Espiritismo e Materialismo

por Breno Lucano

Allan Kardec
O Século das Luzes possuiu seus frutos. Questiona-se em que medida o lema igualdade, fraternidade e liberdade teve êxito. Da mesma forma, questiona-se em que sentido trouxe à Europa o materialismo.

Longe de ser materialista, o Iluminismo e seus herdeiros nunca foram materialistas. Antes, deístas em maior ou menor escala. Deus, como em Voltaire ou Rousseau nunca foram esquecidos. Apenas, adaptados às novas condições. Os homens continuavam a crer nas estórias bíblicas, Céu, Inferno, pecado, redenção, ressurreição. E, antes de formar todo um sistema ontológico capaz de explicar o mundo físico, tais crendices procuravam explicar, antes de tudo, o mundo moral.

"Não há moral se Deus não existe". Alegação corriqueira que pressupõe alguma verdade. Mas apenas para o lugar-comum. Com efeito, se o desespero do vazio após a morte me consome, sou capaz de qualquer coisa. Platão presentiu isso em seu famoso Mito do Anel de Giges. Se não há juíz, não há culpado. Logo, a vontade é um guia livre para a ação.


Mas se Deus é um freio à vontade em razão da noção de pecado, também o é pela esperança. Deve-se esperar o Bem último de todas as coisas, dirão. Se ainda não chegou, então ainda não é o fim. Reminiscências de uma ressurreição e, porque não, de uma reencarnação. Moral fundamentada no fim, teleologia em prática.

Na história do pensamento os idealistas sempre se impuseram, à força. A sobrevida de Deus, apesar de Nietzsche, justifica essa imposição. Todos conhecem um Rousseau e seu Contrato Social. Muitos ouviram falar em Voltaire. Talvez alguns conheçam Diderot ou Holbach, mas apenas o personagem histórico. As figuras de Sade está circunscrito à academia, e mesmo assim apenas no campo da literatura erótica. Nada mais. Nenhuma pesquisa sobre o campo moral, nada proferido na cosmologia. Alegam que o materialismo nada de bom produz, até mesmo em filosofia.

Um dos grandes herdeiros do Iluminsimo, Allan kardec, assim se manifesta sobre o materialismo:

"Por uma aberração da inteligência, há pessoas que não vêem nos seres orgânicos nada mais que a ação da matéria, e a esta atribuem todos os nossos atos. Não vêem no corpo humano senão a máquina elétrica; não estudaram o mecanismo da vida senão no funcionamento dos órgãos; viram-na extinguir-se muitas vezes pela ruptura de um fio, e nada mais perceberam além desse fio; procuraram descobrir o que restava, e como não encontraram mais do que a matéria inerte, não viram a alma escapar-se e nem puderam pegá-la, concluíram que tudo estava nas propriedades da matéria, e que. portanto, após a morte, o pensamento se reduz ao nada. Triste conseqüência, se assim fosse, porque então o bem e o mal não teriam sentido; o homem estaria certo ao não pensar senão em si mesmo e ao colocar acima de tudo a satisfação dos prazeres materiais." (O Livro dos Espíritos; questão 148)

Segundo a tradução de José Herculano Pires, que foi usada no fragmento do texto, Kardec cai no lugar-comum da época e, sem qualquer preocupação em digerir intelectualmente o que escreve, apenas repete a opinião de muitos. Vejamos: com Deus, vida, beatitude, inteligência. Sem Deus, aberração da inteligência, satisfação dos prazeres.

Curiosamente, em toda a história do pensamento, não se tem notícia de qualquer filósofo da tradição materialista- apenas um sequer! - que satisfaça a figura caricata de Kardec. Talvez se possa pensar em Sade. Mas, segundo alguns intérpretes, a crueldade por ele descrita remete mais a uma denúncia que a uma propensão, algo que se deva seguir. Epicuro, um dos maiores nomes do materialismo, revoluciona o pensamento da antiuguidade com sua teoria dos prazeres naturais e necessários. Holbach inova ao discursar sobre a fruição, apesar do determinismo.  Meslier elabora nas sombras de sua paróquia teorias capazes de promover igualdade entre os homens e chega até mesmo a promover os primórdios do que chamamos atualmente de direitos dos animais. 

Vale lembrar que a palavra materialismo já era usada como corrente filosófica desde o fim do século XVII, portanto há pelo menos 50 anos antes da publicação de O Livro dos Espíritas. Donde se sugere que, ou Kardec usou a expressão em sua conotação pejorativa, popular, ou - o que é mais provável - a tenha referido como típico preconceito intelectual à imagem de muitos de seu tempo. 

Mas, se por um lado Kardec acusa os materialistas de todo o mal possível, não deixa de usar suas teorias em sua cosmologia. Fora Deus, todo o resto é matéria. O binômio Deus-matéria (em suas variadas sutilezas) fecunda o real. Esse Deus, contudo, não se assemelha ao deus de Epicuro, não é um deus formado por átomos. Assemelha-se mais ao deus cristão, absolutamente transcendente e independente da matéria, embora atue sobre ela. Mas algo muda quando se fala em espíritos:

"Pode-se conhecer o espírito sem a matéria e a matéria sem o espírito? — Pode-se, sem dúvida, pelo pensamento." (O Livro dos Espíritos, questão 26)

Embora distintos, espírito e matéria são inseparáveis. Ou melhor, sua separação é meramente ontológica, sobrevoa no campo dos conceitos, "pelo pensamento". Por mais pretensamente evoluído, o espírito sempre estará ligado à matéria por meio de seu perispírito. A matéria que forma e dá consistência ao mundo possui graduações fluídicas, sendo tanto mais densa quanto mais precário for o mundo em questão. E é desse fluído material que os espíritos se utilizam para efetuar as comunicações e que possui, entre outras coisas, a função de vivificar um corpo antes inanimado. Explicação do magnetismo, lembranças de um Mesmer muito estudado por Kardec.

Matéria, perispírito, fluído cósmico: nomes estranhos para alguém que persegue tão ferozmente o materialismo. Desde que não há mundo sem matéria, não se pode imaginar espírito sem perispírito senão "pelo pensamento", e se propague a transmissão de fluído vital via imposição de mãos, não se tem outra alternativa a não ser afirmar um kardec fortemente materialista em sua cosmologia. Talvez Kardec ataque o materialismo apenas em suas bases éticas para, logo depois, adota-lo em sua constituição de mundo. Não esqueçamos que Kardec foi um impulsivo leitor de Fénelon, o que merece estudos posteriores para a interferência do sistema do renomado teólogo no Espiritismo.



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Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.