Memórias de Jean Meslier: Quinta Prova

por Breno Lucano

Em sua quinta prova, Meslier questiona mais uma vez a religião, especificamente a católica, não tanto em seus alicerces teológicos, mas, principalmente, em seus dogmas morais. 

Os principais erros do catolicismo são de duas naturezas: por meio da promessa da felicidade futura encontrada após a morte e pela sanção, senão incentivo, do terror, a Igreja obriga seus fiéis a acreditar em idéias absurdas inteiramente contrárias à justiça conforme o deus perfeito pregado pela própria Igreja. O segundo erro consiste nas deturpações encontradas em sua moral. 

Quanto à primeira natureza de erros, Meslier destaca cinco: 1. dogma da santíssima trindade; 2. encarnação de deus na forma humana; 3. sacramento da eucaristia; 4. mitologia do primeiro homem e dogma do pecado original; 5. a crença de que os pecados são capazes de ofender um deus, que puniria o pecador. 


O dogma da santíssima trindade, isto é, a conjunção de três pessoas numa única, parece ao pensador da aldeia ingênua. Ora, se Deus é três, então teremos três deuses, e não apenas um capaz de criar o mundo. Tal dogma se aproxima, assim, do politeísmo. Pior que a figura dos muitos deuses é a presunção de que Jesus seria Deus. Deificar Cristo seria tornar Deus "um homem de nada, que não tinha nem capacidade, nem espírito, nem ciência, nem destreza, e que era inteiramente desprezado no mundo", ao passo que os pagãos divinizam pessoas ilustres. E continua:

"Sim, eu diria, eles a atribuem a um louco, um insensato, um  miserável fanático e a um desgraçado velhado; sim, meus caros amigos, é a um tal personagem que vossos padr5es e vossos doutores e pregadores atribuem a divindade, é um tal personagem que eles vos fazem adorar como vosso amável e divino Salvador, ele que não pôde salvar a si mesmo do suplício vergonhoso da cruz à qual ele foi condenado e onde ele terminou miseravelmente os seus dias." 

Os pejorativos contundentes utilizados por Meslier para definir a figura de Cristo fazem do padre um anticristão. Vale notar que Meslier viveu algumas décadas antes do escândalo provocado pelos romanes do Marquês de Sade e antes ainda dos escritos de Nietzsche. 

Baseado no Evangelho de Lucas, Meslier assegura que Jesus apenas disse besteiras. Suas sandices provocaram a cólera dos judeus, em especial por "ele lhe daria sua carne para comer e seu sangue para beber, e que, se eles não comessem a carne e não bebessem o seu sangue,não teriam a vida". Megalomania e incitação à antropofagia são sinais claros de demência. 

Quanto aos relatos de que Cristo teria curado surdos, cegos e outros enfermos, Meslier é enfático: não passavam de estórias absurdas e ridículas criadas e propagadas por pessoas sem instrução e fanatizadas. Esse fato tornaria a religião cristã mais ridícula e execrável do que os cultos pagãos, os quais reverenciavam  ao menos homens admiráveis por suas virtudes. 

Fazendo alusão à hóstia, Meslier afirma que os cristãos idolatram um Deus de farinha, e, o que é mais alarmente, eles O devoram todos os dias em seus rituais. Ainda assim, os cristãos ridicularizam os deuses pagãos por assimilarem-se à pedra e à madeira. Assim, não haveria qualquer diferença entre os ritos cristãos e pagãos. 

O quarto ponto apontado na quinta prova é a criação do primeiro homem e, a partir daí, do pecado original. Narra a mitologia que um Deus infinitalmente sábio e perfeito teria criado um homem seguido de uma mulher para adorá-lo e servi-lo, mas que, ao contrário, eles o desobedecem. Encolerizado, esse deus misericordioso pune o casal e toda a humanidade. Todos os homens após o primeiro casal seria eternamente maculado pelo pecado primordial, uma punição sem crime cometido. E, para redimir a humanidade da culpa cometida, Deus envia seu filho ao reino dos mortais para ser barbaramente assassinado e hasteado numa cruz. 

Finalmente, o último erro doutrinário dos cristícolas consiste na crença de que Deus se ofenderia com alguns dos nossos atos, e que, em virtude disso, seríamos punidos por ele em vida e por toda a eternidade. Um ser perfeito não teria paixões, uma vez que ele deveria ser invulnerável, inalterável e impassível. Deus não poderá, portanto, de modo algum, indignar-se com o que quer que seja. Estamos, desse modo, de grandioso contra-senso. Se Deus é impassível, ou seja, se Deus não pode ter nenhuma espécie de paixão, pois do contrário ele seria vulnerável e alterável, podemos perguntar o seguinte: como, então, o deus judaico-cristão e dos teólogos pode ser infinitamente misericordioso visto que a misericórdia é uma paixão?

Em suma, para nosso autor, o cristianismo seria absolutamente falso e ilusório, mais uma entre as incontáveis invenções humanas, demasiado humanas. 

Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.