Discípulo de Dioníso

Por exemplo ... eu não sou, nem de longe, um bicho-papão, um monstro moral - eu inclusive sou uma natureza contrária a esse tipo de gente que até hoje  foi venerada como virtuosa. Cá entre nós, parece-me que é exatamente isso que me deixa cheio de orgulho. Eu sou um aprendiz do filósofo Dioniso, e faço gosto antes em ser um sátiro do que um santo. Mas leiam esta minha obra... Talvez eu tenha logrado alcançá-lo, talvez esta obra não tenha nenhum outro objetivo que não o de expressar essa oposição de uma maneira serena e amável. A última coisa que eu haveria de prometer seria "melhorar" a humanidade. Eu haverei  de erigir nenhuns novos ídolos; que os velhos aprendam o que significa ter os pés de barro. Derribar ídolos (a minha palavra por ideais) - isso sim é que faz parte de meu ofício. A sua veracidade justamente no mesmo grau em que foi falsificado um mundo ideal... O "mundo verdadeiro" e o da "aparente" - em alemão: o mundo falsificado e o da realidade. A mentira do ideal foi, até agora a blasfêmia contra a realidade: a própria humanidade foi enganada por ela e tornou-se falsa até o mais baixo de seus instintos - a ponto de adorar os valores inversos como se fossem aqueles com os quais ela poderia garantir para si a prosperidade, o futuro, o direito altivo ao futuro.

NIETZSCHE, Friedrich W. Ecce Homo. Porto Alegre: L&M, 2011.

Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.