Robert Owen e o Casamento

por Breno Lucano

Robert Owen, socialista utópico, reformador político, mas igualmente reformador erótico. Isso porque coloca o casamento como pilar de suas críticas sociais. Bem antes de Freud, Owen inter-relaciona a moral castradora e a genealogia do deplorável.

Em matéria de sexo, o êthos obriga à renúncia, celebra o ideal da castidade, inclusive no casamento: deve-se evitar o sexo e, caso não seja possível, tentar não obter prazer com ele. E tão logo ele seja sentido, temos as retaliações religiosas de pecado, erro, culpa.

Já em 1835 Owen faz conferências sobre um casamento pouco ortodoxo, todas publicadas em Lectures on the mariages of the Priesthood of the Old Immoral World. Reflete que o casamento induz à trapaça para com o outro à medida em que se nega a dizer o quanto se está insatisfeito e enfadado com a presença do outro. Assim, leva a renunciar a si mesmo, ao desejo, ao prazer, à alegria, ao júbilo, à sexualidade plena. O resultado? Indiferença, insatisfação que conduz aos vícios e desprezo pela vida que se tem. Além disso, gera a infelicidade dos filhos que são submetidos ao espetáculo desolador de um casal que se mantém junto apenas pela legalidade e, por vezes, ativa entre o marido e a mulher um desejo de dominação, portanto de esmagar o outro.



Considerando o título de suas publicações, pensa-se comumente que Owen dirige suas críticas apenas ao casamento religioso, mas, na verdade, ele as dirige ao casamento em todos os sentidos, especialmente quando se trata de coabitação. Não é a sacralidade da união ou o contrato por ele imposto, mas a necessidade deletéria de se viver sob o mesmo teto, desfrutando da mesma vida, do cotidiano.

Todo homem casado deseja coisa diferente daquilo que a mulher lhe dá. Por isso, ele vai buscar em outro lugar, sobretudo nas casas de prostituição, onde encontra o que ela não lhe dá: originalidade, frescor, novidade. Contudo, o erro consiste em responsabilizar o outro pela desgraça do casal. E o que dizer do clero quando disseminam enganos prejudiciais, como o de que o amor dura a vida toda, o casamento é indissolúvel e o divórcio uma peste, fruto do erro e do pecado? Pois não se pode - ou nem sempre! - amar a mesma pessoa toda uma vida.

Na revolução erótica oweniana o casamento dura o exato instante que deve durar, ou melhor, enquanto existir o desejo, que deve ser continuamente alimentado. Ora, o desejo morre sempre que e confinado a um casal casado que vive sob o mesmo teto. Daí a necessidade de um amor livre. Os que se amam vivem sob o mesmo teto enquanto houver algo que os una; logo após o desejo se dissipar, o casamento irá junto.

Assim ocorre em Nova Harmonia. Casamento experimental, onde o casal endossa ou não a união com o passar do tempo, ratificando ou anulando a união de acordo com a vontade de um ou dos dois. Escrito o Catecismo do Novo Mundo Moral em 1838, Owen inter-relaciona esse casal bem-sucedido e a felicidade à alegria. Nesse novo mundo moral há a celebração e o desabrochar dos corpos, portanto das almas, a alegria de todos e a Harmonia generalizada.



Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.