Para Que Serve a Filosofia?

por Breno Lucano



Ὅτι πᾶν ὑπόληψις.

"Tudo é questão de opinião."

Marco Aurélio
Meditações, II: 15




Quem nunca ouviu a pergunta: qual a função da filosofia? Num mundo tecnológico, acorrentado pelos afazeres próprios da pós-modernidade, atrelado de compromissos, reuniões, metas, horários, jantares com clientes, tal pergunta parece, no mínimo, ingênua. Ora - dirão os incrédulos -, o mundo atual não se ocupa das reflexões existenciais, não se entretém de investigações últimas sobre os fundamentos das coisas. Não há tempo para tanto.

Que seja. Vivemos e precisamos de títulos, mais do que de reflexões. E os títulos determinam a substância do sujeito. Em outras palavras, os títulos configuram a essência do sujeito na história. Claro, damos maior importância para o que o professor doutor informa do que àquele que nunca ocupou um banco de sala de aula. Somos aquilo que o diploma nos faz ser. E o diploma nos informa onde podemos ir, com quem podemos estabelecer relações, o que podemos pensar. Ele age como uma garantia de instrução, capacitação e adequação: nada há que não tenha sido galgado pelo título.



A instrução pressupõe sabedoria. Pode-se proferir sem medo de errar porquanto tudo já foi lido, estudado, refletido. Todas as indagações são substituídas por certezas máximas, dogmáticas. Aquele que ministra um tema o faz com conhecimento de causa, de fundamentos, de alicerces. E aqueles que ouvem esse ministério se colocam na posição daquele que nada sabe, tudo deve aprender, ler e refletir, de preferência em conformidade com o ministro. Se o aluno envereda por caminhos próprios ele comete erro intelectual porquanto o professor é o norte, único meio legítimo de conhecer.

O libertarismo se faz necessário nesses meandros. Relembremos Sócrates: temos no filósofo de Atenas a figura do investigador, aquele sujeito chato e tagarela que desmantela todas as certezas dos sofistas. Onde quer que encontrasse uma afirmação, tínhamos a pergunta; onde quer que a verdade se evidenciasse, a dúvida se estabelecia. A partir de Sócrates, que, por meio da maiêutica desconfigurava as idéias vigentes, o que se sabia deixava de ser um saber.

Mas as investigações não cessavam na dúvida, sendo apenas o princípio. Das dúvidas, derivaríamos as conclusões, as certezas, justamente aquilo que se combatia inicialmente. Substituía-se, portanto, as certezas do senso comum - as certezas nossas de cada dia, construídas socialmente - pelas certezas reflexivas, oriundas de árduo trabalho intelectual e conceitual. Mas não deixam de ser certezas. A diferença consiste apenas no diploma que sustenta umas em detrimento de outras.

Não tenho dúvidas de que precisamos de algumas certezas para que o mundo ocorra, para que, como Pirro, duvidando da morte, não se lance num despinhadeiro. Não merece descrédito o sujeito que se preocupa moderadamente com o futuro de modo a construir elementos satisfatórios para a sua velhice. Mesmo assim, Pirro possui algo de libertário. E essa certeza se instala na primazia da investigação contínua. Não mais como um estóico que possui todas as certezas - como os marxistas, liberais e psicanalistas da atualidade -, mas como alguém que, mesmo sendo estóico, sustenta que pode haver elementos equivocados em suas reflexões, o que o leva sempre à superação e aprimoração. Não se firma como um portador de título que, tudo sabendo, entende Epicuro como párea ou Aristipo uma aberração.

Então, se perguntassem novamente o que nos leva a fazer filosofia, eu responderia: antes de tudo, para compreendermos as diversas formas de se pensar, não descartando-as como elementos insignificantes, mas adentrando em seus átrios, mergulhando em seus abismos, conhecendo as minúncias de um mundo complexo que se mostra à nossa frente. E a consequência de tudo isso é que nos tornamos pessoas melhores.



Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.