Monoteísmo e o Desejo Pelo Inverso

Os monoteísmos não gostam da inteligência, dos livros, do saber, da ciência. A isso, acrescentam forte aversão à matéria e ao real, portanto a toda forma de imanência. À celebração da ignorância, da inocência, da ingenuidade, da obediência, da submissão, as três religiões do Livro acrescentam um similar desgosto pela textura, das formas e das forças do submundo. Este mundo não tem direito de cidadania, pois a terra inteira carrega o peso do pecado original até o fim dos tempos.

Para expressar esse ódio pela matéria, os monoteístas criaram integralmente um mundo de antimatéria! Na Antiguidade, vilipendiada quando se trata de ciência, as doutrinas do Deus único solicitam Pitágoras - por sua vez formado no pensamento religioso oriental... - e Platão para construir sua cidade sem carne: as Idéias fazem maravilhas nessa empreitada intelectual, assemelham-se exatamente a clones de Deus: como ele são eternas, imortais, sem extensão, inacessíveis ao tempo, elas incapaz à geração e à corrupção, resistem a toda apreensão sexual, fenomenal, corporal, não exigem nada além de si mesmas para existir, perdurar, perseverar em seu ser, e tutti quanti! Suas identidades colam-se às de Javé, Deus e Alá. Com tal substância, os monoteísmos criam castelos na Espanha úteis para desacreditar qualquer outra habitação real, concreta e imanente.



Daí a esquisofrenia dos monoteísmos: julgam e avaliam o aqui e agora em nome de um alures pensam a cidade terrestre unicamente em confronto com a cidade celeste, preocupam-se com os homens, mas conforme padrão dos anjos; consideram a imanência se, e apenas se, ela serve como degrau para a transcedencia; aceitam preocupar-se com o real sensível, mas para medir a relação que tem com seu modelo inteligível; consideram a Terra, contanto que ela forneça a oportunidade do Céu. Por encontrar-se entre essas duas instancias contraditarias, cria-se um buraco no ser, um ferimento ontológico impossível de fechar. Desse vazio existencial sem preenchimento nasce o mal-estar dos homens.

Também aí o monismo atomista e a unidade materialista permitem evitar essas metafísicas ocas. A lógica de quem pensa o real exclusivamente construído de matéria e o real redutível apenas a suas manifestadões terrestres, sensuais, mundanas, fenomenais, impede a errancia mental e a ruptura com o único e verdadeiro mundo. O dualismo pitagórico, platônico, cristão fragmenta o ser que se submete a ele. Visando o Paraíso, perde-se a Terra. A esperança de um além, a aspiração de um além, a aspiração a um além-mundo gera infalivelmente o desespero aqui e agora. Ou a imbecil beatitude do bem-aventurado do presépio...


ONFRAY, Michel. Tratado de Ateologia. Martins Fontes: São Paulo, 2009. p. 79-80

Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.