Epicteto: diáiresis e proáiresis

Epicteto nasceu em Hierápolis, na Frigia, entre 50 e 60 d.C. Pouco depois de 70 d.C., quando ainda era escravo, comeqou a frequentar as aulas de Musonio, que Ihe revelaram sua propria vocação para a filosofia. Expulso de Roma por Domiciano, juntamente com outros filosofos (em 88/89 ou em 92/93 d.C.), deixou a Italia, retirando-se para a cidade de Nicópolis, no Épiro, e fundou uma escola que alcanqou grande sucesso, atraindo ouvintes de todas as partes. Não se conhece a data de sua morte (alguns pensam em 138 d.C.). Querendo aterse ao modelo socratico do filosofar, Epicteto não escreveu nada. Felizmente, suas aulas eram frequentadas pelo historiador Flavio Arriano, que (talvez na segunda década do sec. I d.C.) teve a feliz idéia de por seus ensinamentos por escrito.
Nasceram assim as Diatribes (Discursos ou Dissertações) em oito livros, dos quais quatro chegaram até nós. Arriano também compilou um Manual (Encheiridion), extraindo das Diatribes as maximas mais significativas.

O grande principio da filosofia de Epicteto consiste na divisão das coisas em duas classes:


a) aquelas que estão em nosso poder (ou seja, opiniões, desejos, impulsos e repulsões);

b) aquelas que não estão em nosso poder (ou seja, todas as coisas que não são atividades nossas, como, por exemplo, corpo, parentes, haveres, reputação e semelhantes).


O bem e o mal residem exclusivamente na classe das coisas que estãoem nosso poder, precisamente porque estas dependem de nossa vontade, e não na outra classe, porque as coisas que não estão em nosso poder não dependem de nossa vontade.

Nesse sentido, não ha mais lugar para compromissos com os "indiferentes" e com as "coisas intermediárias". A escolha, portanto, é radical, peremptoria e definitiva: não se pode buscar as duas classes de coisas a0 mesmo tempo, porque umas comportam a perda das outras e vice-versa. Todas as dificuldades da vida e os erros que se cometem derivam de não se levar em conta essa distinção fundamental. Quem escolhe a segunda classe de coisas, isto é, a vida fisica, os bens, o corpo e seus prazeres, não so vai ao encontro de desilusões e contrariedades como também perde até a liberdade, tornando- se escravo das coisas e dos homens que constituem ou concedem os bens ou vantagens materiais. Quem, ao contriário, rejeita em bloco as coisas que não dependem de nos e se concentra nas coisas que dependem de nos torna-se verdadeiramente livre, porque confronta-se com atividades que são nossas, vive a vida que quer e, consequentemente, alcanla a satisfação espiritual, a paz da alma.

Ao invés de por como fundamento moral um critério abstrato de verdade, Epicteto colocou a prohairesis. A prohhiresis (pré-escolha, pré-decisão) é a decisio e a escolha de fundo, que o homem faz de uma vez para sempre e com a qual, portanto, determina o diapasão do seu ser moral, e disso dependera tudo o que fará e como o fará.

Está claro que, para Epicteto, a autêntica prohairesis coincide com a aceitação do seu grande principio, que distingue as coisas que estão em nosso poder das coisas que não estão em nosso poder, estabelecendo que o bem esta exclusivamente nas primeiras. Fica claro que, uma vez realizada essa "escolha de fundo", as escolhas particulares e as ações singulares brotarão como consequência dessa escolha. Assim, a "escolha de fundo" constitui a substancia de nosso ser moral. Consequentemente, Epicteto pode muito bem afirmar: "Não és carne nem pêlo, mas sim escolha moral: se esta for bela, seras belo."

Para o leitor moderno, a "escolha de fundo" poderia parecer um ato de vontade. Se assim fosse, a ética de Epicteto seria urna ética voluntarista. Mas não é assim: a prohairesis é ato de razão, juizo cognoscitivo. A "ciência" socrática continua sendo o fundamento da prohairesis.

Epicteto não rejeita a concepção imanentista própria da Estoa, mas injeta-lhe fortissima carga espiritual e religiosa. Desse modo, embora não levando a urna superação do panteismo materialista, os fermentos que ele introduz levam a uma posição que se encontra no limite da ruptura, atingindo a doutrina da velha Estoa em varios pontos.

Deus é inteligincia, ciência, bem. Deus e providência, que não cuida somente das coisas em geral, mas também de cada um de nós em particular. Obedecer ao logos e fazer o bem, portanto, significa obedecer a Deus e fazer sua vontade. Servir a Deus quer dizer, também, louvar a Deus. A liberdade coincide com a submissão à "vontade de Deus".

O tema do parentesco do homem com Deus, que ja era tema da antiga Estoa, também assume conotaqdes fortemente espiritualistas e quase cristis em Epicteto.

Infelizmente, como ja vimos verificarse com Sineca, Epicteto tambkm nio soube dar adequado fundamento ontologico as novas instincias que propunha. Tudo o que Epicteto nos diz sobre o homem (sobre a "escolha de fundo") estaria teoreticamente bem mais correto se colocado no imbito de urna metafisica dualista de tip0 plat6nico do que posto no campo da concepqiio monistico-materialista da Estoa. Assim, tudo o que ele diz de Deus implicaria em aquisiqdes metafisicas ate mesmo mais maduras do que as alcanqadas por Plat50 e Arist6teles a esse respeito.


REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Filosofia Pagã Antiga, v. 1. São Paulo: Paulus, 2003. p. 367-368



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Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.