Biologia da Homossexualidade

O posicionamento cauteloso diante das causas homossexuais irrita principalmente algumas correntes militantes, que prefere apregoar o determinismo biológico como uma forma de convence que a homossexualidade é natural e, por conseguinte, deve ser aceita. Que a homossexualidade é natural isso deveria ser evidente, pois o que não falta na natureza são exemplos de relações homossexuais entre animais. Além disso, o argumento contesta a homossexualidade a partir da natureza é falho pois, se fôssemos seguir firmemente o que é natural, não forçaríamos a existência da monogamia e, convenhamos, sequer vestiríamos roupas.



O que alguns militantes não percebem é que a defesa do desejo homossexual como uma identidade biologicamente determinada pode ser combustível perfeito justamente para os homofóbicos. Afinal, se provarmos que o desejo homossexual é fruto de singularidades físicas, tudo isso poderia ser tratado por terapêuticas, do mesmo modo que3 corrigimos a miopia ou outra singularidade fisiológica incômoda. Foucault, mais de uma vez, apontou para o fato de que a vida é uma escolha entre perigos. Não existe um "caminho ideal", mas sim riscos mais ou menos administráveis. Apontar num determinismo biológico que, por si só, seja fundamento para o desejo homoerótico é um perigo, pois não implica necessariamente em aceitação - os homofóbicos podem argumentar que tal condição seria uma doença, uma aberração medicamente tratável.

Foucault critica, em primeiro lugar, a falácia da causa única, seja ela qual for, física ou psicológica; em segundo lugar, os perigos decorrentes da abordagem da homossexualidade como uma doença biológica passível de tratamento. Nesse sentido, podemos observar ao menos uma interseção entre Foucault e Freud, não obstante as discordâncias em outras esferas. Freud também era contrário à idéia da causa única, muito embora se pense - equivocadamente - que o pai da psicanálise tentava explicar a homossexualidade a partir do problema de um pai ausente e uma mãe dominadora, sempre. A leitura dos Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade, publicado pela primeira vez em 1908, mostra o que Freud efetivamente disse:

"Nem a hipótese de que a inversão é inata, nem tampouco a conjectura alternativa de que é adquirida explicam sua natureza. No primeiro caso, é preciso dizer o que há nela de inato, para que não se concorde com a explicação rudimentar de que a pessoa traz consigo, em caráter inato, o vínculo da pulsão sexual com determinado objeto sexual. No outro caso, cabe perguntar se as múltiplas influencias acidentais bastariam para explicar a aquisição da inversão, sem necessidade de que algo no indivíduo fosse ao encontro delas. A negação deste último fator, segundo nossas colocações anteriores, é inadmissível."

Está muito claro que, para Freud, é insatisfatório definir uma única causa para a existência de pessoas que desejam o mesmo sexo. Como se vê, Freud ainda estava preocupado com a questão da causa, muito embora deixasse claro, ao longo de suas pesquisas, que provavelmente dois homossexuais não desejam o mesmo sexo pelas mesmas razões.



Fragmento de matéria da edição 70 da 
revista FILOSOFIA, CIÊNCIA & VIDA




Artigo Relacionado:

Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.