Admissão na Sociedade dos Amigos do Crime

O texto que se segue é um fragmento de Ciranda dos Libertinos. Trata-se de um texto em diálogos onde Marquês de Sade narra a admissão de Julieta na Sociedade dos Amigos do Crime. Impregnado de vocabulário pornográfico, Sade descreve uma sociedade sem deus e, portanto, viciosa, corrupta, criminosa, visão não compartilhada por outros materialistas franceses, como Holbach, para quem é possível ser um ateu virtuoso. O texto não é apenas uma afronta, mas uma reflexão sobre os costumes corrompidos presentes em todas as sociedades de todos os tempos.

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PRESIDENTE: Você promete viver eternamente nos maiores excessos da libertinagem?

JULIETA: Eu juro.

PRESIDENTE: Todas as ações luxuriantes, mesmo as mais execráveis, parecem-lhe simples e naturais?

JULIETA: Vejo a todas como indiferentes a meus olhos.



PRESIDENTE: Você as cometeria a todas sob o menor desejo de suas paixões?

JULIETA: Sim, todas.

PRESIDENTE: Jura estar plenamente de acordo com tudo o que foi lido por sua madrinha nos estatutos de nossa Sociedade? E você se submeterá às penas impostas por estes estatutos caso se torne refratária?

JULIETA: Juro e prometo tudo o que está contido nesse artigo.

PRESIDENTE: Você é casada?

JULIETA: Não.

PRESIDENTE: Você é virgem?

JULIETA: Não.

PRESIDENTE: Já foi enrabada?

JULIETA: Muitas vezes.

PRESIDENTE: Fodida pela boca?

JULIETA: Com frequencia.

PRESIDENTE: Chicoteada?

JULIETA: Às vezes.

PRESIDENTE: Como se chama?

JULIETA: Julieta.

PRESIDENTE: Sua idade?

JULIETA: Dezoito anos.

PRESIDENTE: Masturba-se com mulheres?

JULIETA: Com frequencia.

PRESIDENTE: Cometeu crimes?

JULIETA: Diversos.

PRESIDENTE: Atentou contra a vida de seus semelhantes?

JULIETA: Sim.

PRESIDENTE: Promete viver sempre nos mesmos erros?

JULIETA: Prometo (novos aplausos são ouvidos)

PRESIDENTE: Você trará à Sociedade todos os que lhe são próximos por laços de sangue?

JULIETA: Sim.

PRESIDENTE: Jura jamais trair os segredos da Sociedade?

JULIETA: Juro.

PRESIDENTE: Promete a mais absoluta complacência em todos os caprichos, em todas as fantasias lúbricas dos membros da Sociedade?

JULIETA: Prometo.

PRESIDENTE: A quem prefere, os homens ou as mulheres?

JULIETA: Prefiro muito mais as mulheres para me masturbar, e infinitamente mais os homens para me foder. (Tal ingenuidade fez a todos estourarem de rir).

PRESIDENTE: Você gosta de chicote?

JULIETA: Gosto tanto de aplicar quanto de receber.

PRESIDENTE: Dentre os gozos que são propocionados a uma mulher, qual prefere: a foda de xota ou a de sodomia?

JULIETA: Por vezes me dei mal com o homem que me fodia a buceta, mas jamais com o que me enrabava. (Esta resposta também me pareceu causar grande prazer).

PRESIDENTE: O que você pensa das volúpias da boca?

JULIETA: Idolatro-as.

PRESIDENTE: Gosta de ser chupada?

JULIETA: Infinitamente.

PRESIDENTE: E você chupa bem os outros/

JULIETA: Bem suavemente.

PRESIDENTE: Então também chupa paus com prazer?

JULIETA: E engulo a porra.

PRESIDENTE:  Fez filhos?

JULIETA: Jamais.

PRESIDENTE: Promete abster-se disso?

JULIETA: O mais que puder.

PRESIDENTE: Então você detesta a progenitura?

JULIETA: Abomino-a.

PRESIDENTE: Se ficasse grávida, teria coragem de abortar?

JULIETA: Seguramente.

PRESIDENTE: Sua madrinha está munida da soma que você deve pagar antes de ser aceita?

JULIETA: Sim.

PRESIDENTE: Você é rica?

JULIETA: Imensamente.

PRESIDENTE: Fez boas obras?

JULIETA: Eu as odeio.

PRESIDENTE:  Não se entregou a nenhum ato religioso desde a infância?

JULIETA: A nenhum.


Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.