Último Samurai, o Bushido e a Sabedoria Estóica

Cartaz do filme

Por Breno Lucano

Nunca neguei que Último Samurai fosse um de melhores filmes já assistidos. Articulação entre ficção e  fatos históricos, o filme se passa durante a Restauração Meiji, período caracterizado pela queda do Xogunato Takugawa e pelo crescente contato dos japoneses com o mundo ocidental.

Fascinado pelo desenvolvimento, o Imperador Meiji importa produtos e serviços de países estrangeiros. Excessivamente enraizados em valores tradicionais, os samurais liderados por Katsumoto, dizendo-se servidores do Imperador, se impõem militarmente contra Meiji. Nesse momento, entra o capitão Nathan Algren, o militar perdido em conflitos pelo massacre de índios Cheyenne. Algren, vivido por Tom Cruise, possui a responsabilidade de treinar o exército japonês para uma luta decisiva contra os bárbaros samurais. Feito refém, Algren passa a conviver e a apreciar o estilo de vida samurai, o Bushido. Passando por intensa busca por significação, passa a lutar ao lado dos samurais na batalha final, fazendo o Imperador a rever os valores pelos quais seus ancestrais viveram e morreram e fizeram do Japão uma grande nação.



Foi um filme tenso e tão apaixonante quando Gladiador. Em variados sentidos, Algren se aproxima de Máximo no tocante à sua vontade viril, passional, e, em grande medida, pelo destemor da morte. A semelhança se faz no binômio bushido-estoicismo.

Enquanto código moral de transmissão oral, o bushido (bushi, guerreiro; do, caminho) se estruturou no Japão feudal e serviu de apoio existencial e bélico para a classe guerreira, os samurais. Possui tríplice influência: Xintoísmo, que se caracteriza pela extrema reverência aos antepassados e ao nome da família; Confucionismo, que produz devoção ao seu senhor ou ao imperador, respeito aos pais, idosos e sábios; e Budismo em sua vertente Zen, que confere destemor da morte, equilíbrio mental/espiritual e disciplina. Assim, o caminho do guerreiro foi uma resposta aos homens do passado e os de hoje ao niilismo existencial tão presente em todas as culturas, classes e idades.

O bushido é um alerta para que se viva apenas no presente, repetindo o tema dos antigos estóicos. "... ninguém perde senão a vida que está vivendo, nem vive senão a que se perde" (Med, II, 14) e "O tempo da vida humana: um ponto" (Med, II: 17) são duas dentre as muitas passagens em que Marco Aurélio reflete e tenta se convencer de que lhe resta pouco tempo de vida.  As afirmações aurelianas, que alguns estudiosos da história da filosofia afirmam se tratar de influxo platônico - o que é veementemente negado por meus estudos -, se tratam de uma das teses centrais do sistema proposto por Zenão e Crisipo. Nas categorias estóicas, o tempo é um incorpóreo, assim como o espaço, o exprimível e o vazio. O tempo é um tema tão central quanto extenso no Pórtico, sendo-lhe dedicado um livro apenas para ele: Le Système Stoicien Et L'idée de Temps, publicado por Goldschmidt em 1953.

Para o estóico, em termos mais simples, o tempo inexiste - lembremos que apenas existem corpos. Se o tempo é desprovido de existência, a única coisa que resta é o presente. Rachel Gazolla afirma em O Ofício do Filósofo Estóico que o homem vulgar e insensato, o phaulos, é aquele sujeito que vive em descompasso com o tempo, agarrado ao passado e se projetando ao futuro e, desde que o tempo é um não-ser, gera sofrimento a si mesmo.

O samurai encontra seu paralelo no bushido. Não se preocupa com o passado e futuro porque crê que as dificuldades presentes são carmas originados em algum momento nas sucessivas reencarnações no Samsara. Vê sacralidade em todas as coisas ao redor, em cada flor, em cada xícara de chá, em cada morte pelo fio da espada. Essa reverência e respeito pela vida se manifesta em cada ato piedoso, honrado e digno a que o samurai se impõe.

O sábio estóico, o spoudaiós, nunca erra. O samurai também não. Ambos são respaldados pelo uso da razão, que confere em todas as ocasiões o certo agir. A aparente frieza emocional se encontra nos dois personagens. Se por um lado temos um Máximo que chora e se desespera pela morte da família por Cômodo, temos também uma criança samurai que chora por temor de perder Nathan na guerra. A aparente impassionalidade se contrapõe nos momentos de intimidade e de confronto consigo mesmo.

Temos em Último Samurai um filme que deve ser visto e do qual podemos extrair variadas considerações. E, para os que ainda não viram, não percam tempo. No mínimo, teremos apenas, como eu, apenas mais um praticante de Kendo.

Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.