Lorenzo Valla e a Volúpia em Deus

por Breno Lucano

Todos se recordam do epicurismo cristão de Gassendi. Mas são poucos os que lembram que o primeiro a reconciliar dois blocos tão distantes na história do pensamento foi o romano Lorenzo Valla (1407-1457).

Anticlerical, certamente. Mas nunca ateu. Em momento algum Valla promove o materialismo, reforça o atomismo ou desconstrói Deus. Antes, Deus é verdade eterna que apenas é compreendido por meio da fé, em detrimento das sutilezas escolásticas, dos labirintos tomistas e dos meandros dialéticos. Não questiona a existência de Deus, mas deseja Sua reinterpretação. O romano não pretende a um ataque à religião, mas uma purificação de sua mensagem, depois um retorno a seus princípios éticos e genealógicos. Cristo, o filósofo por excelência, deve ser preservado. Os ataques dizem respeito à Igreja, ao Papado, e se concentram, sobretudo, em seu famoso texto Doação de Constantino.



A existência de Deus é atestada em Diálogo Sobre o Livre-Arbítrio. Mais que isso: é relacionada com o popular dilema da liberdade. Vejamos. Se Deus existe, sabe tudo, vê tudo, prevê tudo, como seria Valla capaz da liberdade? Se a capacidade de escolher não existe, os homens não podem ser considerados culpados pelo que são, fazem ou falam. Sem culpa, portanto também sem punição.

Além disso, se não podemos pensar Deus sem os atributos que O qualificam, o que desencadearia franco determinismo, como acreditar na possibilidade de se redimir, se melhor e ser perdoado. Porque apenas se perdoa e se redimi à medida em que o pretenso culpado pode se realinhar à Deus. Toda esperança de nos tornar diferente por meio da vontade desaparece e dá lugar a integral determinismo: não é necessário ser cristão se, no final das contas, o juízo já fora previamente determinado. Os atos possuem pouca importância. E, se possuem pouca importância, então tudo é permitido moralmente.

Com o intuito de superar tal aporia, Valla demonstra que, embora Deus possa prever os acontecimentos, Ele não os obriga a se realizarem. Prever não é predizer. Quando Deus prevê um acontecimento, não é Ele mesmo sua causa: sabe o que acontecerá, mas não O quer. A causa se encontra em outro lugar, na vontade livre do homem. Deus não quer o uso que os homens fazem dele, embora, por ser Deus, seja capaz de prever o que ocorrerá.

Mas ficam as perguntas: o que quer Deus? Como quer? Há limites para o querer. Nesse ponto Valla silencia. Até mesmo os anjos são desprovidos de respostas para tais perguntas. A vontade de Deus é impenetrável, não sendo objeto do saber, mas da fé. Vale notar que o silêncio de Valla não se localiza numa falta de recursos teóricos para a elaboração dessas respostas, mas num entendimento de um Deus que deve mais ser vivido que pensado.

Em Sobre o Prazer Valla envereda por brechas epicuristas. O prazer não é superado por um ideal ascético, mas utilizado como possibilidade de se utilizar da alegria, do júbilo e da satisfação em nome de Deus. O prazer de se caminhar e chegar em Deus, é nisso que o cristianismo se aproxima do Jardim.

De Epicuro, o romano retém o conceito de prazer enquanto ausência de perturbação - a famosa ataraxía. Longe das paixões triviais, distante das afecções passionais da alma que, aliás, todas as filosofias antigas se propõem, deve-se tornar-se amigo de si, desfrutando o prazer pelo simples fato de existir enquanto criatura de Deus.

Devemos amar Deus, mas não da maneira estóica, como um triste e heróico consentimento ao criador, mas pela felicidade que se extrai de sua aproximação, como seu amigo. O prazer não é desordenamento, mas quietude de alguém que se encontra com Deus, se associa a Ele, penetra na salvação. 

O prazer é comemoração e aguardo das satisfações pessoais e dos outros. Beber bons vinhos, comer finas iguarias, rejubilar-se com a beleza dos homens e das mulheres, gozar de saúde, exercer ao máximo os sentidos para a auto-realização. E a realização apenas é possível mediante o uso do instante, a melhor utilização deste mundo aqui e agora. O corpo sensual, antes um receptáculo da perdição, passa a ser o caminho para a salvação.

Todas as leis pressupõem um fim dissociável da virtude - o prazer. As leis devem ser seguidas, não por serem leis, não por elas mesmas, mas porque a obediência acarreta mais prazer que desprazer. A transgressão implica em culpabilidade, em penas e castigos: em última instância, dor. Obedecer gera prazer uma vez que evita o desprazer.

Valla foi autor original. Aqui religião e prazer não se distanciam, as duas instâncias não se contradizem. Antes, se completam. As virtudes teologais - fé, esperança e caridade - poderiam se associar a uma quarta: o prazer. Fé e prazer formam, assim, um mesmo trajeto no mundo das idéias.




Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.