Anel de Giges: Interpretação de Comte-Sponville


"Quer ajamos livremente, quer em virtude de uma necessidade, é sempre a esperança e o medo que nos conduzem." - Spinoza



O mais difícil é a moral.

Difícil de viver: sem essa dificuldade, a moral não seria o que é, exigente e severa, e fadada tão-somente ao esforço. Dada a inclinação, podemos subir ou descer. Subir é mais difícil. Essa dificuldade é a própria moral.

O que vimos acerca da política e da arte 1 permite-nos ir mais depressa agora em direção ao essencial. No que concerne à moral, também, há várias maneiras de ser religioso, várias maneiras de crer. Mas uma só crença, talvez: que o Bem existe. Isso basta, e toda religião se reconhece ai: é porque o Bem existe (em Deus) que não se deve fazer o mal. E toda religião é moral por isso. A questão é saber se toda moral é religiosa. Uma moral verdadeiramente ateísta diria exatamente o inverso: é porque o bem não existe que se deve fazê-lo. Moral do desespero. Sua possibilidade é o que se trata de pensar aqui.

"Para quê?", dirão alguns. "Deixem para lá essas velhas fantasias... Se o bem não existe, que importância pode ter esse nada? Por que despertar antigos temores, por que reavivar remorsos e tremores? Já não há Lei, dizem, já não há mandamentos... A moral morreu ao mesmo tempo que Deus. Deixem seus despojos aos cuidados dos sacerdotes necrófagos."



Compreendo. Pode-se defender isso. E essas palavras de hoje datam de ontem. Sempre houve gente para dizer que a moral não existia e, com isso, justificar sua imoralidade. Os maus nunca são suficientemente maus para não buscar justificativas e, assim, prestar à virtude a homenagem da sua denegação. Contra isso, um só homem de bem basta para restabelecer a evidência de seu valor. A raridade deles não é tamanha que se possa fazer como se não existissem.

Homem de bem, virtude... Eis-nos apanhados na armadilha das palavras. As reticências de nossa época, no que se concerne à moral, são antes de tudo de vocábulário. O bem, o mal, o erro... Isso tudo tem um ar tão caduco! E muitos crêem que resolveram o problema por terem renunciado às palavras que antigamente serviam para formulá-lo. A virtude, para eles, é uma língua morta.

Notei com frequência, nas salas de aula, por exemplo, que os adolescentes, ou muitos deles, estão convencidos de que não têm moral - pelo menos era o que diziam - e de que as palavras "vício", "bem" ou "mal" ... eram, para eles, como que desprovidas de significado e lhes pareciam inúteis e fora de moda, tanto quanto as velharias de um sótão. E, como eu as empregava, achavam-me bem antiquado. "Eu não tenho moral", diziam-me com um olhar fraco. Pode ser. Mas você trairia um amgo? Torturaria uma criança? Condenaria um inocente? ... Não conheci nenhum que tenha respondido sim (de fato, nem mesmo escondidos de todos eles fariam isso) e que não acabasse confessando que só estava separado da moral, ou do que eu assim chamava, por palavras. É que a linguagem moral, por razões históricas que poderíamos analisar, envelheceu, e envelheceu mal. A própria mudou, , e mais ainda a maneira de dizê-la. O que era vício não o é mais, e certas virtudes já não são tidas por tal. Mas o fato moral permanece, e é um fato por resistir tanto às palavras quanto ao desaparecimento ou à caducidade delas. Sempre se pode chamar de herói um torturador e festejar mentirosos ou assassinos. Ou se calar e falar de outra coisa... Mas isso não anula nem a tortura, nem o crime, nem a mentira. Nem tampouco o horror - mais ou menos forte - que nos inspiram, quaisquer que sejam as palavras que empreguemos para dizer ou mascarar esse horror. Esse horror é um fato, e nele começa a moral. "Trata-se de pelo menos dizer não."2

Assim, cada qual tem sua moral, a partir do momento que não aceita tudo. E muitos, que afirmam não a ter, entretanto se referem cotidianamente a ela, ao mesmo tempo que fingem ignorá-la. [...]

Mas se diferença há, falta saber qual a sua legitimidade. Afinal de contas, não é por medo ou por interesse que esse "homem de bem" de que falamos evita cometer crimes que outros, mais audaciosos ou menos calculistas, têm a coragem de consumar? E, longe de ser melhor que os outros, não é ele, ao contrário, mais covarde ou mais hipócrita? Ou simplesmente mais desastrado e incapaz de fazer o mal sem se deixar apanhar? Não será a moral tão-somente o álibi da fraqueza?

Esse gênero de discurso tem seus títulos de nobreza, e há muito mais tempo do que se imagina. Platão já dava dois belos exemplos dele: Giges 3 e Calicles 4. Os dois homens são bem diferentes, mas coincidem, no fundo, quanto ao essencial: a moral, para eles, não passa do discurso dos fracos e dos covardes, que chamam de mal o que não têm força para fazer ou temem que lhes façam, e bem o respeito por leis que não têm outra função senão protegê-los. A moral nada mais é que a expressão do medo, dizem eles, e não tem outra legitimidade senão esse medo. Se o medo desaparece, a moral também desaparece. Os bons não são melhores do que os maus; são menos corajosos (Calicles) ou menos hábeis para se esconder (Giges). O exemplo deste último, tal como Platão o evoca, tem a clareza cruel de um diagrama.

Giges é pastor, hoje seria bancário ou cabeleireiro, e não era melhor nem pior que outro qualquer. É cada um de nós. Mais eis que ele encontra, em circunstâncias espantosas que Platão narra com abundância de detalhes, um anel: anel milagroso que o torna invisível a seu comando! É o inverso de Édipo: este furou os olhos para não ver mais o mal que fizera: Giges tem um meio para que não se veja mais o mal que ele fará. Quanto ao resto, as duas histórias curiosamente se assemelahm:


"Assim que teve certeza, fez de modo que estivesse entre os mensageiros que iam ter com o rei. Chegando ao palácio, seduziu a rainha, tramou a morte do rei, matou-o e conquistou assim o poder." 5


A conclusão filosófica da história, tal como Glauco a tira, é a seguinte:


"Portanto, se existissem dois anéis assim, e se o justo recebesse um, o injusto outro, nenhum, ao que se crê, seria de natureza suficientemente adamantina para perseverar na justiça e para ter a coragem de não tocar no bem alheio quando poderia pegar sem medo o que bem entendesse na ágora, introduzir-lhe nas casas para se unir com quem lhe agradasse, matar uns, quebrar os grilhões de outros e fazer tudo a seu bel-prazer, tornando-se igual a um deus entre os homens. Agindo assim, nada o distinguiria do homem mau: ambos tenderiam para o mesmo fim." 6


Sempre achei esse texto mais assustador que as fanfarronhas de Calicles, e muito mais profundo. Porque o problema é, de fato, exatamente esse. Existe na moral algo - o quê? - que escapa ao jogo coletivo das forças e dos desejos e distingue, mas não apenas em sua aparência e em sua iserção social, mas em si mesmos (só e nu, como aliás diz Sócrates), o bom do mau ou o melhor do pior? Glauco, nesse texto, quer provar que não e retoma para tanto (e anuncia... ), várias análises críticas cujo rigor o materialismo não será capaz de superar. Em duas palavras: não há fato moral, porque o justo e o injuusto, o bom e o mau perseguem ambos o mesmo fim (aonde, diz Glauco, "o desejo os conduz" 7), divergindo apenas pela escolha, puramente tática, dos meios. O anel mágico, dispensando quem o usa de toda e qualquer preocupação tática (quanto aos meios), faria a identidade dos fins aparecer à luz do dia, por assim dizer. A força desse exemplo reside na possibilidade que cada um tem, solitariamente, de comprovar seu rigor e de repetir, por conta própria, sua imaginária e crucial experiência. Imaginemos, pois, se pudermos sem mentir. Você é Giges. Você tem o anel. É invisível quando quiser, quanto tempo quiser e tantas vezes quantas quiser. Ninguém o observa, a não ser você próprio. Nenhum homem o vê; nenhum deus o julga. Reflita: o que você fará? o que não fará? Sua alma tem sua pedra de toque. Tudo o que você hoje veda a si mesmo, do assassinato ao roubo, do estupro à indiscrição ("pegar sem medo, introduzir-se nas casas, matar quem quiser, unir-se com quem lhe agradar, ..."), mas que talvez fizesse se possuísse o poder maravilhoso de Giges, não é honestidade, candura, discrição ou respeito (numa palavra, não é moralidade), mas medo, prudência, amor-próprio ou covardia. Virtude? Nada disso: hipocrisia.

[...] Não há moral. Tudo se reduz ao princípio do prazer (quanto aos fins) e ao princípio de realidade (quanto aos meios). Só há o desejo: cada qual o segue conforme puder. Não há virtude: há tão-só precauções. Não há moral: só prudência. Só há regras de eficácia e leis civis. Desespero: não valemos nada.

[...]

A razão disso, no fim das contas, é simples. Se tivéssemos o anel faríamos com certeza muitas coisas que hoje não fazemos; e deixaríamos de fazer outras, sem dúvida, a que nos sentimos compelidos hoje. Seja. Mas não é tudo. Também há coisas que, mesmo então, nós nos vedaríamos fazer; e outras, desagradáveis, a que, mesmo então, nos sentiríamos obrigados. O anel de Giges é um espelho singular: ele reflete nossos vícios nus e crus; mas, com isso, nossas virtudes tambem aparecem melhor. Somos mens bons do que tentamos parecer: é bom saber; mas também somos melhores do que se poderia temer: não devemos ignorá-lo tampouco. Vários de nós, se tivessem o anel, o utilizariam para fazer mais bem do que podem ou ousam fazer hoje e acrescentariam aos erros que já cometem apenas outros na verdade insignifcantes. Conheço gente que nem mesmo a realeza faria mentir. Não é Giges que assim quer. Ou antes, nem todo mundo é capaz de querer. A não ser que se torne invisível para si também... Mas quem pode tornar-se?Dostoiévski se engana: mesmo se Deus não existisse, não é verdade que tudo é permitido. Porque invisível ou não eu não me permito tudo: tudo não seria digno de mim. Minha moral é essa dignidade, e essa exigência.



COMTE-SPONVILLE, André. Viver. Tradução Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2000. p. 11-18



Notas:

1. Cf. Tratado do desespero e da beatitude. op. cit.

2. Marc Wetzel, "L'avenir de la morale", in Cabiers philosophiques, n 7, junho de 1981, p. 33

3. Cf. República, II, 357-368. Para facilitar a exposição, faremos como se Giges, personagem mítica, defendesse ele próprio uma tese que, na realidade serve apenas para ilustrar, no discurso de Glauco.

4. Cf. Górgias, 481-527

5. República, II, 359-360

6. Ibidem.

7. Ibidem.




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Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.