Ideologia e Alienação

por Breno Lucano

Talvez a palavra mais usada atualmente, embora em termos bem vulgares, seja ideologia. Periódicos e as redes não cansam de falar em ideologia de gênero, ideologia marxista, ideologia feminista. Mas o que é ideologia?

O conceito de ideologia origina-se na obra  do iluminista Antoine Destutt de Tracy, autor do tratado Les élements de l'idéologie (1801-1807) e que pertenceu a um grupo de pensadores que incluía o filósofo Dégerando, o médico Cabanis e o matemático Condorcet, que passaram a ser conhecidos nesse período como "ideólogos" (idéologues). A proposta original era a de formular uma genealogia da idéia, decompondo o processo de formação das idéias no homem. Esse projeto foi influenciado pelo sensualismo de Condilac, em seu Tratado das Sensações (1754), que, por sua vez, inspira-se no empirismo de Locke. As teorias dos ideólogos era servir como fundamento para a educação, fornecendo em última análise as bases para a reforma da sociedade no sentido iluminista.



Outro sentido de ideologia surge com Marx e Engels, que a entendem como "falsa consciência", feita como crítica aos hegelianos de esquerda, especialmente Feurbach e sua análise da religião. A ideologia passa a ser aqui uma visão distorcida, o mascaramento da realidade que, em termos sociais, se comporta como opressora, e a torna aceitável.

A ideologia, portanto, é uma forma de dominação, gerando falsa consciência, ou uma consciência ilusória, que se produz através da percepção de que certas representações (a classe dominante) é a verdadeira realidade, gerando uma aparente legitimidade das condições existentes numa determinada sociedade em um período histórico determinado.

A ideologia é produto de uma sociedade desigual, não-transparente, opaca, e essa desigualdade não pode explicitar-se conscientemente. Ela deve ficar sempre obscura. Esse é o trabalho da ideologia.

Se recordarmos o passado da filosofia, poderemos aferir que a origem da ideologia no sentido que Marx lhe dá se encontra nos clássicos e sua distinção entre aparência e realidade. A tarefa crítica da filosofia consiste no penetrar nessa aparência, esmiuçar o que pode ou não ser real em termos sociais, estabelecer a própria estrutura da sociedade e seus mecanismos de produção, e criticá-las, ultrapassar as ideologias, isto é, parciais, idealizadas e falsamente justificadas e legitimadas.

 Nesse contexto, ao afirmar a existência de ideologia no sentido de doutrina, incorremos em erro. A doutrina pode ou não ser objeto de dominação, necessitando de uma análise crítica, caso haja repercussão nas desigualdades. Somente nesse sentido, teremos a ação da ideologia. Ideologia não é doutrinação, não incorre quando professores esmiuçam análise crítica em salas de aula. Ideologia não incorre com leituras sobre os papéis sociais de gênero, que determinam quais os lugares e condições aceitáveis para homens e mulheres. Pelo contrário, a ideologia sustenta que esses fenômenos ocorram. E o que é pior, que o vejamos como normais.


Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.