conquistar a flor-de-lótus de Krishna, consultar os Orixás, solicitar orientação a Allah.

Mas, mesmo assim, colocarei um pouco de meus posicionamentos filosóficos:


* Ética

Fortes influências da ética estóica e, principalmente, da cínica. As teorias éticas que sigo costumam oscilar entre um inflexível imperativo categórico e um suave fluir da vida, ao estilo de Epicuro. Transito com frequência entre a Dentologia - de atos e regras - e a Teleologia - de atos e regras -, embora permaneça mais tempo na primeira;


* Epistemologia

Ceticismo pirrônico. Com frequência uso o conceito de provável de Sexto Empírico. E esse provável caminha em direção ao racionalismo - mesmo entendendo as dificuldades oriundas do conhecimento metafísico e da obtenção de um conhecimento imóvel. Possuo discretas influências do Idealismo Alemão no que se refere à liberdade e a desolação.


* Política

O conceito de provável utilizado por Sexto Empírico me proporciona compreensão de probabilidade no que se refere ao governo. Assim, uso o Racionalismo. Entendo a melhor forma de governo como sendo o do cosmopolitismo, o que acentua minhas características estóicas e cínicas. O melhor governante deve ser o mais sábio e deve permanecer no poder até o momento da morte, sustentando poder absoluto, de vida e morte. Não há tripartição de poderes. Entre os modernos, aprecio os ideais do filósofo Bossuet.


* Cosmologia

As influências do Idealismo Alemão aqui são claras, principalmente a Schopenhuer. Alguns autores colocam que esse posicionamento também é essencialmente grego. Propago a acentuada percepção da tragédia. A realidade última é essencialmente má. A dor é o que caracteriza a existência. "Viver é sofrer", é a máxima schopenhauriana. E não há saída para o dilema da vida senão a morte - nesse ponto eu me afasto desse autor e uso algumas idéias estóicas e cínicas. O suicídio é éticamente legitimado enquanto tiver por objetivo a falta de significação - a capacidade de percepção é apenas probabilística. A vida é em vão, deus está morto - retorno a Nietzsche -, o abandono e a orfandade permeiam a existência humana, o que justifica a forma de estruturação da sociedade (Kant). Não há outro desejo existencial senão a morte.


* Teologia

Deus, caso exista, é imanente ao mundo - mais uma vez, influência estóica e cínica, mas também Espinosa. A transcendência afasta toda possibilidade de convergência entre homem e o divino. O divino perpassa a realidade empírica e o próprio homem é um deus - acentuada influência de todas as correntes clássicas -, apesar de sua queda do paraíso, da dúvida, da dor, do abandono e dificuldade de percepção de significação.



Termino aqui essa extensa resposta aos queridos amigos do Apostolado Shemá. Antes, contudo, exponho umas considerações de Dom Orlando Brandes, bispo da Diocese de Londrina/PR. Seu artigo se intitula Patologias Religiosas e se encontra no site da Pastoral da Família, organismo vinculado à CNBB.


"1. O fundamentalismo. Consiste em interpretar os escritos religiosos aos pé da letra, numa ótica tradicionalista, conservadora, rigorista. O texto sagrado vira tabu, ídolo, fetiche. Não há lugar para interpretação, mas para o fanatismo, a ideologia e interesses de classe. O fundamentalismo impede o ecumenismo.


2. O indiferentismo. Afirma que todas as religiões são iguais ou que elas são desnecessárias, inúteis, marginais. Cada um faz o que bem entende, conforme as necessidades ou vantagens pessoais. Para o indiferentismo a religião depende do gosto de cada um. O indiferentismo ignora a transcendência e a abertura natural ao divino, a fé e a opção de fé.


3. O proselitismo. É a manobra, a tática, pra conquistar fiéis, com propaganda religiosa à custa de condenações das outras religiões e de artimanhas para atrair adeptos. O proselitismo consiste em rebaixar, ridicularizar, combater as outras religiões, colocando-se numa situação de superioridade e vantagem. O proselitismo é antiético, interesseiro, sectário.


4. a idolatria. São coisas que divinizamos e colocamos no lugar de Deus. Ídolo é um deus falso. Os ídolos mais adorados pela humanidade são: o dinheiro, o poder e o sexo. Estas realidades são absolutizadas, divinizadas, endeusadas. Há uma infinidade de ídolos, entre eles a fama, a raça, a pátria, o time, o partido etc. Vencemos a idolatria com o primeiro mandamento, a conversão do coração, a fé em Deus uno e único.


5. O ritualismo. É o cuidado com as aparências, as normas e as leis, mas o coração está longe de Deus e do próximo. Eis o culto falso, impecável na celebração, mas cheio de simulação, falsidade, incoerência interior. Vestes de seda, cálices de ouro, cerimônias solenes e impecáveis, mas, pouca oração, pouco perdão, falta de caridade e de missão, eis o rosto do ritualismo. Vencemos o ritualismo com a vida interior profunda, a caridade e a misericórdia, a oração e a ação.


6. O fanatismo. É o excessivo apego religioso, defesa apaixonada e cega da religião ou de elementos religiosos que leva à intolerância, rigidez, exaltação, violência e animosidade. O fanatismo alimenta o radicalismo aliado às ideologias a interesses políticos e à dominação. A superação do fanatismo se faz com o diálogo interreligiosos, a relação entre ciência e fé e também com leis inibitórias, quando fere os direitos humanos e a reta razão.


7. A mundanidade espiritual. É fazer da religião, do altar, da Igreja um pedestal para projeção de si, exibicionismo, busca do prestigio, fama. Deus vem em segundo lugar e serve de trampolim para a vaidade humana. A religião vira show e interesse financeiro. É preciso aqui a purificação do coração, a conversão interior.


8. A guerra religiosa. As divisões, brigas, rixas, agressões, mentiras de uma religião contra a outra, são um escândalo que prejudica as pessoas, as comunidades, revolta a sociedade. Estas atitudes trazem descrédito, afastamento e decepção da sociedade, e pior, ateísmo e indiferença. Precisamos de unidade, tolerância, diálogo e respeito. As religiões não podem prejudicar a humanidade.


9. O ridículo. A religião é fascinante, mas o ridículo ronda o mundo religioso. Onde há fanatismo, magia, falta de teologia, discrepância entre ciência e fé, há o risco do ridículo, do exagero e do misticismo. Como é importante, o estudo da religião, a teologia, a ciência, Beatices, magias, crendices, esquisitices e radicalismos estão longe da verdadeira religião e são expressões ridículas da experiência religiosa.


10. O intimismo. É a fé sem obras, religião sem amor fraterno, oração sem ação. O intimismo religioso, é o culto só com os lábios, a separação entre fé e vida, fé e justiça, fé sem profecia, sem promoção humana. A carta do apóstolo Tiago define a religião como: “visitar órfãos e viúvas em suas tribulações e guardar-se da corrupção deste mundo” (Tg 2, 27). Eis a necessidade de catequese, leitura e formação bíblica, teológica e religiosa."



A todos, paz e bem, salamaleico, shalom, axé.


Breno Bastos
Gerente do Portal Veritas







Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.