Posidônio: Antropologia e Moral

Seguindo os passos de Panécio, Posidônio continuou e aprofundou a polêmica contra a psicologia de Crisipo, o qual negou, como sabemos, a existência de um componente não-racional na alma e reduziu a paixão a puro erro de juízo da razão. Mas, se assim fosse, o tumulto das paixões na alma humana permaneceria inexplicável.



Posidônio não hesita, portanto, em remeter-se à psicologia de Platão, e afirma a tripartição da alma humana, admitindo, junto com a alma racional, a alma apetitiva e a alma irascível. Mais que de "partes", Posidônio fala de "forças". Mas a correção mais evidente de Platão é dada pela materialização da alma: ele, com efeito, segundo a doutrina estóica, faz essas forças procederem do coração. 1

Posidônio interdita-se assim a compreensão do essencial significado metafísico da doutrina platônica da alma. Todavia, a tese platônica das três formas da alma serve-lhe para interpretar o agir humano mais corretamente do que Crisipo. Solicitadas pelos sentidos, a força apetititva e a força irascível da alma podem torcer a razão e induzi-la a dar assensos indevidos e, por isso, podem desviá-la do justo telos e fazê-la errar. Por consequência, a tarefa do homem fica melhor determinada: ele deve reforçar a razão, que é o bom demônio, de modo a poder vencer e dominar sempre as forças irracionais, que são os maus demônios que ele traz dentro de si.

Escreve Posidônio, com referência a Crisipo, como testemunha Galeno:

"A causa das paixões e, portanto, de uma vida incoerente e infeliz, é não seguir em tudo o demônio que lhe é congênito e que tem a mesma natureza de quem rege todo o universo, mas deixar-se levar, consentindo no pior e no apetite animalesco. Mas eles [os seguidores de Crisipo], ignorando isso, não dão nesse campo uma razão melhor das paixões, nem pensam retamente sobre a felicidade e sobre o acordo com a natureza. De fato, não vêem que nela, antes de tudo, trata-se de não se deixar arrastar pelo que de irracional, maléfico e ateu existe na alma. Assim Possidônio mostrou claramente até que ponto Crisipo e os seus erram, não só no raciocínio sobre as paixões, mas também sobre o fim. Com efeito, viver segundo a natureza não é como eles dizem, mas como ensinou Platão." 2


Viver Segundo a natureza significa seguir a razão, a qual é da mesma natureza do princípio regente do universo e, por isso, é qualificada de divina, e é chamada o bom demônio em nós; significa dominar o irracional, que é o oposto da razão e, por isso, qualificado como o elemento maléfico e ateu, o mau demônio.

Como na teologia, também na psicologia posidoniana desenha-se certo dualismo, ademais infundado ontologicamente, no que se refere à concepção materialista da alma. É verdade que Sêneca relata a seguinte afirmação:


"A mais elevada atividade que o homem pode desenvolver é a virtude: mas a esta prende-se a carne inútil e corruptível, como diz Possidônio, boa somente para ser alimentada." 3


Todavia, não podemos dar muito peso a tal afirmação. Com efeito, vale o que observa Laffranque: "Ou Possidônio está parafraseando outro autor, por exemplo Platão ou, a rigor, Crisipo; ou então esta afirmação exprime apenas uma figura de estilo, uma antítese destinada a sublinhar a diferença, de fato grande na sua concepção, entre o hegemônico e todo o resto do homem." 4

Outra prova disso pode ser deduzida também do fato de Possidônio ter enumerado entre os bens alguns "indiferentes". Relata Diógenes Laércio:


"Como, de fato, propriedade do quente é aquecer, não esfriar, assim também, propriedade do bem é beneficiar, não prejudicar; a riqueza e a saúde oferecem mais danos do que vantagens, portanto, nem a riqueza é um bem, nem a saúde. Ademais, eles dizem que não é um bem aquilo de que se pode fazer bom e mau uso; dado que tanto da riqueza como da saúde pode-se fazer bom e mau uso, nem a riqueza é um bem, nem a saúde. Posidônio, todavia, enumera também estas últimas entre os bens." 5


E um pouco adiante:


"Panécio e Posidônio sustentam, todavia, que a virtude não é suficiente, mas que é preciso também boa saúde, abundância de meios de vida e força." 6


Aqui Posidônio segue, evidentemente, Aristóteles, adotando o mesmo ponto de vista do seu mesmo Panécio, que ilustramos acima: saúde, vigor e semelhantes são bens, enquanto são condições que favorecem o exercício da virtude. Esta reavaliação dos "intermediários", todavia, não chega a trasnformar o grande princípio estóico segundo o qual só o bem moral é verdadeiro bem e a dor física não é verdadeiro mal, como resulta do célebre testemunho de Cícero, que reproduzimos:


"Vi pessoalmente Possidônio diversas vezes, mas quero referir dele o que contava Pompeu. Retornava da Síria, Pompeu, e, chegando a Rodes, quis ouvir a Posidônio. Disseram-lhe que ele estava muito doente - sofria um violento ataque de artrite -, mas ele quis assim mesmo ir ao encontro daquele grande filósofo. Quando chegou diante dele e saudo-o, fez os seus elogios e disse que sentia muito não poder ouvi-lo. Então Possidõnio disse: 'Não, não: não permitirei nunca que, por causa de uma dor física, um homem como tu tenha viajado em vão.' E assim Possidônio, deitado sobre o leito, contava Pompeu, discutiu com profundidade e eloquência justamente a tese de que não existe nenhum bem a não ser o bem moral; e nos momentos em que a dor era mais pungente repetia: 'A tanto não chegas, ó dor! És opressora, sim, mas nunca admitirei que és um mal.'" 7




Notas:

1. Cf. Lafranque, Poseidonios, p. 429

2. Galeno, De Plac. Hipp. et Plat., V, 6, p. 448 (= von Arnim SVF, III, fr. 460 = Edelstein-Kidd, fr. 187 = Theiler, fr. 417)

3. Sêneca, Epist., 92, 109 (= Edelstein-Kidd, fr. 184 = Theiler, fr. 449)

4. Lafranque, Poseidonios, p. 431

5. DL, VII, 103 (=Edelstein-Kidd, fr. 171 = Theiler, fr. 425 a)

6. DL, VII, 128 (=Edelstein-Kidd, fr. 173 = Theiler, 425 c)

7. Cícero, Tusc. disput., II, 25, 61 (=Edelstein-Kidd, test. 38 = Theiler, tes. 18)




REALE, Giovanni. História da Filosofia Antiga. Vol. III. São Paulo: Loyola, 1994. p. 380-383




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Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.