Saint-Évremond e o Epicurismo Moderno

por Breno Lucano

Mesmo militar, Saint-Évremond se encontrava regularmente com um grande nome da cena intelectual do  século XVII: Pierre Gassendi. Tal como filosofia, assistia suas aulas de astronomia em Paris na companhia de Cyrano de Bergerac.

Após uma longa discurssão sobre os limites da razão, sobre o caráter restrito de seus poderes, sobre a evidente limitação dos nossos conhecimentos, sobre a possibilidade ou incapacidade de se pensar numa ou em várias coisas, Saint-Éveremond conclui: a filosofia não serve para nada! Não há qualquer motivo para investir trabalho, dispensar energia e tempo numa operação que, no final das contas, não trará nenhum benefício.

Houve tempo em que cria nos discursos contraditórios dos mais variados filósofos, desde os gregos até os de seu tempo. Com o avançar da idade, entra em conformidade com o espírito cético e passa a adotar o famoso epokhé cético, a suspensão de juízo, e de buscar incessantemente.  Dá as costas para os dogmas, e o simples prazer em discurssar, e abraça a viva filosofia prática, pragmática, vinculada ao cotidiano. Assim, seu imperativo categórico passa a ser:

"Falando sabiamente, temos mais interesse em aproveitar o mundo do que em conhecê-lo."


Seguir Gassendi, mas esbarrar em Descartes. É provável que tenha lido Meditações Metafísicas (1641) ou Princípios da Filosofia (1644). Não se sabe se conheceu Discurso do Método (1637). Logo conclui que Descartes propunha demonstrar a existência da alma, de uma substância espiritual, imortal. Saint-Éveremond não concorda. Salienta que a religião não convence a ninguém, nem mesmo a um filósofo em busca de si.

O cogito não passa de piada, talvez até de bom gosto, capaz de valer algumas gargalhadas. Nele temos apenas um amontoado de raciocínios insólidos, razões fracas, falta de segurança. Chega até mesmo em parodiá-lo escrevendo em sua Lettre à Monsieur (Carta ao Senhor): "amo, logo sou". Mas Saint-Évremond  não se empenha, como Gassendi, em refutar o cogito cartesiano: para ele a vida vale mais que o discurso.

Descartes, mas também Sêneca entra na lista negra de Saint-Évremond. Não aprecia a literatura, não confia em suas linhas. De sorte que cada afirmação produz logo ímpeto de desmistificação. Evitar honrarias? Mas quem fala é um patrício, preceptor do imperador Nero. Recusar a riqueza? Mas quem ensina é um grande proprietário de terras. Suportar o sofrimento? Sim, tal como aquele que escreve longa apologia ao imperador Cláudio para escapar do exílio.

A distorção entre sua pedagogia e a vida do pedagogo estóico não seria tão grave se não fosse pela longa reflexão sobre a morte. Não se trata, reflete Saint-Évremond, em se saber que vai morrer, preparar a morte, meditá-la todos os dias, viver com o sentimento permanente no pensamento tanatológico, mas em viver, e bem viver. De modo que a melhor forma de abordar o fim derradeira é sabê-lo inevitável. E pronto. Filosofar não é aprender a morrer, mas viver melhor na espera da morte. Mais vale "viver tranquilamente", escreve, "do que morrer com constância".

Saint-Évremond é epicurista, mas não ortodoxo. Talvez mais à maneira dos poetas clássicos, como Horácio e Catulo. Suas idéias sobre o tema se encontram em dois textos: Sur les plaisirs (c.1658) e Sur morale d'Epicure (c. 1684). Antes, Epicuro já fora relido por Lorenzo Valla em Sobre o Prazer e Erasmo em Banquete Epicurista. Mas a verdadeira e definitiva reabilitação deve-se à Gassendi, com Vidas e Costumes de Epicuro.

Do Jardim, retêm o essencial: o soberano Bem reside na volúpia; a existência de um tropismo natural nos conduz a desejar o prazer e a fugir da dor; a necessidade de uma ética imanente indexada na boa e bela vida; a existência de um divino despreocupado com o destino e a ação dos homens; a inexistência do que quer que seja de imaterial; visar o puro prazer de existir. Contudo, faz uma releitura própria de Epicuro à medida em que se afasta de sua moralidade ascética.

Para viver não é necessário refletir ou pensar demais. Aprofundar-se na vida é o necessário e suficiente. Nisto se distancia de Pascal, outro conhecido nome da época. Ora, Pascal afirma que todo o mal provém do homem não saber ficar sentado, sozinho, num quarto. Mas porque se deveria gostar de ficar sozinho num quarto quando se pode optar por um banquete? Não há motivo em remoer as mágoas, pensar sua condição miserável, somar o pior ao pior. Isso nada mais é que ampliar uma negatividade que nos atormenta naturalmente.

Posto isso, se for para realmente pensar, Saint-Évremond opta por meditar sobre a vida do que sobre a morte, sobre a alegria que sobre a desventura. Epicuro contra Sêneca, Saint-Évremond contra Pascal que em tudo desaprova o divertimento. Nada de jogos, altos cargos, caçada, barulho, canção, versos. Nada de tudo aquilo que dá sabor e odor à vida.

Atribuir a Saint-Évremond o título de filósofo? Sim, claro. Mas não um filósofo que faz filosofia, mas como alguém que, à maneira clássica, está mais ocupado com o material moral. Não escreve tanto, e nem aprofunda os pormenores epicuristas na modernidade. Para isso, temos Gassendi. Seu intuito fora unicamente o de aprofundar a alegria da vida.

Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.