São Francisco e os Gays

Por Breno Lucano

Uma das marcas da biografia de Francisco fora sua opção deliberada pela marginalização. O renomado estudioso do franciscanismo Raoul Manseli afirma que seu encontro com o leproso, encontro esse que culminou no conhecido beijo, através do qual "o que fora amargo se torna doce", desencadeara no conhecido comerciante de tecidos uma reviravolta de valores que culminará em sua vida de pregador itinerante. Sua vida próxima aos leprosos - mais relatada no Legenda dos Três Companheiros que nas Vitas de Celano - fora palco de discurssão sobre a importância daqueles que eram maculados pela praga da lepra.

O momento exato em que Francisco os deixou - se é que isso ocorreu - não nos é preciso. Mas é certo afirmar que fora o primórdio de um gênero de vida até então não conhecido na Idade Média, época em que era impossível pensarmos em vida eclesiástica que não fosse restrita aos mosteiros, onde, embora pobres individualmente, se era rico coletivamente. Não havia fome e a vida era segura e estável.


Mas Francisco foi além de seu tempo, porque possuía outro Pai, o que mora no céu. Em termos psicológicos, essa transformação foi gradativa e sempre persistente, embora não fosse um homem - ainda segundo Manseli - perdido num mundo de sonhos. Sempre esteve junto dos marginalizados, dos desprezados, dos Menores, segundo a linguagem corrente de Assis do século XII. E o pior dos marginalizados era justamente o leproso, aquele que fora marcado por Deus com a lepra, como castigo de seus inúmeros pecados.

Embora a imagem simbólica da lepra não exista mais na atualidade - mas tão-somente como sub-produto de um preconceito culturalmente formado -, temos outras formas de lepra, mais conforme a vida contemporânea. O símbolo da lepra fora empregado pelo do menor de rua viciado em crack, da mulher espancada pelo marido, pelo negro que ainda hoje luta pela igualdade racial, pelo desempregado que briga por seus direitos.

Temos um gênero de lepra que se tornou popular na última década: os gays. Frequentemente vemos religiosos de diferentes correntes, políticos e pessoas das mais variadas criticando aquilo a que chamam de ditadura gay. Usam enfaticamente a Bíblia para justificar pontos-de-vista particulares, disseminando ódio, medo e preconceito.

É compreensível! Fomos criados numa cultura em que o sexo, em suas mais variadas expressões, sempre fora visto como pecado, algo que deveria ser evitado e praticado no anonimato. Por muito tempo, a noção teológica de pecado possuiu seu foco essencialmente focado no sexo. Não por menos, os filósofos libertinos foram, talvez, os mais criticados.

Mas há uma dimensão na homocultura que deve ser observado: a do preconceito. Muito do que se fala é movido por ignorância e medo. Repele-se o que não se conhece e aquilo que se tem medo. Temos a imagem esteriotipada do gay como aquele sujeito que se veste de mulher, faz programa na noite, se contamina dom HIV e morre sozinho e infeliz. O preconceito impede de observar o que há por trás do sujeito que se manifesta historicamente como gay. Ignora-se se ele nasceu aqui ou ali, em que trabalha, quais suas realizações, quantas pessoas ajudou, a quantas foi fiel. Todos seus atributos são obscurecidos unicamente por um único predicado: ser gay.

No final dos anos 70, um jovem americano chamado Bobby Griffith assumiu-se gay. Sua mãe, devota presbiteriana, achava que Deus o poderia curar de sua "doença". Não o aceitava como filho. Secretamente, em seu diário, Bobby escrevia pensamentos como: "Eu não posso deixar que ninguém saiba que eu não sou hétero. Isso seria tão humilhante. Meus amigos iriam me odiar, com certeza. Eles poderiam até me bater. Na minha família, já ouvi várias vezes eles falando que odeiam os gays, que Deus odeia os gays também. Isso realmente me apavora quando escuto minha família falando desse jeito, porque eles estão realmente falando de mim... Às vezes eu gostaria de desaparecer da face da Terra."

A não aceitação de sua mãe, Mary Griffity, o medo de ser agredido, a rejeição, sua auto-rejeição, o fizeram pular de um viaduto em frente de um caminhão, provocando morte instantânea.  Após momentos de dúvida, abandono e de perdão, Mary se torna uma das maiores defensoras dos direitos civis da comunidade LGBT. Esta bela e trágica estória é contada no filme Orações para Bobby, estrelado por Sigourney Weaver.

Os que sugerem que os gays são sodomitas ignoram que estórias assim se repetem todos os dias. Muitos são expulsos de casa, rejeitados, espancados nas ruas -a exemplo do rapaz que fora atacado com uma lâmpada fluorescente na Av. Paulista recentemente -, baleados por militares - como na parada gay do Rio em 2010. A cada vez que falamos que são anormais, extraímos sua dignidade, seu amor próprio, sua saúde psíquica. Os obrigamos a mentir unicamente para manter o amor das pessoas. E, às vezes, o dano é tão profundo que não há mais reparação...

Só em 2010 foram mais de 260 homicídios de gays, lésbicas e transgêneros em todo o país. A cada dia e meio, novos Bobbys morrem pelo Brasil pela "vontade de Deus" e pela preservação da moral e da família. Pergunto-me como franciscano, como cristão, mas acima de tudo, como homem, se esses acontecimentos condizem com o que esperamos de um país que é constitucionalmente laico e democrático e se todos possuem realmente os mesmos direitos. Eu não sei.

Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.