A Morte de Deus

por Breno Lucano

Gradativamente, e de modo cada vez mais nítido a partir do renascimento, grandes mentes se mostram ao mundo propondo alternativas de construção de ética e cosmovisão. Passamos pelo ceticismo de Charron, conhecemos o epicurista Gassendi, desembocamos em Espinosa. Um século depois, desembocamos no impiedoso mundo dos iluministas, com Holbach, Sade e Feuerbach. E finalmente, algum tempo depois, o terremoto Nietzsche. Deus estava morrendo. 

Todos certamente conhecem a expressão segundo a qual deus está morto. Ela reside nas fantasias de qualquer estudante de filosofia, assim como a Alegoria da Caverna. Mas aprofundeos mais. De que modo deus morreu? Através da queda do poderia do Vaticano? Ou seria pelas alterações profundas pelas quais a sociedade sofreu e que culminou com um filósofo alemão ateu? 

Há muito a crença no poder divino perdeu força, embora não totalmente. Temos, portanto, dois pólos, dois mundos, duas metafísicas: de um lado a existência de deus, com seus mandamentos, seu projeto salvífico, e a ele são dirigidos cultos, adorações, efusões, incensos, jejuns; por outro, temos o desmantelamento de velhas tradições patriarcais, de organizações sociais de outras eras, com conceitos e fundamentos que não mais agradam o homem pós-moderno. De um lado, a genealogia abraamica; do outro, nietzscheniana. 

As igrejas vazias consistem no maior dos sonhos de muitos filósofos materialistas. Mas não estão. Ao invés disso, temos visto verdadeiras peregrinações à Aparecida do Norte todos os anos, caminos escusos que levam à Meca ou que conduzem os homens ao Muro das Lamentações. Isso porque há muito o que lamentar. Lamentamos a vida fraca, passageira, mortal, imersa em erros, enganos, desilusões e que merece a todo custo ser mortificada, purificada, castrada, reprimida e nada celebrada. A única vida que merece ser celebrada é aquela que nos espera após a morte, num Paraíso, onde não mais existem dor, fome, doença. 

Ora, que quer o homem? O mundo perfeito, sem a interferência do devir, da contingência de que Diógenes tanto se armou. Num deserto de pó imaginamos um Reino de constante primavera. Onde há fome, criamos um lugar onde há leite e mel. Onde temos doenças, temos um lugar de pura saúde porque incorpóreo. E, por isso mesmo, sem velhice, sem as crueldades tão caras ao devir. Deus possui mesmo muito o que fazer aos homens. Não, deus não está morto. Cambaleando, talvez; morto, não. 

Negar o mundo como é, esperar uma vida verdadeiramente feliz no pós-morte, se iludir pensando que um dia tudo se resolverá por intercessão divina - já que sou fraco, nada tenho a fazer senão esperar a boa vontade do altíssimo - são marcas de um tempo que ainda não passou. Ainda temos sacramentos, um pão que se torna corpo todos os dias por intermédio de um mensageiro divino que, enquanto tal, possui toda autoridade, ainda se legitima o que se confessa no tribunal ante uma bíblia. Ainda proibimos barrigas de aluguéis, manipulação de embriões, anticoncepSomocionais artificiais, casamento gay. O homem é excessivamente tolo e passageiro para decidir o que fazer de sua própria vida. Todo conhecimento pertence a deus, reside em deus, habita deus e é a ele que recorremos para solucionar problemas no âmbito ético, moral, jurídico, sociológico. A ele toda honra e todo o poder. 

Há ainda os radicais, os punks, os roqueiros e niilistas de toda sorte. Estes, repelindo deus e seus mandamentos, são acusados de impiedade. Pela lógica, se deus é a lei e a repelimos, temos uma sociedade sem lei. Daí os assassinatos, a pedofilia, tráfico, traições, homossexualismo. Comportamentos de pessoas desajuizadas que serão devidamente punidas num futuro próximo, por intermédio de um deus que a tudo perdoa e a todos apenas deseja o bem e a felicidade eterna. Lá se encontrarão com Nietzsche e Sade, mas também com todos que não foram batizados, os que se recusaram a fazer catecismo e não foram aos cultos aos domingos. Deus oferece muito e apenas exige uma pequena parte do dia em troca. 

Somos a herança maldita de séculos passados. Somos descendentes de Sodoma, os filhos malditos de Eva. Mas também somos a herança de um pacto para sempre firmado entre o deus de Abraão, Isac e Jacó e o povo eleito. Ao que parece, o pacto anda meio enfraquecido, necessitado de uma força que não mais terá porque a sociedade propõe novos rumos, novos homens, Super-Homens. E, num mundo continuamente construído e elaborado pela inteligência, pela técnica, pela ciência e pela filsofia, não sobra muito a deus senão dar seu último suspiro.

Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.