Filosofia Como Salvação da Alma

Por Michael Erler

A crise do terceiro século depois de Cristo constituída de devastação, decadência econômica e queda do padrão de formação tem importância incisiva também para a história da filosofia. O estoicismo, que oferecia ao indivíduo um auxílio orientador para seus interesses pessoais no imanente, perdeu em importância. A filosofia helenista foi substituída definitivamente pelo ensino de Platão, ou melhor, pelo assim chamado neoplatonismo, cujo autor pode ser encontrado em Plotino (205-270 d.C.) e cujas estruturas fundamentais têm influência marcante também sobre filósofos gregos posteriores como Proclo e igualmente sobre autores romanos como Agostinho e Boécio. O conceito "neoplatônicos", Plotino e Proclo, os dois cabeças do neoplatonismo da Antiguidade tardia, não querem proporcionar um ensino que vá além de Platão. Eles veem sua tarefa, antes, em tornar explícita aquela verdade que às vezes é apenas insinuada pela obra de Platão. Como os filósofos de todas as mais importantes escolas filosóficas, também Plotino e os platônicos posteriores nada mais queriam ser que exegetas de seu mestre Platão (Enn. 5,1 [10] 8,10-13). Por isso, uma parte principal do ensino da filosofia consistia na leitura e no comentário dos diálogos de Platão, que eram considerados canônicos e como fontes da verdade.

Novos aspectos perfeitamente existentes não são contabilizados como produção própria, mas mediante projeção para Platão rreclamados e legitimados em prol deste. Plotino e também Proclo alinham-se na tradição da exegese filosófica, a qual já havia sido praticada anteriormente, em cada caso com métodos diferentes, por platônicos e também por estóicos com as obras, por exemplo, de Crisipo, por aristotélicos como Alexandre de Afrodisía com os escritos de Aristóteles, mas também já na escola de Epicuro. Comparou-se isto com a escolástica da Idade Média e falou-se, não sem razão, de uma época do comentário. Diferentemente do costumo atual, esse filosofar em forma de comentário era entendido como um "exercício" intelectual, que deveria auxiliar o leitor e comentador na salvação de sua alma e no seu retorno ao lar espiritual, sendo, assim, já uma parte do próprio filosofar: o fim em si mesmo de tal exercício, que para as escolas orientadas no imanente era atingir uma disposição melhor e mais sóbria da alma para a vida, no platonismo é funcionalizado como pressuposição para o empenho da alma de não só contornar-se as vicissitudes do imanente, mas superar o próprio imanente para poder alcançar a sua pátria transcendente. A disposição temática dos escritos de Plotino parte de questões morais, passa por problemas do mundo, da alma e do espírito e vai até o uno, prescrevendo, assim, para a leitura, aquele caminho que a alma do leitor ou ouvinte deve trilhar.

Também na filosofia da Antiguidade tardia ganha força um empenho pela compreensão enciclopédica de tudo que se pode saber, por universalidade, por concórdia ente as escolas filosóficas e vinculação de todas as tradições greco-romanas pagãs. Recipiente para a coleção da sabedoria e contexto para essa reconscientização é o platonismo, que desde Plotino e Porfírio e sobretudo a partir da pitagorização feita por Jâmblico portava traços teológico-religiosos cada vez mais fortes. Por isso, para os platônicos, os assim chamados oráculos caldeus, que são atribuídos a um certo Juliano e que remontam ao 2 ou 3 século d.C., podiam valer como testemunhos de sabedoria antiquíssima inspirada pelos deuses no mesmo nível da poesia órfica, dos hinos homéricos ou da história de Hesíodo. Plotino e Proclo (412-485 d.C.), o segundo platônico mais importante dessa época, têm em comum a conclamação ao ser humano para que encontre a sua verdadeira natureza e se torne "divino", isto é, encontre o caminho de volta à sua origem verdadeira, transcendente. Este aspecto soteriológico empresta à metafísica neoplatônica o caráter de um exercício intelectual/espiritual: "Despoja-te de todo imanente", pede Plotino, "Desperta o uno que está em ti e dispensa tudo o que é terreno", exige Proclo.

Por isso, a ética neoplatônica não mais introduz, como faziam o epicurismo ou o estoicismo, uma arte de viver apenas no imanente. É certo que a filosofia continua servindo à terapia da alma no imanente e à depuração interior do ser humano, mas agora com o objetivo de possibilitar à alma o caminho de volta à oriegem divina, transcendente. O retorno almejado pode ter êxito porque, conforme a opinião de Plotino, por ocasião da descida da alma, uma parte dela permaneceu naquele mundo que é transcendente e pode ser apreendido apenas intelecutal/espiritualmente (Enn. 4,7 [2] 10,30). Mais tarde, o abismo entre a alma humana e o seu lar intelectual/espiritual foi percebido como sendo cada vez maior e fez desaparecer a confiança na capacidade de poder efetuar pelas próprias forças o retorno almejado. Por isso, por exemplo, Proclo concedeu a determinadas práticas da religiosidade popular uma força auxiliar na salvação da alma. Todavia, isso ocorreu pela integração do religioso no contexto filosófico, e não pelo sacrifício da racionalidade filosófica ao entusiasmo religioso.

O interesse de Plotino estava voltado sobretudo para a ontologia, que ele concebia como teologia e da qual ele derivava de modo consequente os demais âmbitos do seu pensamento. Marcante no seu pensamento é, por um lado, a diferenciação platônica entre um mundo inteligível e um mundo sensível; por outro lado, o reconhecimento subjetivo de que a alma necessariamente tem de retornar para si mesma e então ascender à sua origem. De acordo com isso, todo o existente foi determinado pelo uno e recebe mediante o uno a sua perfeição. O uno flui por emanação para os estágios seguintes do ser, para o espírito e a alma, entendidos como hipóstases, e, no desdobraemento seguinte, para a matéria. O cosmo inteiro é estruturado pelo movimento de surgir do uno e de retornar a ele, sendo que o último estágio do retorno do uno não mais ocorre por meio do mero esforço intelectual, mas por meio do "fazer-se simples" (Enn. 6,9 [9]).

Também o cosmo intelectual/espiritual de Proclo esta estruturado hierarquicamente por uma pluralidade de estágios intermediários. Esses estágios são providos com nome de deuses tradicionais, aos quais a alma dirige orações e louvações para promover a sua ascenção. O anseio pelo retorno ao âmbito transcendente, a ênfase no aspecto religioso e a integração de práticas religiosas antigas, pelo visto, vinham ao encontro de uma carência de salvação correspondente da época, que se manifesta também no cristianismo florescente. É sintomático que os cultos (por exemplo o culto de Mitras), por sua vez, frequentemente se cobriam com um mantinho filosófico e para isso se serviam da "caixinha de temperos de Platão" (Tertualiano, anim. 23,5).



ERLER, Michael & GRAESER, Andreas, orgs. Filosofia Como Salvação da Alma. In:__ Filósofos da Antiguidade 2: Do Helenismo à Antiguidade Tardia. Editora Unissinos: São Leopoldo, 2003. p. 23-27


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Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.