Erotismo em Onfray

por Breno Lucano

Em Michel Onfray - o que não é novidade para ninguém -, a base da filosofia  se cristaliza na desmistificação da religião e do ascetismo enquanto modelos de ética, política, estética, erótica. Em todos os seus trabalhos, desde o primeiro até o último, o ataque frontal a Deus, sobretudo em seu aspecto monoteísta, sobressai e fundamenta seu pensar. Esse ataque, notável por sinal em Tratado de Ateologia, dá vasão a um materialismo hedonista e libertário. Mas libertário em que sentido? De que modo ele se vincula ao erotismo?

Vejamos. Nossa cultura judaico-cristã se familiarizou com a idéia do amor enquanto carência, falta. Maldita herança de Platão. Homens e mulheres provêm de uma unidade mítica perdida e dissociada com o passar dos tempos e, sob esse prisma, surge o amor enquanto força capaz de uni-los novamente, restabelecendo a unidade. Homem e mulher se encontram num belo dia e se apaixonam. Dessa paixão surge o casamento, instituição sagrada porque querida por Deus. A unidade - codificada pelo casamento - se consolida na união sexual no seio do matrimônio que, por último, gera os filhos. Homem, mulher, filhos: família feliz, família concreta. E Deus viu que era bom!




Mas a família se modela naturalmente. Assim como Deus Pai coordena o mundo, o homem - agora Pai, já que gerou filhos - também coordena a família. A repartição social da família se dá em relação à progenitura. Para a mulher, apenas cuidar do fogo, da casa, cozinhar, tecer, fiar a lã, cuidar e educar a prole. Ontem como hoje, a dominação do homem-pai sobre a mulher-mãe. A sexualização das relações existem, sem dúvida. Mas sempre sob a perspectiva de filhos. As relações sexuais dissociadas do casamento são proibidas. O casamento é, aliás, a forma criada por Deus para o sexo seguro.

Onfray nomeia esse perfil de relações religiosas de Eros Pesado, caracterizada por uma imposição ascética sobre os desejos, reprimindo-os, recalcando-os, mobilizando forças de desnaturação de uma egodicéia que deveria conduzir à realização. A libido, antes como potência de autonomia, é vista pelos religiosos como catalizadora de angústias.  Contra esse perfil de massificação de relações, o autor elabora aquilo que ele chama de Eros Leve. Para tanto, a princípio deve-se dissociar amor, sexo e procriação.

Se a repressão dos desejos sexuais é propagada por são Paulo em suas diferentes Epístolas tendo em vista um casamento santo, de amor eterno e um lar fecundo com muitos filhos, em Onfray temos o inverso. A renúncia do amor eterno não implica na perda da ternura e doçura nas relações. Em Potência de Existir, reitera seu posicionamento:

"Não é preciso carregar a relação sexual de uma gravidade e de uma seriedade a priori inexistentes." (2010, p. 66)

Ora, não querer se comprometer por toda uma vida numa longa estória de amor perfeito e idealizado não esgota a sublimidade da união. Antes, sempre relembrando a leitura trágica que Onfray faz da vida através de seu Condottiere - à imagem do Zaratustra de Nietzche -, as relações podem se dissipar com o tempo. E à medida em que se nega a união prolongada prometida por um matrimônio se propõe a vivência do instante, do viver aqui e agora.

Onfray prossegue em sua explicação em Potência de Existir:

"O eros pesado da tradição indexa a relação à pulsão de morte e ao que dela decorre: a fixidez, a imobilidade, a sedentariedade, a falta de inventividade, a repetição, o hábito ritualizado e descerebrado, e tudo o que faz parte da antropia. Em compensação, eros leve, conduzido pela pulsão de vida, quer o movimento, a mudança, o nomadismo, a ação, o deslocamento, a iniciativa. Para oferecermos um óbolo à imobilidade, sempre nos será mais que bastante o nada no túmulo." (2010, p. 66)

Assim, a dinâmica do eros leve rompe com os limites estabelecidos pela tradição daquilo que é uma família. Onfray deseja desconstruir as estórias mau resolvidas, os amores nunca iniciados, os arranjos fusionais amorosos que, em verdade, sempre foram enfraquecidos pelo eros pesado. Com muita frequência, as estórias se vinculam ao esquema  nada, tudo, nada: existimos separados, ignoramos um ao outro, nos encontramos, nos entregamos à relação, nos apaixonamos. O outro se torna tudo. De um momento para o outro, ele se torna o norte de nossa vida, o aferidor de nosso pensamento, o propósito pelo qual existimos. Repentinamente o outro se torna um estorvo, o cansativo e o repetitivo dão lugar ao tudo e, mais uma vez, retornamos ao nada. Não raro, esse novo nada se acrescenta o ódio e o rancor.

A saída se encontra no dispositivo nada, mais, muito. Dois seres não sabem que existem, se encontram e modulam a relação tendo por base o eros leve. Dia-a-dia eles elaboram o mais: mais ser, mais expansão, mais júbilo, mais serenidade conquistada. Todos esses "mais" qualificam o muito.

Outro aspecto que devemos analisar no modelo familista de Onfray é sua crítica à geração de filhos. Deus deseja a geração. O homem e a mulher - notem: o homem sempre escrito anteriormente à mulher! -, tementes a Deus, também geram filhos, segundo o sagrado modelo Pai, Filho e Espírito Santo ou ainda José, Maria e Jesus. Os filhos asseguram a completude e a concretização da família, como algo capaz de validar a própria instituição. Esse entendimento de geração é perpetuado no monoteísmo e, de modo específico, no Islã: mais abençoado será o homem quanto mais filhos homens tiver!

Mas a possibilidade fisiológica de conceber um filho não obriga a passar ao ato. Poder não indica dever. Temos as perguntas: por que ter filhos? Para quê? Onfray se pergunta, novamente em Potência de Existir?

"Que legitimidade temos para fazer surgir do nada um ser que, no fim das contas, só se propõe uma breve passagem por este planeta antes de voltar para o nada de que provém?' (2010, p. 69)

Sem amor eterno, resta o contrato firmado entre as partes. Lembremos que Onfray segue a linhagem dos pensadores contratualistas, como Rousseau. O amor deve durar, não há dúvida. Mas apenas até o momento em que o contrato for desfeito, em que uma de suas cláusulas for rompida. A união sinalagmática pressupõe a desobrigação das pessoas envolvidas na continuação das combinações. Ninguém é obrigado a prosseguir, ninguém é coagido a permanecer. O contrato estabelece que ninguém é obrigado a firmá-lo caso não seja capaz de cumpri-lo. A fidelidade não se cristaliza numa promessa ante o sacerdote, mas consigo mesmo.

A desconstrução da tradição judaico-cristã assume sua forma na defesa do feminismo. Percebam os textos sagrados: o pecado original, a culpa, essa vontade de saber, passa antes pela decisão de uma mulher. Por isso temos o ódio à figura feminina por tudo aquilo que ela representa: o desejo, o prazer, a vida. Por meio dela perpetua-se a culpa do pecado original, que Agostinho afirma transmitir-se por nascença, no ventre da mulher. Sexualização da culpa.

Culpada, a mulher deve sempre ficar à margem do homem. Suprimí-las, se possível. Esconder o pecado delas com as burkas do Islã. Enquanto cozinham para o marido, cuidam do lar, educam os filhos, a mulher cede espaço para a esposa e a mãe. Para a tranquilidade dos homens o que há de feminino na mulher deve falecer, ser reprimido. Isso porque a mulher representa o erro, o simples erro de existir.

A contenção da carne, dos desejos, da pulsão de vida constitui o modelo de virtude a ser seguido e desejado por deus. Dirá Onfray em Tratado de Ateologia:

"A potencialidade de uma sexualidade desligada da procriação, portanto de uma sexualidade pura,eis o mal absoluto." (2007, p. 86)

À sexualidade pura se entende a geração de filhos, a relação unilateral entre homem-mulher, a superação do homem - ativo - à mulher - passiva. Motivo pelo qual se compreende a condenação enfática da homossexualidade. Porque aqui se vê negada a divina função do pai, da mãe e da geração de filhos. Temos, em última análise a negação de Zaratustra e Condottiere, do indivíduo livre.


Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.