Erasmo de Roterdam e a Louca Alegria

por Breno Lucano

Erasmo de Roterdan
Profundamente influenciado por Lorenzo Valla, Erasmo publica em 1505 suas Anotações sobre o Novo Testamento de Valla. A paixão nutrido pelo latim, sua genuína necessidade de trabalhar textos pretensamente "revelados", de os ler como filólogo, portanto como historiador, Erasmo tem de seu mestre romano, que muito cedo o elogia em sua correspondência.

Afirma que o cristianismo autêntico está associado à loucura. Mas que tipo de loucura? Certamente àquela que nos faz lembrar a felicidade da vida, o prolongamento da infância, a saturação de desejo, a sustentabilidade do casamento, entre outras coisas. Erasmo recorda Cristo, e nada mais. Sua palavra, seu exemplo, seu ensinamento, seu testemunho, sua vida, sua doçura, sua sabedoria, mas nunca os que invocam o contrario - violência, brutalidade, guerra, miséria, exploração. Assim, Erasmo - mas também Valla - criam um outro Cristo, que choca, que é louco, que vai de encontro ao Clero e a Igreja. O objetivo: reformar a Igreja para salvá-la de si mesma.



O vocabulário de Erasmo não engana: alegria, felicidade, beatitude. A união mística com Deus gera um júbilo inesgotável. A purificação, portanto, ao modo platônico, é desnecessário e prejudicial. Deve-se aspirar a loucura da união em Deus, o louco desejo de imitação de Cristo, a louca docilidade do amor. E a forma de tocar esse prazer é o Evangelho. Pouco importam as ameaças dos padres, as decisões do clero, as preces dos monges. Apenas pesa a imitação de Cristo, pobre, humilde, pacífico, doce.

Erasmo cristão. Certo! Mas Erasmo epicurista? Como? De que modo? O último de seus Colóquios - o de número cinquenta e seis -, datado de 1533 e intitulado O Epicurista, Erasmo explica exatamente a relação: o auge do despojamento epicurista é o cristianismo.

Quando se vive como Epicuro ensina, com a resolução de satisfazer apenas os desejos naturais e necessários, descartando todos os outros, com a preocupação de realizar um estado de paz intelectual e de serenidade mental - a ataraxia - identificável com o verdadeiro prazer e com o soberano bem, vive-se como cristão. A vida no Jardim supõe a santidade que o cristianismo autêntico formula à sua maneira. O pecado é substituído por tudo o que destrói a amizade do homem com Deus: a volúpia consiste na tranquilidade da alma em Deus.

Claro que o soberano bem não é o prazer, mas Deus. Contudo, o prazer acompanha a vida do santo, decorre do exercício próprio da loucura. Ninguém vive de maneira mais doce que o homem piedoso. Traça-se aqui o modelo cristão: aquele desprovido de tudo! Sem mulher, sem dinheiro, sem poder senão sobre si. O cristão é aquele homem que, conhecendo as contingências - a morte, a doença, a velhice, o cárcere - está melhor armado para combater as dificuldades da vida.

Em Erasmo - ao contrário do cristão apostólico romano - não busca a dor, também não o aprecia, apenas sabe afastá-la por meio de sua fé. Enfrenta com serenidade as perturbações, já que nenhuma importância possuem ante o que espera no além. Assim, fortalecido por uma esperança de júbilo eterno pela imitação de Cristo, o cristão se rejubila com a vida terrestre, condição para obtê-la. Eis a loucura da Boa Nova!


 

Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.