Do Hedonismo

por Breno Lucano

Muito se fala do hedonismo. Ou melhor, contra ele. A filosofia dominante, ascética, preocupada com o Uno, com a eternidade e o supra-sensível, sempre o relegou como um sistema de segunda categoria. Os sistemas d'O Livro, em sua busca obsessiva pela morte-em-vida, o acusaram - e ainda o acusam! - de escravo das paixões, libertinos devassos, glutões. Falta-lhes o essencial, falta-lhes a compreensão do que seja essa proposta ética para que se possa fazer qualquer análise.

O hedonismo nunca se configurou como uma busca pelo prazer em si, isoladamente das circunstâncias. Consciência e gozo partilham um binômio perfeito: o segundo precissa necessariamente do primeiro para existir. De modo que não podemos pensar em prazer sem reflexão do que o produz. O gozo dos animais, por exemplo, nunca interessou a Aristipo. Como seria, aliás, um prazer sem que a consciência, a razão, a cultura e a reflexão não dessem nenhuma forma? Teríamos tão somente uma descarga nervosa percorrendo os feixes de um corpo descelebrado, inerte, imóvel, um espasmo perdido no cosmo. E nada mais.



Todo prazer, por outro lado, e, também o de Aristipo, deve ser desejado, almejado, escolhido, dominado, refinado, produzido por seus próprios cuidados. Não excede aquele que o produz e não o leva mais longe que ele, deixando-o perdido em êxtase. O gozo consiste em não ser nem consumido nem queimado pelos prazeres, mas aquecido por eles. Assim, as orgias e devassidões de que tanto acusam os hedonistas não lhe são prazeres reais e as acusações se perdem por ausência de compreensão e conhecimento do acusador. O hedonismo não se priva dos instrumentos que produzem júbilo, a saber: a consciência clara e objetiva dos limites do prazer, a análise de qual prazer a ser eleito.

As satisfações são múltiplas, mas tomam sempre o mesmo caminho. O gozo esperado deve ser sempre colocado na perspectiva do outro, em relação ao outro. Um prazer pessoal, sem o outro, pode rapidamente tornar-se um prazer apesar do outro, contra ele. O hedonismo é a preocupação do júbilo de si ao mesmo tempo que para o outro.

Todo hedonismo é dinâmico. Não há possibilidades sem o outro. E isso não ocorre por amor ao próximo, mas pela trajetória do próprio gozo. Todo prazer que proporciono encontra como resposta o prazer que me é proporcionado. A falta de simetria implica numa falta de ética, rompimento do contrato hedonista e queda para o egoísmo. Por isso o hedonismo apenas é possível às almas maleáveis, leves e atentas. Ele é aristocrático e seletivo.

Não podemos falar em hedonismo que não indique lucro para ambas as partes: suplemento de alma, aumento de volúpias, entessouramento de prazeres e dividendo em matéria de ser. Trata-se de uma moral refinada e matematizada, uma ética que preconiza sempre um cálculo apurado de todos os prazeres possíveis de se adquirir e proporcionar, bem como as condições de sua máximo realização.

O ideal hedonismo celebra, portanto, não o excesso dionísico como dirão os preceptores ascéticos, mas a uma vida contagiante e solar. Uma existência fulgurante que nada espera senão aquele momento único e oportuno de desfrute: o prazer de viver.


Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.